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sábado, 7 de novembro de 2015

Menor que ninguém

Que sentimento é este que eu não consigo entender agora adulto, mas que fazia todo sentido do mundo quando as barbas ensaiavam olhar o sol?
Que maturidade é esta que me permite guiar, mas não me permite admitir a mim mesmo tudo o que acontece aqui dentro, que pede pra ser gritado, mas que depende, de repente, de um golpe de sorte do destino?
O vazio me enche e o desejo de deixar de existir para viver não tem tanta esperança.
O único motivo é o indesejo da morte, que cada vez chega desmetaforizada e assusta quem devia prezar pela vida.
Isto é um grito!
Um grito no silêncio da minha alma que se cala para deixar a razão dizer; que se perde num campo ermo escondido entre o que existe, mas não deveria se deixar saber.
Eu sou um covarde, um fraco. Um corpo vampiro que suga a energia da vida, mas não aproveita nada, apenas suga pelo egoísmo tolo, já desmistificado, mas que de tão sólido não move um centímetro neste vácuo.   
Eu sou apenas alguém / Ou até mesmo ninguém / talvez invisível / Que a admira à distância / sem a menor esperança / De um dia tornar-me visível"*
Eu sou um pássaro que nunca saiu da gaiola, mas que lutou para conseguir manter aporta aberta, que  se vale da maldade para ser temido, ouvido, mas desacreditado.
Me vendi por tão pouco. Eu me vendi ao diabo por algo que eu já tinha e tenho perdido. Me despedi definitivamente dos meus sonhos e vislumbro, através de uma névoa densa, uma distante luz, que poderia me salvar de mim mesmo e subjugar os metais que me enlaçam impedindo de subir às nuvens.
Caí. Desci. Fui onde ninguém deveria ter de ir. Para completar, não me perco sozinho, mas mato, sugo a vida – até quando? – de quem nunca me fez o mal, mas me impede de querer o bem.   
Este é um grito, um grito covarde, um grito de quem cala, continuará calado, até a morte iminente chegar de vez e acabar com toda agonia que esta vida promissora não me deixou encontrar ou entender.

*supostos versos de Renato Russo.

sábado, 31 de outubro de 2015

Pastor 03



– Pastor!
– Você novamente, irmão? O que foi desta vez?
– É que eu estive pesando...
– É justamente este o seu problema, meu amado! Você pensa demais... deixa as postas de sua mente aberta para o inimigo lhe colocar dúvidas sobre a sua fé! Amém?
– Amém. Mas, pastor, eu oro, faço jejum, contribuo com os dízimos e ofertas, compro todos os livros da igreja... invisto muito dinheiro na Obra do Senhor e não me sinto pleno!
– Meu irmão, esta sua inquietude só quer dizer uma coisa!
– O quê?
– Você precisa participar mais da Obra do Senhor! Amém?
– Amém. Mas como, pastor?
– Você precisa, além de dinheiro, dar o seu tempo para Deus. Por exemplo, o seu dia tem vinte e quatro horas, certo?
– Certo.
– Você dá duas horas e quarenta minutos para Deus?
– Não, pastor... certamente, não!
– Então! Você precisar ser obreiro em nossa igreja! Tenho certeza que o seu coração se encherá de Jesus e você não pensará mais em nada que lhe tire o foco em Cristo. Amém?
– Amém.
– A partir de amanhã, você pode sair do seu trabalho e vir direto para a igreja. Você vai começar pela provação da faxina. Amém?
– Amém...
– E todo final de semana você vai passar aqui!
– Mas e quando eu vou me divertir?
– Amado, você se divertirá aqui na igreja mesmo! O Senhor habitará o seu coração e lhe dará a alegria de Davi.

***
Numa reunião com os obreiros...

– Olha aqui! Quero saber quem foi o safado que pegou a grana dos dízimos e ofertas do culto de ontem à noite! Está faltando muita coisa! Quem era o maldito responsável pelo apurado de ontem?
– Era eu, pastor! Eu dei parte do dinheiro para uma irmã que passava necessidades... ela me disse que estava sem poder comprar alimentos...
– Maldito dos infernos! Como você, seu cretino, ousa tocar suas mãos pecaminosas no meu dinheiro!
– Achei que o dinheiro fosse para obra de Deus!

– E é! E não tem nada que dar para as pessoas! Elas que têm que nos pagar! Maldito seja você! Eu te amaldiçoo, ialamá baloquenchë, jucunataque! 

domingo, 25 de outubro de 2015

Meninas, mulheres




A primeira vez, me senti suja. Ele levantou o meu vestido e tocou em mim. Resisti, ameacei gritar. Foi embora. Não sabia se agradecia a Deus pelo livramento ou o culpava por ter permitido aquilo. Chorei, tomei banho. Enquanto lavava os meus seios ainda muito pequenos que tinham despertado o desejo imundo dele, pensava se aquilo aconteceria de novo.
Da segunda vez, ele veio preparado. Tapou minha boca antes que eu pudesse gritar chamando por alguém que estivesse distante. Tudo era longe. Com a mão livre, ele apertava forte os meus peitos, e enquanto eu sentia seu pau endurecer, ele me alisava entre as pernas. Me lambia o pescoço e cheirava a mão. Um barulho vindo de fora interrompeu sua festa.
Eu pensava o que tinha feito contra Deus para que ele permitisse isso. Antes que eu pudesse pensar em contar para alguém, ele veio até meu quarto à noite. Me ameaçou. Mataria a minha mãe, o meu irmão e depois me mataria. Apertou meu pescoço até me sufocar para provar o quanto sua palavra valia. Chorando, não produzi nenhum som e toda hora tentava não olhar na cara dele. Rezei, mas não dormi.
Desatenta, quebrei um prato enquanto preparava o almoço. Mais do que por esta bobagem, apanhei com cinto, levei murro. Me chamava de puta, dizia que eu era uma vadia. Se minha mãe não tomasse conta, acabaria engravidando de um vagabundo. Chorei, mas sem fazer barulho. Eu tinha ódio, eu tinha muita vontade de fugir, mas não tinha para onde. Xingava Deus por isso.  
À noite, naquele mesmo dia, eu ainda estava toda marcada por conta da surra. Fui dormir cedo, sono leve, preocupado. Meu coração apertava, eu remoía uma culpa que achava ser só minha. Senti aquela mão na minha bunda. Ele puxou minha calcinha, abriu minhas pernas e me penetrou. Sem soltar um pio, tentando nem chorar, virei mulher aos dez anos de idade. Não sei se doía mais lá em baixo ou no meu coração. Se eu pudesse, eu não o mataria. Eu mataria Deus por isso.
Minha mãe quase não falava comigo. Quando falava, era pra mandar fazer alguma coisa. Eu queria contar pra ela, mas achava que ela já sabia. E toda noite ele vinha no mesmo horário. Fazia sempre quase as mesmas coisas. De vez em quando, mandava eu fazer algo nojento. Sem soltar um som, fazia o que ele mandava. Durante o dia, ele me xingava. Não deixava mais eu ir pra escola, porque lá eu viraria puta. Puta era a palavra que mais usava para me agredir. Mal sabia o que era puta, mas eu preferia ser qualquer coisa do que ser eu.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

