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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma breve história de Gabriel, Bolsa Favela


Gabriel saía de casa todos os dias às seis e meia para comprar pão. A mãe trabalhava numa fábrica de calçados da cidade, o pai tinha abandonado a casa e a irmã mais velha só chegava depois das oito da manhã em casa, era camareira de um motel, ou pelo menos dizia ser.           
          Depois da aula de matemática, tinha aula de artes, sua aula favorita. Era opcional, por isso Michel, que gostava mais de futebol do que qualquer manifestação artística, não estaria lá para importuná-lo, chamá-lo de Bolsa Favela, já que era bolsista em um tradicional colégio particular, e o único negro da turma.
           Todos os professores gostavam do Gabriel, exceto a professora de geografia, que tinha feito especialização no Canadá e trabalha há dezessete anos da escola, seis a menos que o professor de matemática, Liovério, que já deveria ter se aposentado, mas tomava muitos remédios e, financeiramente, valia mais a pena passar dois expedientes de sua vida de idoso, mas não caduco, na sala de aula do Nossa Senhora de Fátima, do que vegetar com um salário miserável.
            De repente, ao sair da padaria que ia todos os dias, mesmo nos domingos, Gabriel sentiu uma dor, uma dor como nunca sentiu na vida, a última dor de sua vida. Um tiro. Na cabeça. Um tiro. Ele estava correndo, correndo por medo da chuva que se aproximava. Gabriel estava colocando o pão por baixo da camisa, e foi confundido com um bandido. Dor. Muita dor. O sangue escorria na calçada. Um telefonema. No orelhão da rua, uma ligação avisa a mãe de Gabriel sobre o tiro. Um tiro. A dor. A última dor. O desespero. A tristeza. Policiais alegaram legítima defesa. Um tiro. Os policiais foram absolvidos. Calado. Gabriel foi calado. Os pães ficaram lavados em sangue. Um tiro. A dor. A última dor.
         A escola que deu a bolsa de estudos cedeu a capela e pagou o caixão. Gabriel foi enterrado na comunidade onde morava. Deixou uma mãe triste, uma irmã quase indiferente, uma professora arrependida e um Michel feliz.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Para salvar o Brasil

Um vazio me sufoca... uma dor. As pessoas caminham na rua sem saber o que fazer, sem saber por que vivem. Meu coração lamenta as perdas, a chuva em lugares errados. A chuva que mata com a lama, ao mesmo tempo em que pessoas, em outros estados, vivem na seca total, no horror de ver seus bichos morrendo por falta de água, ou dos bichos que veem seus donos serem mortos pelo excesso de água. Que tristeza...
            Mas de quem é culpa por tudo isso? É da natureza que segue seu curso? E do homem, que na ganância ou na necessidade constrói em lugares errados? Ou do governo, que fecha os olhos para a falta de moradia do povo, que só agora tem um programa de assistência que visa subsidiar moradias populares a quem não tem onde morar?
            Para salvar o Rio, para salvar o Brasil, o planeta, precisamos mais do que hipocrisia e sermos solidários doando água, comida, roupa e material de limpeza... Precisamos fazer mais: melhorar a nós mesmos... É banal, clichê, démodé falar isso, mas a gente precisa mudar nossa visão do mundo, de como lidamos com um mundo que não é nosso. Quantos de nós guardam o papel da bala no bolso quando não há lixeira por perto, por exemplo?
       Mesmo que distantes, temos culpa no que aconteceu na região serrana do Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas Gerais... Não sei se está chovendo mais do que deveria, mas uma coisa é certa: aquelas terras, aqueles morros não foram feitos para abrigar casas, hotéis, pessoas... Olhem quanta terra tem desabitada, improdutiva neste país! Precisamos agir mais do que falar e escrever...
     Nos livros de história, em sites, na TV, nós vemos que, quando queremos, conseguimos grandes feitos, desde expulsar um presidente que faz merda até consolar e ajudar os desabrigados de outros países, como no terremoto no Haiti... Será que não conseguimos fazer isso outra vez? Será que não conseguimos mais sair às ruas e cobrar soluções palpáveis, ou mesmo, num pedido menos utópico (o que de fato quase é nos dias de hoje), conseguir uma autoconscientização, ensinar a nós mesmos a cobrar uma melhor postura diante do mundo? Até quando imagens como estas serão motivo de vergonha para o Brasil? Até quando?




















terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Carina e a doença rara

Há quem reclame da vida à toa, há quem reclame da vida com razão.
            Carina é uma jovem mimada, que nunca soube o que é trabalho pesado ou que exija muito de seu intelecto pouco desenvolvido. Na verdade, ela é professora estagiária, mas, ao invés de dar aulas, passa filmes – nada didáticos – para poupar algum esforço. Seu pai é militar da reserva, o que a deixa numa situação confortável, além de não precisar gastar, nem mesmo com absorvente, um único centavo furado do seu salário de setecentos reais, que ganha só para babar os ovos botoxicados do chefe.
            Há seres humanos que nascem com algumas qualidades como: bondade, gentileza e respeito aos mais velhos, porém Carina parece não ter recebido certos cuidados da parte dos seus genitores que, através de uma péssima educação, lhe proporcionaram apenas um grande talento pra espalhar inimizades e nojo naqueles que a cercam.
            Carina nasceu com uma rara anomalia: ela não sente calor, mesmo no auge dos seus cento e cinquenta e sete quilos. O que desencadeou essa doença foi o desejo incontrolável que ela tinha de morar na Europa, já que sentia imenso calor na sua terra natal, Bangu, bairro mais quente do subúrbio do Rio de Janeiro.
            Certa vez, no setor em que trabalha, aconteceu algo estranho; o ar-condicionado deixou de funcionar. O que uma vontade incontrolável de ver as pessoas ao redor passando por uma sensação parecida com a que tinha antes de treinar seu cérebro pra sentir fio até debaixo de um sol de quarenta graus não faz? Graças a Deus, depois de um tempo, trocaram o ar da sala. Nossa! Os funcionários do setor viram brilhar uma esperança no horizonte.
            A nova chefe do setor, uma mulher de coração quente, deixou bem claro que quem sentisse frio que trouxesse o casaco, já que é mais fácil se proteger do frio do que do calor, não é mesmo? Xiii... Carina perdeu as forcas!? Não... ela até aturava o ar frio, se bem que o que ela tem não é uma rara doença que a impede de sentir calor, não!... O que ela sente é uma incontrolável vontade de fazer o mal. Imagine: quando só ela e suas duas seguidoras da maldade estão na sala com outra pessoa que não a chefe, o ar tem que ficar desligado, já que nem o meio termo é suportável, mas quando a boa chefe está em sala é outra história... o ar fica no máximo e ela não dá um pio, ou melhor, uma cacarejada.
            Outro sintoma da doença rara de Carina é a incontrolável vontade de contar o início, o meio e o fim dos livros que não lê – pega tudo na internet –, o que faz com que seus colegas de trabalho tenham que esconder os livros que leem e evitarem de falar sobre cinema quando a inconveniência em forma de pessoa está dando o ar de sua desgraça.
            Pois bem, leitor, tome cuidado com pessoas como Carina. Elas têm uma doença rara, carregam excesso de maldade em seus corações de pedra brita, que só guardam espaço para verter sentimentos anti-sociais, contra os valores da sociedade e da boa amizade. Carina ainda tem uma velha mania... anda pra cima e pra baixo com um vibrador de dezessete polegadas na bolsa, percebi isso quando, num vacilo, ela tirou, pra dar umas espetadas, o boneco de vu duo com minhas característica e um chumaço dos meus cabelos negros e lisos, que não sei como ela conseguiu.