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sábado, 15 de novembro de 2014

Meninos do sinal


No sinal, meninos tentam
Com rodos nas mãos
Ou bolas de malabares
Eles pedem mais do que dinheiro
Atenção
A culpa é de quem
Por estarem assim?

Se querem pão ou crack
É quase difícil saber
Mas estes meninos
Com cicatrizes nas testas
E calos nas mãos
Tentam
E quase nunca conseguem
Fumar ou comer.



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

E quando meus dedos acham que é hora de começar a trabalhar por conta própria

        




        E quando meus dedos acham que é hora de começar a trabalhar por conta própria, aproveitar as férias da caneta para dedilhar as histórias acumuladas na mente - que vem sofrendo de aprisionamento perpétuo -, a realidade lhe mostra que ainda não acabou... e, quando acabar, o tempo será um implacável coronel que manda em tudo, nos civis, nos covis, nos cortiços... 
         O sono, que sonho, poderá se estender um pouco, mas não conseguirá se acostumar pela iminência do toque de recolher da imaginação e desrecolhimento do corpo que precisa levar a cabeça pra trabalhar... que precisa andar por aí... andar de lá pra cá esperando que a vida melhore no verão seguinte, mas que sempre aparece sufocada pela necessidade de se continuar a deixar se levar pela correnteza que a cada dia se agita mais e parece o próprio mar de tão grande, de tão importante, de tão independente. 

       E aquele menino que até anteontem tinha sonhos, que queria ajudar a mudar o seu próprio mundo, não está vendo tudo num encimadomurismo covarde, e, por isso, não tem frequentado nem festas das periferias. O que ele preferiria hoje? Não sei... ele parece estar morto, inerte, infeliz e desesperançoso... mas o adulto o qual ele subsidia ainda tem caminhos a percorrer, mas como fazer se nem os dedos que achavam que a hora de começar a trabalhar por conta própria conseguem se concentrar em ser explorados por uma mente cansada?

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Papel



Papel, papel... pra que tanto papel com coisas escritas a contragosto? Pra que gastar o tempo da nossa vida com algo quase inútil por alguns papéis coloridos com números que não são nem tão altos assim?... Tudo na minha frente é papel... papel... papel com pauta, pauta cheia de escrita, escrita vazia de significados, de gosto, de zelo, de capricho! Às vezes, bate uma agonia, uma tristeza, uma vontade de ir embora pra um lugar que não conheço, viver uma vida que não é a minha, uma vida menos confortável, mas com mais dignidade! Era tão bom quando os únicos papéis que via à minha frente eram brancos, sem pauta... livres, prontos para serem preenchidos com produtos de uma criatividade que está sufocada numa gaveta escura de um quarto vazio de uma casa abandonada sucumbida por um empreendimento imobiliário padrão classe média-média. E é só papel, papel... mais papel... papéis que não dão prazer, papéis que choram por terem sido arrancados da terra em vão... papéis brancos, caros, que são tratados como depósitos de pensamentos rasos e ideias mal desenvolvidas... de gente que não faz por onde crescer, que se confia no bolso do sustento, na panela cheia em cima do fogão, no frigobar no quarto, na água mineral desperdiçada... Papel e mais papéis que abrigam linhas desformes, linhas cretinas, linhas cruéis, chatas, arrogantes, superficiais. Chega de papel preenchido com porcaria! Mais papel em branco, por favor.

sábado, 1 de novembro de 2014

Quando o homem deixar o Planeta Terra





Quando o homem chegou ao Planeta Terra deve ter tido uma boa impressão da natureza. Não havia poluição, não havia a necessidade de trabalhar para enriquecer, não havia a necessidade de se levar desaforo pra casa, de ficar calado frente à injustiça, frente à dor de ver nos olhos do seu semelhante a tristeza de voltar pro lar sem a felicidade que tanto busca no emprego, a satisfação social que tanto aparece nos nossos devaneios diários.
Quando o homem chegou ao Planeta Terra deve ter tido uma boa impressão da via. Não havia cobranças desnecessárias, não havia a necessidade de viver em meio ao lixo, não havia a mínima necessidade de se cuidar do seu futuro, de ficar tendo que se convencer de que o mundo pode se desmanchar sob os seus pés frente a uma natureza que agoniza através do choro de um filhote ou do canto imperceptível das árvores que choram ao se tornarem órfãs.
Mas quando o homem deixar o Planeta Terra, quando o homem tiver que seguir o seu destino em outro lugar, em outra dimensão, vamos todos entender que a vida que tanto desejamos ter nunca será nossa... Ela será melhor ou, em inúmeros casos, pior, mas nunca a que desejamos. Nunca. 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O cego na praça