Pastor 02




– Pastor.
– Sim, meu filho.
– Eu estou com um dúvida.
– Novamente, irmão?! Vejo que o inimigo está implantando a inquietude no seu coração. Se o seu coração não tem Deus, o Diabo toma conta, Amém?
– Amém. Pastor, é justamente sobre o coração que eu gostaria de falar.
– Pode falar, irmão! Deus me deu o dom da palavra, encontrarei a palavra certa para lhe confortar, Além?
– Amém. Pastor, é que eu estou com dúvidas sobre a minha orientação sexual.
– Como assim, irmão?
– Faz um tempo que eu tenho desejos por homens. Vivo trocando de namorada e não consigo gostar de nenhuma.
– Isso é coisa do Satanás! Isso é coisa daquele que quer lhe arrastar da igreja para te jogar numa sauna cheia de veados. O Satanás quer que você gaste todo seu dinheiro com perfumes, roupas de marca... ele está implantando esses desejos no seu coração para você ter cada vez menos dinheiro para o dízimo, para as ofertas e para os propósitos. Deus não gosta de gays, Amém?
– Amém. Mas, pastor, eu estou dando quase todo meu dinheiro em propósitos para esses meus desejos pararem... Eu andei lendo a Bíblia e não vi Jesus condenando em momento nenhum a homossexualidade.
– Mas você não pode confiar só no que sai da boca de Jesus de acordo com o evangelho. Em Levítico 18:22, Jesus fala “Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante”, Amém?
– Amém. Mas, pastor, este livro não foi escrito por Moisés... muitos e muitos séculos antes de Jesus?
– Está vendo, irmão, como o inimigo está te cegando! Antes mesmo de Jesus nascer ele já era Deus... e ele quem falava com Moisés. Amém?
– Amém.
– Olha. Você precisa deixar de frequentar festas. Você vai ficar em casa nos finais de semana lendo os livros que o bispo escreveu. Amém?
– Amém. Mas, pastor, não é melhor eu ler a Bíblia?
– Não, amado. Leia os livros do bispo que ele já leu a bíblia e deixou mais fácil de entendê-la. Pra entender a Bíblia, você precisa estar cheio do Espiro Santo, caso contrário, o inimigo te encherá de dúvidas. Amém!
– Amém, pastor!

sábado, 19 de setembro de 2015

O comedor da escola



Bombado. Notas baixas. Uma ou duas reprovações. Alto índice de ocorrências por indisciplina. O comedor da escola é um sujeito bonito por fora e cheirando a ovo cozido e batata doce por dentro. As meninas o adoram... e ele, geralmente, se aproxima das estudiosas e nem sempre é pra conseguir cola.
Se fosse apenas cola... O comedor da escola já foi pego colando, já foi pego fumando, já foi pego estuprando. “Cu de bêbada não tem dono” é o lema do seu grupinho de amigos, que transcende a Constituição, mas não fere o regimento. Eles têm tempo pra beber, trepar, viajar, mas não estudam...  são os meninos que dormem durante as aulas, porque acordaram muito cedo pra treinar, como eles chamam a ida à musculação.  
Todos bebem com o comedor da escola. Todos resenham com ele. Ele vai embora bêbado das festas com o carro cheio de gente. O próprio carro que dirige aos dezessete anos sem habilitação, sem cinto, sem medo. Chega em Pirangi com a turma, continua bebendo com o som alto. Uma das meninas agora já é mulher. O arrependimento será esquecido nos próximos meses, nos próximos porres, quando passar na Federal.
O comedor da escola não vai passar na Federal, mas vai ser doutor! Já no primeiro semestre do curso de Direito da UnP, consegue estágio no escritório do pai, mas quer ser juiz como a mãe. Maldita OAB! Agora, ele tem de estudar. Com dinheiro, dá-se um jeito. Já tem sala própria, tem alguns clientes importantes...
           Está defendendo um rapaz de dezessete anos. Bombado. Notas Baixas. Uma ou duas reprovações. Alto índice de ocorrências por indisciplina. Uma batida com o próprio carro que dirigia sem habilitação, sem cinto e sem medo. Uma morte de um mendigo que dormia na calçada na madrugada. Causa fácil. Mais uma vitória.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Dos sonhos




Cresceu e não apareceu,
Permaneceu com sonhos, mas outros,
Perdidos, despidos de romantismo,
Abraçados pelo medo do fracasso
Que, de fato, não os alcançaram... ainda.

E o amanhã, sempre longe,
Vem mais perto, mas não se deixa pegar...
E eles mudam, variam, não permitem que a felicidade chegue!
Sempre, sempre, sempre falta.
Falta ar, paixão, metal, ternura, sossego...

E a dor por sofrer por tão pouco
Não é tão grande quanto o sofrimento
Amenizado pela dor pelo outro
Sufocada pela dor egoísta de se ter o que se deseja,
Mas não sabe ao certo o que é.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Menino da praia




Menino da praia

Mais um menino, mas não mais apenas um menino.
Aylan não deixa de luto só o seu pai, deixa o mundo num pesar sem fim.
Imagem chocante, imagem forte... dor sem limites!
Sentimentos que se confundem frente ao ódio e a falta de esperança.
Um menino de três anos. Um menino sírio.
Mundo cruel. Humanidade sem limites.
De novo, o mar abriga a morte, abriga um corpo inerte
O corpo de um menino que ainda vive
Um menino que será eterno, símbolo da uma paz necessária.
Menino da praia, nunca esqueceremos de você!
Dê à humanidade a chance conseguir o perdão das almas puras
Ainda sei que a temos esperança... ajude-nos a buscar a paz!
Paz que sempre foi frágil, frágil como um menino,
Rasa como a beira do mar.
Ajude-nos, Menino da praia, a conseguir o perdão dos inocentes.
Imagine que todo sofrimento que você passou foi um sonho.

