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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Em nome da dor da pele




O que fiz pra merecer esta dor?
Não desejo mal a quase ninguém,
Não tenho me esquecido das minhas promessas,
Nem tenho deixado de agradecer dia após dia...

Não sei de onde vem esse castigo!
Tanta coisa boa acontecendo,
E vem justamente a mesma dor?
A mesma dor que há um ano me tirava a vontade de caminhar...

Gostava mais de sofrer por amor na juventude,
Mas sofrer na pele, literalmente, não é nada parecido.

Uma vez... quando eu nem sabia quem eu era,
Pensei em tirar vida pela dor do amor... besteira, não?

E, com esse sono quase incontrolável,
que nem me permitirá revisar este poema,
Eu fecho minha noite modesta,
Com dor na pele,
Dor na alma,
Alguma dor na consciência,
Mas nenhuma dor no coração (ainda)...

Tudo bem que sinto, às vezes, coisas muito diferentes,
Mas essa dor que vai e volta, de certa forma,
E talvez por um tom masoquista que eu tenha herdado sabe se lá de onde,
Não é tão ruim quando a dor de uma ferida na pele...

Sou fraco...
FRACO!
Prefiro sofrer da cabeça,
Do coração,
Da alma,
Mas não da pele...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Vácuo



Se meus olhos fecham,
Não posso mais seguir.
Se meus olhos fecham,
Não posso mais voltar.
Se meus olhos fecham,
Não consigo enxergar a beleza,
A tristeza, a certeza,
A vontade de correr, de chorar...

Se meus olhos fecham,
Eu fico mundo.
Se meus olhos fecham,
Eu não piso o frio chão,
Eu não me calo gritando de dor,
Pensando no dia, no sol,
No caminho que eu devo ir...

Se meus olhos fecham,
Não posso mais voltar.
Se meus olhos fecham,
Não posso mais seguir.
Se meus olhos fecham,
O vazio me consome,
E eu paro... no vácuo.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uma única vez





Eu deixaria de ser um ser de luz
Apenas para poder uma única vez te tocar.
Seria um simples mortal;
Seria capaz de sentir toda dor carnal.

Eu trocaria a eternidade
Apenas para poder uma única vez te abraçar.
Eu trocaria a eternidade
Para poder pela última vez te olhar.

Eu trocaria minha vida pela sua;
Eu renunciaria aos meus direitos...
Eu trocaria a eternidade apenas para te fazer feliz,
Sofreria o castigo maior para te ver sorrir.

Eu renunciaria às minhas lembranças;
Eu trocaria o direito de amar;
Eu deixaria a eternidade
Apenas para uma única vez te beijar.


Grato a quem entendeu a intertextualidade...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

02 de Novembro


Por que o dia de hoje é sempre nublado?
Ontem mesmo vimos o sol
E apenas um dia após
Parece ser tão desigual.

Um dia como outro qualquer;
Dia que meus pais não me deixam brincar...

Por que chorar por quem está no paraíso?
Não é frieza, apenas não é tristeza,
Já que a saudade é sã
E nos acompanha todos os dias.

