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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mentes sem lembranças ou sofrimento?

Há coisas que valem a pena serem lembradas, outras nem tanto.
Gostaria, por exemplo, de esquecer o beijo de cupuaçu que ganhei de uma certa min-nin-na que muito amei na minha adolescência reprimida; da vez que mandei minha mãe tomar no cu quando estava na 5ª série, que insistem em chamar agora de 6º ano...
Se bem que aquele beijo não é digno de ser esquecido, ele tem que ser lembrado como a única coisa boa que me aconteceu enquanto amava a pessoa errada... Eu também não posso esquecer que xinguei minha mãe, mesmo que ela tenha já esquecido disso, talvez. Talvez valha ainda a pena lembrar de tudo.
Ai de mim se pudesse apagar a memória... Se pudesse não apagava esses fatos, afinal minha mãe já me perdoou há anos, e o beijo até que foi bom, muito bom. Se realmente eu pudesse apagar algo da minha memória, eu apagaria coisas que hoje me fazem uma pessoa menos feliz, ou mais infeliz, pra quem preferir.
Pois aconteceram coisas, que eu nem participei, que contribuíram de verdade para minha incompletude diante do amor... Mas será que existe amor perfeito?, pessoas perfeitas?, sonhos? Os artigos e opiniões que defendem que quando a paixão acaba o amor fica monótono e enfraquece são passíveis de certeza? Não sei.
Não sei se gostaria de apagar minha memória... Não! Não? Sem hipocrisia eu, se pudesse apagaria sim a memória... E talvez pensasse com a razão, como dificilmente faço, antes de dizer – sim eu quero uma formatação parcial, doutor? Apague isso que ouvi, essa foto que vi, aquilo que fiquei sabendo, e, principalmente, o que inventei, principalmente os rumores que eu mesmo criei na tentativa impensada de sofrer a cada dia mais.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Suco de Caju

Acontece desde o dia que me perdi na mata da Barreira. Eu estava a procura de caju, pois me bateu uma vontade enorme bem aqui, no órgão dos desejos, de tomar um suco bem gelado. E como painho pegava todos os cajus dos cajueiros do quintal pra vender quase nunca eu tomava meu suco favorito, que ficava ainda melhor quando mainha fazia. Ela peneirava o suco, adoçava na medida certa. E eu, que nunca tive muita paciência, me desesperava pra fazer e beber logo.
Além de recolher os cajus do quintal, meu pai também andava pela mata da Barreira procurando mais frutas para enriquecer a barraca. Ele sabia todas as trilhas, as que eram visitadas por soldados e as que nunca eram lembradas no itinerário dos aviadores. Aprendi com ele a andar por aqueles matos, conhecia todas aquelas trilhas, guardava na memória todas as bifurcações e encruzilhadas, inclusive lembrava ao meu pai do caminho certo quando ele se confundia, por isso não sei como naquele dia eu me perdi.
Provavelmente meu pai e os outros barraqueiros já tinham passado por lá, pois já não havia nenhum cajuzinho. Fiquei encucado, meu pai não tinha me chamado, olha que ele preferia que eu perdesse aula do que deixasse de ajudá-lo a recolher caju, já que nessa época minha mãe tava de resguardo, e os outros meninos eram muito pequenos para começarem a trabalhar. Mesmo percorrendo todos os caminhos que conhecia não encontrava de jeito algum a matéria-prima para o mais delicioso dos líquidos existentes na face da minha memória, o suco de caju.
Andei, andei e andei até me cansar e me perder das trilhas e caminhos conhecidos, logo eu que achava conhecer todo aquele emaranhado de rastros, e o pior é que eu não encontrava nem se quer um caju de fazer remédio. À noite já ia chegando, eu estava tão cansado que resolvi procurar logo uma árvore para dormir. É... é melhor dormir numa árvore! Nunca se sabe o que pode aparecer no meio do mato à noite, uma raposa, um foragido de Alcaçuz... Sei lá! Só sei que naquele momento era melhor dormir numa árvore do que ter que continuar procurando, em vão, o caminho de casa.
Eu me preocupava com mainha, “ela deve estar preocupada comigo”, pensava eu em voz alta. Eu pouco me lixava para o meu pai que só daria pela minha falta no dia seguinte, quando iria me acordar bruscamente para ajudar a recolher caju e outras frutas para vender, e o pior é que eu não podia ficar com três ou quatro cajuzinhos azedos para fazer meu suco. Olha que eu ainda não tinha tomado suco de caju nessa safra.
Meu pai não se importava comigo, nem com minha mãe ou meus irmãos menores, ele gastava todo o dinheiro apurado na venda das frutas com cachaça e rapariga, inclusive ele insistia em me levar consigo para a farra, dizia que eu já era um “homi” e precisava frequentar lugares de tal. A minha mãe, pobre mulher, não o deixava me levar, dizia que cabaré não era lugar para um menino de menos de oito anos. E toda vez que minha mãe ia contra meu pai apanhava muito, bem mais do que nas vezes em que ele a espancava sem motivos, acusando-a injustamente de roubar o dinheiro da barraca, dando-lhe socos e chutes, isso quando não a batia com corda molhada com um nó na ponta.
Meu pai nunca soube, mas eu é quem roubava uns trocados ou outros da barraca dele para comprar farinha para os meus cinco irmãos menores comer, já que se não fosse assim nós iríamos morrer de fome, pois ele, na glória de sua sabedoria, não deixava minha tia trazer um pouco de macaxeira de sua pequena horta de fundo de quintal, meu pai dizia que era dele o dever de manter a família, decerto era, mas hipocritamente ele não cumpria, ele nunca cumpria o que dizia.
Passei aquela noite em claro, com frio, fome e medo. Num raro cochilo, de cima do galho do de um cajueiro sem fruto, sonhei que estava comento muito caju, doce de caju, torta de caju, caju à milanesa... Era tanto caju, mas tanto caju que nem mesmo todas as barracas da beira da Rota do Sol tinham juntas, e no melhor do sonho me veio mainha com uma jarra de suco de caju, naquele sonho eu bebi e comi tanto caju que até hoje, desde aquele dia em que me perdi, acontece de eu ficar com enjoo, e acabando por vomitar, toda vez que sinto o cheiro de suco de caju.