Agora, mais do que nunca, precisamos da sua luz. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Crente que é gente




Carla era uma mulher sem muito amor. Era mãe de dois filhos já na faculdade, mas que moravam com ela. Era filha de pais aposentados que moravam no interior, mas que se falavam todo dia pelo telefone. A protagonista desta curta história era casada há 21 anos, e, durante muito tempo, o seu sonho foi estudar e trabalhar, mas tinha que cuidar da casa, cuidar dos filhos, cuidar do marido e das coisas da igreja.
            Enfim, para a sua felicidade, Carla conseguiu, depois da maturidade, entrar numa faculdade. Ela escolheu uma profissão de status, que lhe conferiria o respeito que ninguém, nem marido nem filho algum, já a haviam dispensado. Catou seus documentos e conseguiu um financiamento federal para estudar Direito numa decente universidade do seu estado. Ah... ela estava tão feliz... agora, como a sua irmã, que era médica formada na Universidade Federal, ela teria algum valor... Direito era um curso muito belo... poderia, além do diploma, lhe conferir dignidade, como se só quem tivesse um título emoldurado na parede tivesse o direito inalienável, como anos atrás, de ter dignidade neste país.
            Foi uma luta terminar o curso... no início, teve que se virar para pagar o material, os livros e ainda pagar pelos trabalhos e provas que não conseguia fazer... Afinal, não é uma, duas ou dezoito disciplinas que não se acompanha bem que fará um estudante universitário sair com menos bagagem, não é mesmo? E assim ela foi... fez os estágios, colou o grau... o marido, nestes cinco anos, havia sido promovido então eles já vinham pagando o FIES para não deixar tudo pra depois...
            O problema, caro leitor ou leitora, é que quando você paga para fazerem seus trabalhos, quando você paga para fazerem seus resumos, fichamentos, só te darem a parte pronta num seminário ou mesmo paga para fazer uma prova em dupla, você acaba saindo da universidade do mesmo jeito que entrou. Agora, Carla era uma doutora como diz no popular, mas não conseguia passar no exame da OAB e, consequentemente, exercer a sua profissão. Tinha um diploma na parede. Tinha apenas um diploma na parede.           
            O problema, sabe, não é nem a falta da carteira da Ordem ou o fato dela ter pago pelos trabalhos, enfim... O problema todo é a sua arrogância... a sua prepotência. Parece que, mesmo não tendo entrado de verdade no mundo do direito, a empáfia que alguns profissionais carregam a acompanha. Por isso, ela arruma briga com o padeiro, com o porteiro, com o professor dos seus filhos... Se um dia você cruzar com ela, não ouse falar em leis, direitos ou constituição em sua frente ou pelas costas, ou você será vítima – sim, vítima – de um discurso armado, pronto, no esqueleto, faltando apenas a cereja, a contextualização temporal e local para que ela tente passar por cima de você...
            Sim... como não conseguiu muita coisa em sua vida, agora, a sua alegria é passar por cima do ego alheio, da moral, da verdade... tudo que estiver acompanhando o seu opositor – todos que não concordam com ela são seus inimigos – será alvo de seus argumentos ancorados no senso comum com algumas palavras-chave prontas, em stand-by aguardando o momento oportuno.
          Quando consegue, raramente, passar por cima de alguém menos instruído, Carla se sente mais gente, mais ser humano, mais advogada formada... o seu marido, pobre coitado, nem entra mais na onda de sua esposa. Ele também participa de sua igreja que prega o amor eterno entre os casais, o ‘felizes para sempre’... e acha que é uma provação o que ele passa... como se o seu deus quisesse que ele sofresse tanto vendo a mulher pregar e ler uma coisa nos púlpitos da igreja e fazer absolutamente o contrário em sua vida real.
            É, meu amigo ou amiga, eu me preocupo muito com este tipo de pessoa que quer se tratorar através das outras, estes parasitas que têm seu ego inflado quando suprimem da forma mais baixa e mesquinha o direito dos outros. Quando eu encontro com Carla, eu finjo que ela ou eu somos um personagem... e tento não levar para o lado pessoal as asneiras que diz. Pra mim, agir desta forma é algo que vai contra o que eu sigo, o que eu prego, o que eu vejo e acredito. Eu creio que o mundo precisa de mais humanidade e menos arrogância. Carla, por sua vez, é crente que é gente. 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

É medicina. É Federal!