                                                  02 de novembro de 2006


domingo, 30 de outubro de 2011

Chapeuzinho Vermelho e sua curiosidade sobre os lobos



– Vá na casa da sua avó, sua preguiçosa, e leve a cesta básica do mês – disse a mãe da Chapeuzinho Vermelho, uma menina de dezesseis anos que desde pequena usava um modelo original de chapéu cobiçado secretamente por todas as meninas da região.
– Não tô a fim, mãe! Todo mês eu levo essa cesta, por que você mesma não leva? Eu estou assistindo a nova temporada de Glee e não estou nem aí pra vovó...
Você sabe que aquela velha não fala comigo desde que seu pai morreu naquele acidente de carro.
O acidente tinha sido há cinco anos e meio, desde então, a mãe de Chapeuzinho tinha que ajudar a sua ex-sogra porque ela ameaçava pô-la na justiça e retirar a horta que ela cultivava, idealizada pelo pai da Chapéu. Até hoje, as causas do acidente não foram completamente esclarecidas, mas sabe-se que o pai dirigia, e perdeu o controle. O problema é que ele era conhecido pela sua extrema atenção, não desfocava de nada por nada. Algo fez com que ele perdesse os sentidos. O estranho é que ele estava com o sexo rígido quando encontrado, uma leve mancha de batom em sua cueca e um sorriso de felicidade que espantou a todos. No carro, só estavam o pai e a mãe de Chapeuzinho Vermelho.
Tá bom eu vou, falou a Chapéu, mas vou querer que aumente minha mesada daqui pra frente... todo mês é isso...
Menina, não reclame! Já não basta o colégio caro que te pago, a internet, a conta do celular e todo prejuízo que você me dá...
Tá bom, mas não enche o saco disse a menina, saindo com a cesta e deixando a mãe falando sozinha... Quando estava atravessando a rua, escutou o grito de sua mãe, que dizia a mesma coisa todo mês a mais de cinco anos:
Não vá pelo Bosque... tem muito lobo por lá e pode querer comer você.
Lobo era como as pessoas da região chamavam os rapazes que se aproveitavam de moças ingênuas.
Chapeuzinho Vermelho, que há muito não respeitava sua mãe – movida por uma índole rebelde da qual não sabia a origem –, foi, obviamente, pelo Bosque, o caminho mais curto, pois queria voltar logo para casa e continuar assistindo o seriado que parecia amar mais que sua própria segurança.
O Bosque é um lugar sombrio, um extenso corredor que ligava um lado da pequena cidade a outro, no entanto, a maior parte de sua extensão fica entre prédios antigos, alguns abandonados ou habitado por sem-tetos ou sabe-se lá Deus pelo quê. É conhecido pela quantidade de vagabundos e prostitutas que abriga. É quase que inteiramente calmo, mas não custa redobrar ou triplicar a atenção ao passar por lá, lembrando que só se dever fazer isso em caso de extrema necessidade.
Há muito, a Chapéu queria passar pelo Bosque e ver quem eram os tais lobos que todo mundo falava. – Será que são bonitões como o Cory Monteith? – se perguntava. Ela não sabia e nem tinha coragem para descobrir, mas naquele dia era unir o útil ao agradável... ela queria voltar logo para casa e queria saber quem eram os lobões...
No caminho, um pouco amedrontada, claro, ela cruzou pelo primeiro lobo, mas ele estava vendendo drogas para uma menina magra que só e nem deu atenção a ela. E, conforme foi caminhando em sua longa caminhada, ela cruzou com um lobo lindo, era exótico, tinha os cabelos grandes, a barba por fazer, um olhar tão negro quanto os seus sentimentos pela professora de física, ela olhou para as mãos dele – tinha fetiche com mãos – e se admirou com o tamanho: – Deve ser lutador de boxe – pensou.
O lobo logo flertou com a menina que recusou qualquer contato maior que o visual já existente, e pediu para seguir seu caminho em paz. O rapaz, que já ouvira boatos sobre a linda menina que visitava sua avó mensalmente, se apressou e foi para a casa da velha, tentar esperá-la lá, de preferência na cama. E assim o fez.
Chapeuzinho mal falava com sua avó, e assim que chegou na casa, que, em todo dia 05 de cada mês já ficava aberta, ela foi procurar saber se a velha estava viva.
– Vó! Cadê você? Sou eu...
Sem obter resposta ela pensou: – Ou a velha está dormindo ou morreu de vez. E foi até o quarto para saber como a velha estava. Ela estava dormindo, coberta dos pés à cabeça pelo edredom.
– Nossa, ela parece maior quando deitada – pensou em voz ligeiramente alta.
– Vó, vó, sou eu, Chapeuzinho, a senhora está dormindo?
Com a voz rouca a avó respondeu: – Não, minha netinha, estava esperando por você.
– Netinha? O que deu na senhora? E o que é isso grande aí no meio do edredom?
De súbito, o lobo tirou o edredom e disse: – É o meu pau, e é pra te comer...
Sem reação, sentindo uma mistura de excitação e medo, a Chapeuzinho não correu. Ficou ali parada esperando a ação do lobo, que a tornaria uma mulher.
Durante alguns longos minutos que formaram poucas horas, os dois se divertiram. Na hora de ir embora, a Chapéu perguntou ao novo amigo: – O que você fez com minha avó?
– Eu a comi antes de você chegar, de tão feliz, ela me emprestou a casa e foi fazer uma visita ao lenhador, o porteiro de um dos prédios da rua que faz uns bicos de michê para as madames da região. Acho que queria continuar a brincadeira.
Eles trocaram telefone e ficaram de se encontrar mais vezes. Daquele dia em diante, a Chapeuzinho Vermelho não reclamava mais quando mandada levar a cesta para sua avó. Elas até tinham um assunto em comum agora.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Um domingo diferente