Era um cego na praça. Ele vendia quadros lindos pintados a óleo. Quadros que retratavam paisagens magníficas, cenas de família. Um cachorro que se parecia muito com o animal que deitava ao seu lado, um cão velho, sujo e com uma ferida na orelha com muitos bichos.
– Quanto estão os quadros? – perguntei.
– Depende, meu filho. O quadro do cachorro sob a sombra da tarde está cinquenta reais. O quadro do senhor sorridente abraçando o seu filho que chora pela perda do dente custa setenta reais. Os preços variam. Você se interessou por algum?
– Sim – fiquei curioso pra saber como ele sentia ao descrever uma cena que nunca viu. – Gostei do quadro da senhora lendo.
– Foi? O que te chamou a atenção neste quadro?
– Não sei... achei a senhora simpática. Não entendo muito de pintura – disse.
– Olhe bem para o seu sorriso. É um sorriso simétrico, dificilmente alguém sorri assim. Cada lado de um ser humano é diferente do outro... você tem uma orelha maior que a outra, um olho mais caído que o outro, pode ter milímetros  a mais numa perna ou braço – o cego disse virado para o nada. E continuou: – O livro que ela segura não é qualquer livro, é um livro de histórias infantis. Perceba como as extremidades do livro estão gastas, como se ele fosse lido inúmeras vezes durante a sua vida. A cadeira de balanço a qual a senhora está sentada também não é uma cadeira comum... é uma cadeira de amamentação. Todos pensam que são iguais, mas as linhas de uma cadeira de amamentação e uma cadeira de balanço são diferentes. A cadeira de amamentação é um pouco mais leve de se olhar.
            Fiquei espantado com os detalhes da descrição. Não contive a curiosidade e perguntei:
            – Como o senhor, sendo cego, sabe tão bem sobre os quadros que está vendendo? O senhor é cego mesmo.
            – Gostaria muito de ser um charlatão, mas, infelizmente, sou cego. Sei sobre os quadros porque fui eu mesmo que pintei.
            Fiquei sem reação. Perguntei o preço do quadro da senhora. Ele disse que custava oitenta reais. Eu não tinha esse dinheiro. Fui embora.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

E todas as noites não têm mais luar




Naquele dia, junto ao mar, quando as ondas beijavam a praia e a fogueira de papel iluminava o nosso sarau, eu a conheci. Eu não tinha nada, e vi... vi um sorriso singelo de menina, uma música envolvente, bons amigos que se foram, mas ali, apenas, ela, a lua e eu.
Caminhávamos na praia naquele veraneio de anos atrás. Eu já sentia que ela era minha, mas, com um outro que fazia o meu bem chorar, o beijo sonhado não acontecia e eu ouvia sem muito entender: - Não quero que nos vejamos mais, estou me apaixonando por você.
Hoje, no espelho, não me reconheço. A barba já está deste tamanho, a barriga deste... Sinto as dores da idade e, há anos, sei que ela não é mais quem conheci, quem guardei no coração partido que restou depois do último beijo com misto de profecia, ternura, desejo reprimido e compaixão.
Agora é tudo ausência, mas não mais espero... nem desespero... apenas vivo com alguém que segue tentando sobreviver à vida vazia. Sobrevivo com a certeza de que se fosse diferente seria muito diferente do que foi imaginado, sonhado, devaneado em horas de pensamentos-sentimentos que não deveriam mais votar, causar dor, trazer um inferno momentâneo, mas já que não dura tanto tempo assim.
E esta falta, que agora é uma presença constante, o meu jiló, não supera a falta que a lua, não aquela que acompanhava a mim e a ela, mas a minha lua particular, que ficou tão pouco, mas que brilhou bastante... Esta dor eu sentirei consciente, pois, por minha tolice, por não conseguir quebrar uma barreira que até hoje me é muito cara, deixei passar, e parece que eternamente, a capacidade de viver um breve eterno amor. 

domingo, 7 de setembro de 2014

Não é que a carne doa

Não é que a carne doa, 
Mas o dom não reconhece
Quem lamenta e retorna
E, na brisa, se transforma
Num sorrido de luar. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Quem somos nós?

A gente segue regras o tempo todo. Tem que acordar cedo para trabalhar, tem que passar o final de semana estudando, trabalhando. A gente tem que comer peixe na semana santa, não pode fazer um monte de coisas porque é prejudicial à saúde. Tem que pagar impostos que não são devolvidos em bons serviços. A gente tem que aturar vizinho chato, tem que aturar gente que comete verdadeiros crimes no trânsito porque tem um carrão. Tem que ser sincero sem magoar o próximo, seguir uma ideologia que não acredita para se manter intacto nesta sociedade de merda.

Quem somos nós? Quem sou eu? Quem é você?