Cara de médica, família de médica. Sonhava desde menina em ser médica. Era uma aluna semiexemplar... tirava boas notas, mas não mostrava muita humanidade. Ela era aquela menina que questiona o professor como um arguidor de banca de pós-graduação, só que sem saber de quase nada. Ao ter o questionamento sempre respondido e contradito, não concordava. Tinha lido em algum lugar que era diferente... O pai, que era médico, disse que tal conceito de biologia era diferente... A mãe, também médica, disse que tal concepção de linguagem era diferente... A irmã, estudante do último período de medicina, disse que o cálculo do problema de matemática era diferente. Estava tudo errado e não tinha argumentos para sustentar sua indiferença.
Médica, sim. Ela seria médica em breve. Claro que passaria no vestibular, mesmo com as cotas injustas que diminuem as chances dos filhos de quem trabalhou a vida inteira para pagar uma boa escola particular. Nicole acreditava em meritocracia. Achava que, ao estar naquela escola de ponta paga pelos seus pais que herdaram a profissão elitista dos seus avós, tinha as mesmas oportunidades de um aluno de escola pública. Não, mentira. Ela não tinha as mesmas oportunidades, na verdade, ela era prejudicada pelas malditas cotas. Malditas cotas! Uma discriminação com quem é negro, porque está dizendo que o negro não tem a mesma capacidade de alguém branco, loiro, de olhos claros e família de médicos.
Nunca maltratou os funcionários terceirizados da escola... mas nunca cumprimentou o porteiro ou o faxineiro... Na verdade, nunca reparou nos faxineiros. Mesmo dispensando uma educação falsa e, por várias vezes, falha aos professores e demais membros da equipe pedagógica, Nicole era a esperança da escola. Teremos, certamente, uma aluna aprovada em medicina este ano e garantir os mesmos resultados dos anos anteriores. Essa menina vai estampar nossos outdoors e fazer campanha com curativos coloridos no nosso site. Vamos ter muitos alunos... Inclusive, ela é boa candidata para tirar nota 1000 na redação.
Mediana. Não foi a primeira colocada. Se não fossem os cotistas, teria até ficado numa posição melhor no SISU. Não importa. O que importa é que Nicole é Federal. Já é médica. Nas suas redes sociais, médica em formação era o que mais se via... mesmo antes da matrícula na UFRN, afinal, ela já estava se preparando há anos para entrar na Universidade. Após a festa, regada a muita carne de primeira e whisky 18 anos, Nicole iria para Miami comprar as suas roupas para começar a faculdade. Trouxe várias sandálias e sapatos brancos, bolsas de marca, roupas de grife... mas o principal era o jaleco. Desde pequena, já tirava fotos com jaleco.
Era muito trabalho. Estudar medicina não é fácil pra ninguém. Estudar medicina e ter uma vida social badalada é mais difícil ainda. Fora as calouradas, era preciso continuar frequentando as festas disputadas do seu nicho social. Mas ela era guerreira. Ao contrário dos cotistas, ela tinha mais inteligência para conciliar os estudos às demais atividades. Ganhou um carro antes da viagem à Miami. Um carro importado, claro, quem é que dirige carro popular na faculdade de medicina? Só quem entrou pela cota. Como aquele carinha que era farmacêutico e aproveitou a cota por ser negro. Nada a ver. Ele já tinha até carro, tinha uma profissão. Como alguém se submete a um programa que te reconhece como alguém inferior?
Passaram os primeiros semestres. Começaram os estágios. Não sei por que tem que estagiar em hospital público também... era mais fácil eu ficar no hospital da minha família, é lá que eu vou trabalhar! E a especialidade? Está chegando o final do curso. Nicole não quer cuidar de criança, detesta crianças. Desta velho também, Deus a livre de ser geriatra. Com cardiologia também não queria mexer, só iria cuidar de velho, gordo e velho gordo. Não era muito chegada a sangue... não queria fazer cirurgia. De problemas de pele, ela também se esquivava... tem cada gente perebenta, não!  Anestesiologia parecia ser uma área legal. Ninguém era anestesista na família. Dava grana e, em tese, era só dar injeção.
Assim que formada, se tornaria a anestesista chefe do hospital. O anestesista que ocupava este posto foi convidado a cuidar dos residentes. Só faria supervisão e, de quanto em vez, iria para a sala de cirurgia. A nova médica da família agora tinha um jaleco de médico. Tinha uma sala de médico. Trabalhava no ramo médico de sua família. E continuava sem enxergar o faxineiro, nem dar bom dia ao porteiro e desconfiando sempre de alguém que fala diferente daquilo que os seus familiares e amigos médicos falam. Médico sabe mais que todo mundo, menos se o médico tiver entrado pela cota.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

Pingo de gente



            Era uma pequena creche num bairro nobre. A cada ano, as pessoas tinham menos filhos e, consequentemente, diminuía o número de alunos. Sem falar, também, que algumas escolas grandes estavam começando a oferecer vagas em período integral para bebês a partir de quatro meses, uma forma de fidelizar a clientela, pois o aluno sairia de lá direto para a universidade, se passasse, claro.
            A dona não queria ver o negócio começado pela sua mãe falir. Já havia demitido funcionários, vendido o terreno ao lado que servia de estacionamento, mas as contas não fechavam. Não tinha jeito: ou as pessoas começavam a fazer filho, ou em pouco tempo a sua creche iria falir. Ela deveria bolar um plano, fazer alguma coisa... não dava pra competir com as grandes escolas, mas dava pra tentar fazer com que as pessoas tivessem, por bem ou mal, mais bebês.
            A primeira coisa que pensou foi aumentar a quantidade de sexo entre os moradores da região. Descobriu um produto na internet que fazia as mulheres terem um tesão louco. Pensava que os homens não resistiriam às mulheres enlouquecidas. Foi em muitos lugares que as mulheres frequentavam na calada da madrugada de uma segunda-feira e pingou o produto nas bebidas preferidas do sexo feminino. Infelizmente, pros seus planos, não deu certo. Os motéis ficaram lotados, a cidade andava mais alegre, leve, mas as mulheres já tinham a cultura dos anticoncepcionais e os homens eram acostumados a andar com camisinhas.  
            Claro. Não pode haver procriação com o uso de contraceptivos. Mais uma vez, na calada da noite, Carolina foi sozinha, pelas farmácias da cidade para roubar todos os anticoncepcionais e preservativos das farmácias e postos de saúde, mas logo as pessoas resolveram o problema. Começaram a encomendar nas farmácias das cidades vizinhas, receberem por correios, etc. Era inviável recolher todo aquele material, além disso, ela tinha um problema: onde colocaria o roubo de semanas? Ela devia criar um novo método.
            O fracasso em conseguir fazer com que bebês novos fossem gerados, fez a nossa heroína da família tradicional pensar em algo infalível desta vez. Ela ia partir para a ignorância. Contratou dois capangas e começou a sequestrar homens e mulheres da região. Eles era trancafiados na fazenda de sua família, em um ambiente muito confortável, com vinho, flores e velas decorativas. Era inevitável. Carolina pingava o tal produto no vinho e os mantinha por algum tempo na fazenda até que um possível efeito do anticoncepcional terminasse. Batata!
            Em nove meses, os hospitais da cidade estavam lotados. Em mais seis meses, já não havia vaga nas escolas grandes para que os novos bebês fossem matriculados. Já não era sem tempo! A creche Pingo de gente estava, novamente, com sua lotação máxima e rejeitando novos bebês. Todos saíram ganhando com o pano infalível de Carolina.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