Era manhã, já tarde. Acordava cedo todos os dias, mas naquele domingo precisava descansar. Danem-se os filhos, dane-se a esposa. A única coisa que precisava era de umas horas a mais de sono. De sonhos. Sonhos que demoram a chegar e acabavam logo, como o salário que não queria conhecer o fim do mês, como os momentos de felicidade com a mulher amada, que, por sinal, já fazia tempo que não via.
            Ah, aquela manhã tarde de domingo. Não sabia o que era o aconchego da cama há muito. Mas não tinha mesmo como saber. Acordando quatro e meia e dormindo às duas, quando o ônibus não atrasava mais do que o de costume, não restava mesmo tempo para apreciar as madeiras velhas e mal dispostas que maltratavam as costas de qualquer mortal.
            Mortal. Era mortal, mas esquecia. Acordava rápido e não tomava café. No meio do caminho, na baldeação, comprava um café de cinquenta centavos e um pão do mesmo preço. Se a pressa não fosse tamanha, poderia comprar cinco pães com aquele dinheiro, mas uma extravagância de vez em quando, e, pelo menos de vez em quando era quase todo dia, não fazia mal a ninguém. Era só acordar um pouco mais cedo num domingo ou outro e fazer um bico em algum lugar. Mas não naquele. Dane-se a esposa, danem-se os filhos.
            Era manhã, já tarde. As costas descobriam de onde vinham as dores que sentiam durante todos os dias. À tarde, assistia ao jogo, mas não naquele domingo. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

A segunda Lua




Eu cresci ouvindo Cássia Eller cantando O segundo sol. Era até de se esperar que isso um dia acontecesse, mesmo fora da literatura, do mundo fantástico, mas não aconteceu. Mas a Lua, outra Lua voltou para minha vida... de forma inesperada... Talvez o último poema que escrevi fez efeito, mas em outra pessoa, na situação diferente... E me sinto, agora, díspar, como se não me reconhecesse, como se não estivesse no meu corpo, no meu feio corpo... como se meu espírito pairasse no ar, na órbita da Lua, da nova Lua, da segunda Lua.
            Se a Lua tivesse lido o meu poema eu não saberia, mas eu não faço mais questão da Lua antiga, mas da nova Lua... tão bela... tão mais bela... Ah, como eu gostaria de poder dançar sobre a Lua... só eu e a Lua... Sentir sua branca pele, seu cheiro maravilhoso...
            Oh, Lua, estou encantando com este sentimento que renasce em mim... Hoje mesmo estava lembrando de Mário de Sá-Carneiro, e repetindo em voz alta:

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)
            
            Agora, estou tentando não perder a minha alma, não viver com ela perdida, mas ao mesmo tempo peço um pouco mais de sol um pouco mais de azul... o golpe de asa já me arrasou, deixou o comboio de cordas a 110, 120, 160... E perco, agora, novamente, a medida de amar. Me explique, por favor, o que é paixão!
            É fato que algo tenta me impedir, mas não hesitaria em arriscar, não. Afinal é a Lua que está me esperando. Será que ela também me almeja, ou foi apenas um alarme falso, uma visão do paraíso que talvez nunca eu consiga alcançar?... Um paraíso em terra, a Lua na Terra...
            Ai como eu queria encontrar palavras para escrever... não que a prática me falte, mas não consigo buscar no meu curto vocabulário um termo capaz de dizer o que sinto, o que estou sentindo e tentarei a todo custo evitar... mas não para a Lua... a segunda Lua... a segunda chance, que põe a ‘felicidade’ e a cumplicidade em xeque por conta de uma aventura fantástica... Esta Lua, sinto, é a mais importante de todas as Luas do universo...
Um homem, ele pisou na Lua, eu jamais faria isso... Eu não sei como pisar no coração de uma mulher, não saberia maltratar a Lua, mesmo se ela quisesse... eu apenas dançaria consigo como um bailarino encantado... encantado com um sorriso perfeito, com olhos perfeitos, com uma pele perfeita, e, principalmente, abraços que parecem ser perfeito...
            Oh, Lua, linda e formosa Lua que está acima dos meus mais ousados sonhos, se estiver lendo isso, e se entender o que minhas pobres palavras querem dizer, saiba que desejo dizer segredos em sua orelha fria, arrepiada com a proximidade dos meus lábios. Você despertou em mim, pobre menino ideal, algo que eu achava que tinha morrido há tempos: a vontade de amar, e não amar apenas por empenho, mas por ser fraco, e por deixar minha grossa camada ser penetrada tão facilmente pelo seu olhar.
            Só espero não estar me enganado, ai de mim, pois vi um olhar que em teus olhos se fitava. Ouvi outro suspiro... d’esperança! Mulher do meu amor, meu serafim, teu olhar, teu suspiro me matava... e eu só espero, Lua, que este olhar tenha sido por mim.