No inferno




– Seja muito bem-vindo, Irmão Roberto!
– Quem é você? Onde estou?
– Tenho muitos nomes, mas você pode me chamar de Satã.
– Como assim? Estou no inferno?
– Não... imagina. Aqui é o paraíso! 
– Sério?
– Claro que não! Eu estou mentindo. Não é você mesmo que passou anos me chamando de Pai da Mentira?
– Por que eu vim parar no inferno?
– Ora! Você pecou.
– Mas eu me arrependi.
– Mesmo?
– Claro! Aceitei Jesus há 23 anos.
– Isso não quer dizer que você se arrependeu. É até pior, Irmão Roberto, porque você se confiou nisso e não fez nada pelo próximo, não deixou de fazer muitas coisas contra si e contra os outros.
– Como assim! Sou dizimista, dei muita oferta!
– HAHAHAHAHAHA...
– Fiquei 23 anos sem beber e fumar... Minhas filhas não usavam roupas curtas, não namoraram antes da hora. A minha mulher foi uma serva também.
– Justamente contra sua família que você mais pecou. Quantas vezes suas filhas quiseram ir à praia, a uma festa e você proibiu?
– Claro! Elas iriam se desviar.
– E a sua mulher? Coitada. Não podia trabalhar fora, você a impediu de manter as amizades que não foram da igreja... ela não podia sair sem você, mesmo você sendo um crápula antissocial... Nem visitar a família no interior você a deixava!
– Uma serva de Deus esposa de presbítero deve dar o exemplo!
– E você?
– Sempre dei o exemplo.
– A pornografia que você assistia o tempo todo não era um vício? Os julgamentos que você fazia não eram exemplo? A falta de carinho à família, fazer suas filhas passarem vergonha com os amigos, negar um jantar num bom restaurante a sua esposa no aniversário de casamento para garantir o dinheiro da igreja não era pecado?
– Não. Era para honrar meus propósitos com Deus.
– Seus propósitos! Você se alegrava com a morte de bandidos, queria que os menores infratores fossem exterminados. Você queria que os ateus, espíritas e católicos sofressem até largarem as suas crenças e aderissem a sua igreja.
– Esta é a vontade de Deus!
– Você nunca ajudou uma pessoa que precisasse.
– Dar esmolas é sustentar a vagabundagem...
– Quem está falando de esmolas? Como alguém que ocupa um cargo religioso, você só agrediu, só menosprezou os outros, só fez as pessoas ao seu redor se sentirem menores diante de suas qualidades...
– Mas...
– Está vendo? Por isso você está aqui... aqui é o seu lugar!
– Deus não faria isso comigo! Você está mentindo!
– Você acha que Deus, que tem o universo inteiro para cuidar está preocupado com você, um simples homem da Terra? Fique à vontade e aproveite o lago de fogo e enxofre.
– Espere!
– O que foi?
– O que são aquelas pessoas de branco resgatando os enfermos?
– Ah... são os espíritas.
– Então o inferno não é eterno... tem uma saída?
– Não pra você.
– Como assim?
– Você sempre acreditou que o inferno e o paraíso eram eternos. Então, pra você eles são.
– Como assim?
– Argh, quanta burrice! Olha, quando você morre, o seu espírito tem o destino que você acreditava que teria quando estava encarnado. Os ateus, por exemplo, não vêm pra cá e nem para o céu, o seu espírito desaparece.
– Não acredito! Eu também quero ser resgatado, eu quero sair daqui!
– Você não acredita nisso.
– Se a questão é a crença, acreditei que iria para o céu.
– Mas você cometeu pecados.
– Quem vai para o céu não cometeu pecados?
– Claro! Todos que foram para o céu cometeram pecados, mas eles não acreditavam que viriam para cá por causa disso.
– Isto é injusto!
– HAHAHAHAHA... Vai me falar sobre injustiça? Não fui eu que criei as regras.
– Meu Deus! Por favor, senhor Satã, me deixe sair daqui.
– Não posso.
– Mas...
– Preciso ir. Aproveite o lago...

domingo, 12 de julho de 2015

O ator da Globo




– Rapaz, vou te contar...Todo ator da Globo é veado.
– Que onda... impossível todos serem veados.
– Mas são... todos são. Todo ator e diretor da Globo é veado.
– O Tony Ramos não é veado.
– É sim.
– Ouxe!
– Eu estou dizendo... é tudo veado na Globo.
– E o Lima Duarte, o Marcos Pasquim, o Rodrigo Lombardi?
– Cara, lá é tudo veado. Só consegue papel na novela os que dão o caneco para os diretores... todo diretor lá é veado... estou falando.
– O Marcos Paulo era veado?
– Está de sacanagem? Claro.
– Não acredito não.
– Olha, lá é tudo panela. Tem panela pra tudo. Reparou que há um ciclo de atores, que as novelas têm o mesmo grupo de atores?
– Sei, mas...
– Então. Quem decide é o diretor, que come os atores.
– E as mulheres?
– Elas são do grupo do pó!
– Como assim?
– Eles se reúnem para cheirar pó. Na Globo, todo mundo é viciado em pó.
– Impossível.
– Estou dizendo... Eles fazem festas nas casas dos diretores... elas cheiram e trepam...
– Se os diretores são veados, como comem as mulheres?
– Agora, pronto! Só porque o cara é veado ele não pode comer mulher?
– Pode...
– Então!
– Esta história está mal contada. É estatisticamente impossível todos serem veados e viciados em pó.
– Mas são. Estou dizendo. Todo mundo que trabalha na Globo é veado.
– E como você sabe disso?
– Fiz novela na Globo por dois anos.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

O que me conduzia





Suspiro de alívio?
Tenho ordens expressar
Para me expressar.
Entendo. Compreendo a necessidade
Tenho olhos e pés para sonhar.

Distraído, tento ser quem não fui.
Complicado? Todos mudam,
Até seus olhos azuis
Que passaram a me enxergar,
Que deixaram de me fazer sonhar.

Às vezes penso:
É melhor me esconder do sol e da luz
E avistar, de longe, a quem hoje não me conduz.
Complicado? Não me acho capaz de explicar
E é comigo.
Em outros braços macios, consegui, por destino,

Encontrar abrigo.

junho de 2009

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A professora gata




Era uma menina linda. Todos da rua, da escola, das redes sociais mais badaladas a admiravam. Ela era linda, linda. – Tem cara de médica, essa menina – dizia sua tia advogada. – Já decidiu sua profissão, Giovana? – perguntou seu avô chato durante o último natal. – Vou ser professora!
Silêncio.    
Após os instantes de calma que antecedem os bombardeios, todos a questionaram, coitada da linda moça, o motivo pelo qual ela queria enfrentar uma vida sofrida de sala de aula com um salário miserável, sem contar no tipo de marido que iria arrumar. – Ninguém quer casar com uma professora... logo, logo, você vai ficar feia e gorda! – a prima dela, estudante de psicologia, bradou.
Contra todos e confiando em seu desejo, prestou vestibular entrou no seu sonhado curso de licenciatura. Ela continuou chamando a atenção de todos. Alunos de outros cursos, colegas, professores, professoras... Todo mundo era atraído pela beleza ímpar da jovem estudante. Muitos, sobretudo muitas, desacreditavam em sua vocação, achavam que ela estava fazendo hora no curso, adiantando disciplinas comuns até passar no seu vestibular certo.
– Olha só! Não passou em Direito e está aqui pagando produção textual I com a gente só pra adiantar o curso. Duvido que ela passe!
Mas passou. Não só passou na disciplina em questão como passou com notas bem acima da média em todas as disciplinas daquele primeiro semestre. E foi passando com louvor, com louvor, com louvor até a colação de grau e inevitável láurea.   
Durante os quatro estágios obrigatórios, foi se afinando cada vez mais à profissão. Ela tinha certeza que escolheu o curso e profissão certos. Em pouco tempo, já dava aula em escolas particulares. Mais rápido do que se imaginava, passou num concurso para a rede pública. E ao contrário da praga de sua prima, parecia ficar cada vez mais linda.  
Os meninos não perdiam a sua aula. Eram bastante concentrados. Não davam trabalho. No entanto, apesar de não tirarem os olhos da professora, as notas naquela disciplina não aumentavam nunca. Alguma coisa havia de errado. – Mas Giovana é uma pessoa tão capacitada! Acabou de passar na seleção de mestrado, analisamos a sua aula e foi perfeita! – argumentava em seu favor uma das coordenadoras.  
Não demorou muito até questionarem a sua competência. Giovana era linda. Mais linda do que muita atriz de tevê. – Ela está desconcentrando os alunos – um dos professores sugeriu. – Eu também, acho. Até me questiono se suas aulas são tão boas assim para ela trabalhar nas melhores escolas da cidade – corroborava uma professora já em final de carreia.
Eram ataques que não terminavam nunca. Ataques traiçoeiros, pelas costas, pois ninguém era capaz de argumentar com Giovana. Até questionavam o seu planejamento, todo o seu trabalho extraclasse, pois uma pessoa tão linda, tão em forma não deveria ter tempo de planejar aula e corrigir bem as provas, já que vivia em academias e clínicas de estética que ajudavam a sua beleza natural a se destacar.
No entanto, mais do que ter um corpo bonito, Giovana gostava do seu trabalho. Muita gente começou a insinuar que era a sua beleza que atrapalhava os alunos. Além de linda, ela era gentil, dinâmica. Os alunos adoravam as suas aulas. Mas algo nela, diziam, estava errado. Prometeu, então, a si mesma a se tornar uma professora inquestionável. A única coisa que dava margem para a discussão era a sua beleza, portanto, era isso que ela iria mudar primeiro.
Logo após a epifania, deixou de ir à academia, fazer suas corridas regulares, a frequentar os salões de beleza e estética. Além disso, ela abandonou a dieta, começou a comer compulsivamente na tentativa alucinada de evitar qualquer crítica.  
Em pouco tempo, o seu corpo começou a se modificar. Ela teve de comprar roupas novas, abandonar os saltos. O seu rosto também começou a mudar. Ela ganhou muitas espinhas, algo que não teve durante toda a puberdade. As suas bochechas, agora, faziam com que seus olhos se fechassem durante os sorrisos... Ela estava completamente mudada... até o cabelo mudou.
Em um ano, Giovana havia engordado muito. Não tinha mais beleza, pelos menos a beleza do padrão atual da sociedade. Restava apenas um arremedo do que um dia foi o seu principal atributo. Em dois anos, os alunos novatos já não sabiam da sua fama de bela, algo que os veteranos faziam questão de lembrar... mandavam fotos pelo WhatsApp, relembravam cenas da professora apagando o quadro de uma forma que eles julgavam sensual. E isso, de certa forma, a deixava triste.  
Os seus superiores, de todas as escolas, entenderam o seu empenho em melhorar a sua atuação profissional, mas algo ainda estava errado. Giovana havia engordado 73kg, mas as notas dos alunos ainda estavam baixas. Eles continuaram prestando atenção nas aulas, pois, de fato, as suas aulas eram bem significativas, mas as notas não subiam, mesmo quando era prova da mesma disciplina elaborada por outra pessoa.  
Três anos se passaram desde que deixou de ser a professora gata para ser a professora gordinha legal. Talvez fosse isso, eles induziram. Não era muito vantajoso para ela ser legal. Giovana não enfrentou dificuldades para entrar numa depressão e adotar uma postura mais ranzinza em sua vida. Não tinha mais um riso fácil, não era mais gentil. Havia se tornado física e psicologicamente um retrato fiel das pobres professoras do passado, as que servem de exemplo ruim. E as notas... as notas dos alunos não mudavam.
Tentou de tudo. Saiu da sua metodologia inovadora e assumiu um ensino pautado na memorização. Os alunos, agora, não tinham mais voz em suas aulas, que eram centradas, sobretudo, no livro didático sem fazer referência a nenhum conhecimento do mundo real. Mas as notas... as notas dos alunos continuavam as mesmas.
Foi demitida das escolas particulares. A escola pública em que trabalhava a colocou na biblioteca, pois não fazia sentido mantê-la em sala de aula. Para o seu lugar, as escolas contrataram uma professora recém-formada, cheia de energia, simpatia, alegria, vontade de inovar e beleza. E as notas dos alunos continuaram as mesmas notas baixas de sempre.