sábado, 30 de abril de 2011

A Verdade


As pessoas, às vezes, se esquecem do quão importante é para a sociedade a autoanálise. Sim... as pessoas estão perdendo o senso crítico de si mesmas... ou melhor, estão perdendo a capacidade de querer criar um senso autocritico, e tentar sempre fazer sua parte para melhorar o mundo começando por si.
Não, não é redundante, e a cacofonia adiante é necessária para enfatizar o eu, o eu que regula o si, o si que si regula e não deixa o sujeito se perecer, sucumbir ao ermo, cair no obscurantismo de uma vida com o sentido encoberto, claro, pela falta de paucarismo, ou, simplesmente, pela falta da continuidade pela busca pela verdade, a verdadeira verdade e não apenas mais uma verdade inventada por poucos para os muitos que se deixam levar pela correnteza de um rio que sempre deságua no mesmo bolso, na mesma conta, que enche o mesmo eco e prestigia a mesma hegemonia.
            E a nós, os pouco que estão, ou pensam estar, navegando por este mar de lama, só nos resta torcer e tentar desvendar os olhos que serão vendados novamente por outro alienardor, ou salvador, dependendo da perspectiva adotada pelo observante.
            Assim vamos caindo, cada vez mais fundo, na sombra de um reflexo que não existe, ou nunca existiu, mas que guia os corações daqueles que buscam por uma verdade verdadeira. Ainda bem que, às vezes, algumas vezes, a Verdade é descoberta, e a vida recebe novas vestes e novos rumos e novos mapas e novos aparelho e novas pistas, que já não são mais pistas, mas Verdades nos corações daqueles que não se deixaram levar.

domingo, 3 de abril de 2011

Carro de boi




Atendi ao chamado da buzina do carro de boi.
Saí do seu caminho, libertei a passagem para a fazenda de terra fértil.
Sentindo, então, como se fosse uma torneira,
Que derramava uma água incomum.
Um líquido nem tanto viscoso, e tampouco vermelho.
Não entendi o porquê daquilo tudo.

Minha camisa prendeu numa cerca de vidro
Não me cortei, mas senti que uma nova feriada se formava.
Nas mãos eu tinha olhos de águia;
Nos cabelos um perfume de cereja bom de sentir.
Meus pés, que estavam descalços, se vestiram com uma pluma de ouro.
A fome que eu sentia acabou, mas na havia pão em minha boca.

O que via não se dava para enxergar.
Desci depressa um precipício, mas não havia corpos lá.
Assim sendo, segui meu caminho logo atrás dos rastros dos bois.
Fiquei pensando, desta vez com pedrinhas que feriam meus pés.
Nos braços, eu não tinha mais maçãs
E o silêncio que doía deu lugar ao canto dos pássaros.

domingo, 13 de março de 2011

Gromaso


É sempre do diferente,
mas peculiar...
Os olhos vão formigando,
as pernas bambeando
enquanto todo sangue parece se concentrar num só lugar.
E o alívio chega...
A energia vai embora...
A raiva vai embora!
E o mundo, por um brevíssimo momento,
Parece enegrecer e luzir ao mesmo tempo...