domingo, 28 de junho de 2015

Enviagrado





            Estava em um bairro afastado, na Zona Sul. Não tinha problemas, iria cobrar o de costume. Iria satisfazer, mais uma vez, os desejos sexuais de alguém que, provavelmente, não lhe atrairia. Antes de chamar o moto-táxi de sempre, ligou para a farmácia e pediu alguns estimulantes sexuais... estava tomando cada vez mais comprimidos para impotência.
            César foi para o motel de sempre se encontrar com um cliente diferente. Tinha esperança de ser alguém que chamasse atenção, despertasse algum desejo, que fizesse curtir a experiência. Não aconteceu. O parceiro momentâneo era como ele: alto, sarado, moreno, jovem. Não se atraía por tipos comerciais. E nem se atraía pelo oposto: baixo, gordo, branco, coroa. Na verdade, se atraía por um tipo bem particular: alto, pernas finas e braços fortes, tatuagens, cabelos pintados, asiático.
            Antes de cumprir a sua função de especialista, tomou uma dose maior de estimulante porque o cliente era muito feio, e ele já tinha trabalhado pela manhã e parte da tarde. Terminado o serviço, cliente satisfeito, pagamento feito... só faltava uma coisa: o pinto baixar.
            Quase se desesperou. Tomou banho frio, tentou pensar que a mãe estava morrendo, procurou fotos da Ana Maria Braga de topless. Nada. Continuava a todo vapor. Não sabia o que fazer. O cliente deveria voltar para casa: aniversário da esposa, jantar, sobremesa, vinho.... Não tinha jeito, César não podia esperar. Chamou o moto-táxi de sempre, estava ocupado. Não poderia pagar um táxi, muito menos voltar de ônibus. Chamou um moto-táxi desconhecido.
            Num primeiro momento, achou que era um assalto. Tentou recusar a corrida, mas precisava dos dez reais. Cobrou quinze sem sucesso. A cada semáforo, a cada quebra-molas, a moto empurrava o passageiro contra o piloto, que já quase sentava no tanque. A chuva apertava, o pneu estava meio careca. Dez reais não valiam tanto assim.
            César foi abandonado no meio do caminho. Estava constrangido, molhado, humilhado e sem saber como voltaria para a Zona Norte. Tentou abrigo sob a marquise de uma pastelaria. Lá de dentro, saía um chinês de pernas finas e um dragão tatuado no braço largo, tinha um metro e noventa e três, cabelos loiros e uma toalha seca.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Palavrão e Boca Suja – novo sucesso




Depois que Mirosrio e Durvalindo ganharam bastante dinheiro tocando nos bares mais famigerados de Goiás, eles passaram um tempo sumidos das apresentações... A senhora Francisca Joana adoeceu e eles tiveram que tomar conta do negócio da família, até que Mirosrio casou com uma das funcionárias da mãe e a sua amada pôs-se a gerenciar o cabaré mais conhecido da região para que o seu marido e o seu cunhado pudessem voltar ao show business da baixaria.
Rosa Maria, mais conhecida como Giovana Teco-Teco, tinha punhos de ferro e lábios de veludo. Havia jurado ao marido que não faria mais programa, discurso que usou para conquistá-lo, dizendo que era moça direita, mas teve que cair na vida para não morrer de fome. Pensando nela, Mirosrio escreveu a letra da canção que posteriormente Durvalindo colocaria a melodia. A canção se chamava Meu filho não será filho da puta.

Eu fui filho de mãe puta,
A boca que chupava me dava boa noite.
Jurei que nunca deixaria a cuca
Pensar o quanto ela usava a bunda.

E então conheci uma nêga
Da pele branca com o xota rosa.
Ela só era virgem da orelha
Nas suas tetas, abrigava pirocas.

Sua buceta era quase limpa,
E melhorou quando só foi de mim...
E eu perguntava quantos tinham metido,
Ela dizia, com um sorriso assim:

Perdi as contas dos caralhos grandes
Que já levei na xota e no cu.
Mas quem me lambe é me come melhor
É você, meu corno, é o seu piru.

Com este novo sucesso, Palavrão e Boca Suja voltaram ao cenário do sertanejo putaneiro da região. Venderam tantos discos que ganharam disco de prata. Eles, agora, estão começando a sair do centro-oeste e fazem apresentações no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Maranhão, no Paraná... em todos os quatro cantos do país, seja pobre ou seja rico, você encontra sempre umas das músicas de Palavrão e Boca Suja nos cabarés de luxo e nas casas de drinks da região.
Enquanto eles tocam pelo Brasil, Giovana abre as portas do Cabaré Todarrô Lakiédura para inúmeros visitantes que pretendem que Meu filho não será filho da puta seja apenas uma música bonita, e não uma realidade para o pobre, mas agora homem rico, Mirosrio.

confira o primeiro sucesso aqui 

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma peça a menos

Um ser descartável
Ensina a cantar sem ter voz
Estimula sonhos, um desiludido
Se vendendo barato, parado?
Desestimulado, desgosto. Escolha?

Diz: - é belo sonhar!, não dorme
- o céu é bonito, o sol sempre nasce!
Pescoço caído, se sente traído
Quem deveria zelar pela classe?

Escolha? De quem?
E a peça, mais uma peça, apenas uma peça,
Pensa em seguir, tem medo.
E cedo não é, o bonde vai passar.

sábado, 20 de junho de 2015

O demônio do canavial




Oito anos, uma faca e uma vontade de chupar cana. Sem permissão, invadi o quintal do vizinho para roubar um pouco do bambu doce que seria a sobremesa de uma janta que não tão agradável. Naquele escuro terreno do interior paulista, segurei meu medo e deixei a vontade de consumir algo engordativo tomar conta dos seus instintos. Sentia um pouco de medo, mas a vontade de me lambuzar de cana era maior... Nenhum mal poderia acontecer, certo? Ledo engano.  
Uma criatura demoniosa sai apavorante da terra quando eu estava levantando a faca favorita da minha mãe para desferir o primeiro golpe na minha sobremesa. Quando vi aquele ser das trevas, fiquei sem ter como gritar, sem quase respirar... Pavor, muito pavor. Aquele bicho parecia um bode com rabo de cobra, chifres pontudos e uma aura maligna que me fez esquecer de mim mesmo. Estava convencido de que não iria dormir na minha cama, mas numa cama de pregos em cima de um braseiro no inferno.
As chamas do inferno iriam consumir a minha carne magra, os meus olhos seriam arrancados pelas unhas cheias de bactérias demoníacas que me presenteariam com uma infecção terrível que tiraria toda a pele do corpo e comeria o tutano dos meus ossos sem deixar nenhum vestígio de humanidade de em meu corpo, que só teria um coração para que eu pudesse lembrar de que não poderia invadir o terreno alheio para roubar cana-de-açúcar.
Sorte que minhas pernas não entenderam o perigo e correram, correram como nunca correram e nunca correriam novamente. Naquele momento, a minha preocupação se dividia entre as pernas, o demônio do canavial e os pulmões que começava a falhar. Eu não conseguia respirar, e ainda faltava um bom pedaço de chão para percorrer... Cheguei, enfim, em casa com os olhos mais esbugalhados do que um japonês telescópio, agradeci a Deus em pensamento por encontrar a minha mãe lavando a louça do jantar. Lhe contei o que tinha acontecido, que vi um demônio que me levaria para morar no inferno. Apavorado, ouvi da minha mãe: – Cadê a faca? Vá já buscar, Silvo Luís!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Glaydson, o Vampiro Natalense: uma nova chance




           Já não tinha vida, mas o seu coração batia de pavor num pulsar frenético. Lord Sevlá, um vilão terrível, iria transformar a breve história de Glaydson em pó. Estava pronto para matá-lo com um golpe vorpal quando foi avertido por Gabriele, a vampira mais jovem do grupo.
           – Não o mate, meu senhor! Eu suplico.
       – Como assim? Ele está botando a nossa sobrevivência em jogo. Demoramos muito tempo para controlar os caçadores daqui... ninguém sabe que existimos... por conta deste energúmeno, vão começar a questionar novamente a existência de vampiros no Rio Grande do Norte.
            – Eu vejo alguma utilidade nele.
            – Qual?
           – Não sei... apenas uma sensação de que este sujeito asqueroso ainda nos será muito útil.
            – Mais uma de suas visões, Gabriele?
            – Não sei se uma visão, meu senhor... é uma sensação.
         Os demais membros do conselho – se é que se pode chamar toda representatividade de um grupo de conselho – decidiram manter Glaydson vivo... pelo menos por um tempo. É claro que não era preciso conselho nenhum, pois quem decidia o destino de todos nas terras potiguares era o Lorde Sevlá.
 – Tudo bem, Gabriele. No entanto, ele é responsabilidade sua. Trate de ensiná-lo como se portar...
– Perdão, meu senhor, mas eu tenho uma sugestão antes.
– Diga, Conrado. O que você tem a dizer?
– Sugiro deixá-lo passar a noite comigo. Garanto que ele aprenderá a se portar.
Não houve objeção. Conrado era um sujeito calado, às vezes ficava dias sem abrir a boca... falava tão pouco que, quando falava, todos ouviam prontamente, mesmo que besteiras fossem comuns. Além do seu jeito calado, este vampiro era conhecido pelas suas técnicas de tortura que vieram se aprimorando desde a Idade Média. Ensinou muita coisa aos militares brasileiros à época do Regime. Ele falava pouco, mas poderia fazer qualquer criatura até agora conhecida confessar qualquer coisa sob os seus métodos. Na verdade, ninguém sabia como aquele experiente soldado do mal tinha ido parar nordeste brasileiro, mas seus serviços eram muito úteis ao Lord Sevlá e a qualquer senhor que lhe contratasse a preços nada amigáveis.
Glaydson, coitado, não sabia o que lhe esperava. Os dias em que passou livre em Natal desfrutando dos poderes que recebeu após a sua transformação o fizeram acreditar que nada poderia abalar a sua felicidade. Mas ele não sabia da existência de outros vampiros na região, não poderia prever a perseguição liderada pelo Lord Sevlá e muito menos a noite que passaria sob os cuidados de Conrado.
O fato de vampiros se recuperarem bem mais rápido de ferimentos físicos do que um ser humano não os ajuda a sentir menos dor. Conrado começou amarrando as suas mãos e pés com uma corrente bastante poderosa... mesmo que o Glaydson soubesse usar a força que tem, não conseguiria se soltar. Em seguida, um maçarico antigo foi aceso... ninguém sabe o que era maior, a dor ou os gritos. Gritos ensurdecedores ecoavam pela fazenda longínqua no interior do interior do Rio Grande do Norte. A densa floresta plantada e irrigada pelas adutoras do Lord Sevlá não deixava o grito se expandir...
Depois de se esbaldar com o maçarico, Conrado pegou um dos seus pequenos instrumentos favoritos: uma faquinha de cozinha meio cega. Os cortes precisavam mais de força do que de fio para serem feitos, e doíam muito mais. Ameaçou arrancar os olhos, tirou a ponta da faca no último segundo. Lágrimas de sangue escorriam pelo rosto de Glaydson, lágrimas de felicidade escorriam dos olhos brilhantes de Conrado.
A noite foi passando, parecia interminável. Conrado dava, controladamente, um pouco de sangue para que Glaydson se mantivesse vivo... Não seria nada legal descumprir uma ordem do Lord Servlá, mesmo que ele não lhe impusesse medo algum. O jovem vampiro de Natal deveria apenas aprender uma lição, ainda que não conhecesse as regras do jogo para merecer uma punição. Pouco importava, o sofrimento alheio era mais importante do que qualquer senso de justiça. Que justiça? Há séculos fazia apenas o que achava prazeroso. Sentiu muito prazer naquela noite, usou uma dúzia de métodos diferentes para extrair o sofrimento do torturado.
Com ossos quebrados, pele queimada, carne arrancada e orgulho ferido, Glaydson achava que aquele sofrimento não iria terminar nunca. De certa forma, nunca terminaria... ficaria preso em sua memória até o dia em que deixaria, enfim, de habitar este mundo. Como castigo final e para protegê-lo do sol, Conrado aprisionou sua vítima numa de suas virgens de ferro. Na mais fina, para que pudesse ouvir os gritos de Glaydson durante todo o dia, quando descansaria no seu caixão de veludo. Quando se recuperasse, Glaydson teria a primeira missão a mando do Lord Sevlá, mas, por enquanto, padecia sem poder morrer naquela mórbida santa. 

Confira a parte anterior aqui

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Um Blues de solidão




Passos secos que ninguém nunca viu,
Flores murcham, elas não veem o sol.
No extremo da impotência o chão partiu,
No teto as aranhas não estão sós.

No relógio sempre a mesma hora,
As fotografias velhas choram.
Os velhos lustres, cinzeiros e pias
Não sabem mais para que viver.

São fantasmas que habitam a mente dos fracos causando a dor
Dia e noite
Sempre em frente de um passado negro
E às vezes bordô

No corrimão há roupas sujas
Dos jardins, as plantas não crescem mais
Os olhos já se acostumaram com as sombras
E sobre a mesa só antigos jornais...

Janelas escondem a paisagem
De um mundo novo um lugar melhor
A arrogância não deixa passagem
E nos tapetes continua o pó

São fantasmas que habitam a mente dos fracos causando a dor
Dia e noite,
Sempre em frente de um passado negro
E às vezes bordô


em 2009