sexta-feira, 11 de março de 2011

Novíssimos tempos



As coisas acontecem a nossa volta e a gente não entende.
Na verdade, não há nada para se entender, a não ser como as coisas acontecem... em como as coisas estão organizadas de tal forma que nenhum paradigma pode ser quebrado; nenhuma exceção  pode ser concedida... tudo porque vivemos numa sociedade cristalizada, com conceito do século passado, que não acompanha a velocidade como se dão as coisas.
Só quem entende é quem vive do lado de cá, e fico feliz em saber que ainda há companheirismo, que há quem consiga enxergar além dos papéis, além do que antes era apenas um ou outro. Mas essa felicidade, que é muito boa de se ter, não consegue se manter quando o contexto é modificado. Daquele lado, há interesse, cobiça... autopreservação? As pessoas estão a cada dia olhando apenas para si, mas não são todos, são os das gerações passadas, e eles parecem se incomodar com o rumo que as coisas já tomaram, e não, como eles pensam, começam a acontecer.
Não queria nada de mais, apenas ser respeitado pelo que sou, não pelo que aparento ser, pelo que minha idade diz. Tem muita gente mais velha que não é tão experiente, que não leu tanto, que não viveu variedades na intensidade... É uma pena as coisas serem assim... Ao invés de atrasar alguns, eles deveriam tentar se adiantar, mas como? Como se o sistema não permite, e mesmo quem percebe a mudança e quer ajudar não pode? Não? Será que não temos mesmo poder suficiente para impor nossas vontades no seio desta sociedade que, a final, somos nós mesmos quem construímos e mantemos?
Realmente... não sei! Este não saber é frequente em meus textos, em meu dia a dia... e realmente não consigo formar uma única opinião, uma única hipótese... Mas chego a lugares comuns que a cada momento se tornam mais estreitos. E na paciência, que para nós é mais difícil de se ter, tento montar um quebra-cabeças sem fim... e deixo me levarem por não ter muitas forças, ou não ter conseguindo reunir muitas opiniões afins para reverter este quadro, que nem sei se vai conseguir acontecer, pois, afinal, os jovens de hoje serão os velhos de amanhã, e os novíssimos tempos se encherão de poeira de cristais seculares. É uma pena.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma breve história de Gabriel, Bolsa Favela


Gabriel saía de casa todos os dias às seis e meia para comprar pão. A mãe trabalhava numa fábrica de calçados da cidade, o pai tinha abandonado a casa e a irmã mais velha só chegava depois das oito da manhã em casa, era camareira de um motel, ou pelo menos dizia ser.           
          Depois da aula de matemática, tinha aula de artes, sua aula favorita. Era opcional, por isso Michel, que gostava mais de futebol do que qualquer manifestação artística, não estaria lá para importuná-lo, chamá-lo de Bolsa Favela, já que era bolsista em um tradicional colégio particular, e o único negro da turma.
           Todos os professores gostavam do Gabriel, exceto a professora de geografia, que tinha feito especialização no Canadá e trabalha há dezessete anos da escola, seis a menos que o professor de matemática, Liovério, que já deveria ter se aposentado, mas tomava muitos remédios e, financeiramente, valia mais a pena passar dois expedientes de sua vida de idoso, mas não caduco, na sala de aula do Nossa Senhora de Fátima, do que vegetar com um salário miserável.
            De repente, ao sair da padaria que ia todos os dias, mesmo nos domingos, Gabriel sentiu uma dor, uma dor como nunca sentiu na vida, a última dor de sua vida. Um tiro. Na cabeça. Um tiro. Ele estava correndo, correndo por medo da chuva que se aproximava. Gabriel estava colocando o pão por baixo da camisa, e foi confundido com um bandido. Dor. Muita dor. O sangue escorria na calçada. Um telefonema. No orelhão da rua, uma ligação avisa a mãe de Gabriel sobre o tiro. Um tiro. A dor. A última dor. O desespero. A tristeza. Policiais alegaram legítima defesa. Um tiro. Os policiais foram absolvidos. Calado. Gabriel foi calado. Os pães ficaram lavados em sangue. Um tiro. A dor. A última dor.
         A escola que deu a bolsa de estudos cedeu a capela e pagou o caixão. Gabriel foi enterrado na comunidade onde morava. Deixou uma mãe triste, uma irmã quase indiferente, uma professora arrependida e um Michel feliz.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Para salvar o Brasil

Um vazio me sufoca... uma dor. As pessoas caminham na rua sem saber o que fazer, sem saber por que vivem. Meu coração lamenta as perdas, a chuva em lugares errados. A chuva que mata com a lama, ao mesmo tempo em que pessoas, em outros estados, vivem na seca total, no horror de ver seus bichos morrendo por falta de água, ou dos bichos que veem seus donos serem mortos pelo excesso de água. Que tristeza...
            Mas de quem é culpa por tudo isso? É da natureza que segue seu curso? E do homem, que na ganância ou na necessidade constrói em lugares errados? Ou do governo, que fecha os olhos para a falta de moradia do povo, que só agora tem um programa de assistência que visa subsidiar moradias populares a quem não tem onde morar?
            Para salvar o Rio, para salvar o Brasil, o planeta, precisamos mais do que hipocrisia e sermos solidários doando água, comida, roupa e material de limpeza... Precisamos fazer mais: melhorar a nós mesmos... É banal, clichê, démodé falar isso, mas a gente precisa mudar nossa visão do mundo, de como lidamos com um mundo que não é nosso. Quantos de nós guardam o papel da bala no bolso quando não há lixeira por perto, por exemplo?
       Mesmo que distantes, temos culpa no que aconteceu na região serrana do Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas Gerais... Não sei se está chovendo mais do que deveria, mas uma coisa é certa: aquelas terras, aqueles morros não foram feitos para abrigar casas, hotéis, pessoas... Olhem quanta terra tem desabitada, improdutiva neste país! Precisamos agir mais do que falar e escrever...
     Nos livros de história, em sites, na TV, nós vemos que, quando queremos, conseguimos grandes feitos, desde expulsar um presidente que faz merda até consolar e ajudar os desabrigados de outros países, como no terremoto no Haiti... Será que não conseguimos fazer isso outra vez? Será que não conseguimos mais sair às ruas e cobrar soluções palpáveis, ou mesmo, num pedido menos utópico (o que de fato quase é nos dias de hoje), conseguir uma autoconscientização, ensinar a nós mesmos a cobrar uma melhor postura diante do mundo? Até quando imagens como estas serão motivo de vergonha para o Brasil? Até quando?




















terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Carina e a doença rara

Há quem reclame da vida à toa, há quem reclame da vida com razão.
            Carina é uma jovem mimada, que nunca soube o que é trabalho pesado ou que exija muito de seu intelecto pouco desenvolvido. Na verdade, ela é professora estagiária, mas, ao invés de dar aulas, passa filmes – nada didáticos – para poupar algum esforço. Seu pai é militar da reserva, o que a deixa numa situação confortável, além de não precisar gastar, nem mesmo com absorvente, um único centavo furado do seu salário de setecentos reais, que ganha só para babar os ovos botoxicados do chefe.
            Há seres humanos que nascem com algumas qualidades como: bondade, gentileza e respeito aos mais velhos, porém Carina parece não ter recebido certos cuidados da parte dos seus genitores que, através de uma péssima educação, lhe proporcionaram apenas um grande talento pra espalhar inimizades e nojo naqueles que a cercam.
            Carina nasceu com uma rara anomalia: ela não sente calor, mesmo no auge dos seus cento e cinquenta e sete quilos. O que desencadeou essa doença foi o desejo incontrolável que ela tinha de morar na Europa, já que sentia imenso calor na sua terra natal, Bangu, bairro mais quente do subúrbio do Rio de Janeiro.
            Certa vez, no setor em que trabalha, aconteceu algo estranho; o ar-condicionado deixou de funcionar. O que uma vontade incontrolável de ver as pessoas ao redor passando por uma sensação parecida com a que tinha antes de treinar seu cérebro pra sentir fio até debaixo de um sol de quarenta graus não faz? Graças a Deus, depois de um tempo, trocaram o ar da sala. Nossa! Os funcionários do setor viram brilhar uma esperança no horizonte.
            A nova chefe do setor, uma mulher de coração quente, deixou bem claro que quem sentisse frio que trouxesse o casaco, já que é mais fácil se proteger do frio do que do calor, não é mesmo? Xiii... Carina perdeu as forcas!? Não... ela até aturava o ar frio, se bem que o que ela tem não é uma rara doença que a impede de sentir calor, não!... O que ela sente é uma incontrolável vontade de fazer o mal. Imagine: quando só ela e suas duas seguidoras da maldade estão na sala com outra pessoa que não a chefe, o ar tem que ficar desligado, já que nem o meio termo é suportável, mas quando a boa chefe está em sala é outra história... o ar fica no máximo e ela não dá um pio, ou melhor, uma cacarejada.
            Outro sintoma da doença rara de Carina é a incontrolável vontade de contar o início, o meio e o fim dos livros que não lê – pega tudo na internet –, o que faz com que seus colegas de trabalho tenham que esconder os livros que leem e evitarem de falar sobre cinema quando a inconveniência em forma de pessoa está dando o ar de sua desgraça.
            Pois bem, leitor, tome cuidado com pessoas como Carina. Elas têm uma doença rara, carregam excesso de maldade em seus corações de pedra brita, que só guardam espaço para verter sentimentos anti-sociais, contra os valores da sociedade e da boa amizade. Carina ainda tem uma velha mania... anda pra cima e pra baixo com um vibrador de dezessete polegadas na bolsa, percebi isso quando, num vacilo, ela tirou, pra dar umas espetadas, o boneco de vu duo com minhas característica e um chumaço dos meus cabelos negros e lisos, que não sei como ela conseguiu.