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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sotaques

            Alguns sabem, mesmo os que só me conhecem pelos escritos deste blog, que nasci no estado do Rio de Janeiro, e moro em Natal, Rio Grande do Norte, há sete anos, a serem completados em janeiro de 2011. E, pelo fato de ser de outro estado, com outra cultura, muitos, na época em que cheguei a Natal, ficaram mangando do meu sotaque, que eu falava chiando e tudo mais. Conseguinte a isso, eu também zoava o sotaque deles... dizia que falavam arrastado, que usavam muitas gírias estranhas e tudo mais.
            Mas – com a permissão desta conjunção já no início do parágrafo – a vida é uma roda-gigante, e, ao passo que o moinho rodava, meu coração e meu sotaque foram se adaptando ao RN. Fui cada vez mais me apaixonando por Natal e mais todos aqueles clichês que os de fora usam quando vão morar em Natal.      
            E, nesses dias, em viagem ao Rio de Janeiro – uma breve visita à família –, surpreendi minha mãe, que até dois anos morava e Natal, com meu sotaque arrastado. Até um primo meu, Rafael, que morava há menos de um ano na Cidade do Sol, ficou mangando do meu arrastar no falar. Entretanto, isso não é o pior!... Não esquento que tirem onda com a miscigenação do meu linguajar – defendo mesmo minha identidade bricolada!... O fato é que, muito acostumado com Natal, sinto dores nos ouvidos ao ver os fluminenses falando – mesmo os meus irmãos. Percebo, agora, o quanto eu incomodava e causava estranhamento nas pessoas ao meu redor, visse? 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Quem tem dinheiro come, quem não tem voa na Gol

A gente, de vez em quando, precisa viajar, sobretudo quem tem parentes fora do Rio Grande do Norte, como é o meu caso... Meus pais e irmãos moram em Niterói-RJ, e, para não passar três dias dentro de um ônibus sacolejante, tenho que, claro, fazer um esforço maior para comprar passagens aéreas. Geralmente, compro com antecedência, já que é mais barato, haja vista que temos que viajar na alta temporada, junto com os turistas, pois trabalhamos, não temos o luxo de escolher a data da viagem...
Das empresas aéreas, a mais barata, pelo menos que eu tenho conhecimento, é a Gol... As passagens custam entre quatrocentos e cinquenta e setecentos reais, e, parcelando em suaves prestações, tenho conseguido ver meus entes queridos de dois em dois anos, o que acho muito pouco, por sinal... Nesta viagem, minhas perspectivas eram melhores. Consegui, a preços acessíveis, comprar passagens sem escalas e conexões. Entretanto, uma coisa nesta viagem não me agradou muito, não mesmo.
Não foi nem o atraso de uma hora, ou o grande tempo de espera da aeronave encontrar o canto certo para o desembarque no Galeão. E já que imagens valem mais que mil palavras, posto para vocês, como incentivo a levarem o próprio lanche nos vôos da Gol, as fotos do que eu, minha esposa e outros vários passageiros que desembolsaram mais de seiscentos e cinquenta reais para ir de Natal até o Rio de Janeiro comeram... julguem o quanto a Gol gastou para satisfazer a fome das quatro da manhã, lembrando do atraso.








sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Vinho. Beba que é bom!...

Interessante como a mídia atua em nossas vidas, seja no presente de natal que estamos comprando, ou mesmo nos nossos hábitos.
Há poucas semanas, no Globo Repórter, assisti uma reportagem que apontava os maravilhosos efeitos da ração humana – mistura de cevada, linhaça, e outras farinhas –, sobretudo na questão da perda de peso e tudo mais... esta mesma farinha, essa semana, em algum jornal eletrônico que não me lembro qual foi (e estou com muita preguiça para procurar) foi apontada como um sucesso. Na semana passada, se não me engano, este mesmo programa passou uma reportagem sobre a obesidade nos EUA ou algo do gênero... Hoje, exatamente agora, quem estiver lendo pode ligar a TV e ver pra crer, o Globo Repórter mostra uma trabalhada reportagem sobre o vinho... sim o vinho.
            Eles estão dizendo que beber regularmente vinho faz bem... faz bem para o coração, para a pele, para o vigor, para emagrecer... Ora, quem disse que ser gordo é doença? Tomando as dores da minha classe, me proponho neste texto a questionar o lugar dos quilinhos a mais na sociedade... sim na SOCIEDADE, não na barriga...
            Com mais esta reportagem, a Rede Globo reafirma o modelo de beleza vigente na sociedade... e incentiva, com moderação – ou modalização – o consumo de bebida alcoólica. Não que eu tenha algo contra, de vez em quando também me arrisco num cálice de vinho, ou numa vodkazinha leve... mas daí a beber todos os dias, em todas as refeições?...
            Não sei até que ponto a ciência incentiva isso, aliás, agora, buscarei outras visões sobre o consumo do vinho, que, segundo vejo agora, é uma maravilha... invenção divina para o bem da saúde e da beleza dos homens e mulheres. Reafirmo que não tenho nada contra o vinho. O próprio Jesus fez vinho, um dos Seus milagres, e, dizem as escrituras sagradas, foi um vinho maravilhoso etc., mas não me lembro de ter lido que Ele bebia vinho várias vezes ao dia, ou todos os dias...
            Enfim... se o vinho for bom, tomemos então... se não, continuemos bebendo de vez em quando, mas acho que um consumo frequente de uma bebida alcoólica – sobretudo numa sociedade ainda carente de esclarecimentos como a nossa – não é uma coisa que deveria ser incentivada pela mídia, muito menos pela ciência... 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Após o Sono de Dez Anos - Apresentação

Poucos sabem, mas há algum tempo eu terminei um romance, que, agora, envio a algumas editoras para análises que podem durar até um ano, e sem certeza de uma aceitação.
Assim, posto a apresentação que mando junto com os originais, para que vocês, amigos leitores, possam conhecer um pouco desta obra que, acreditem, deu muito trabalho para ser feita, e que foi feita para vocês.

Obrigado!






Após o Sono de Dez Anos
Rodrigo Slama

Apresentação

Em primeira pessoa, um jovem, depois de ter sofrido um acidente que o mantém em coma por exatos dez anos, narra a história de sua vida. Ao acordar no futuro, no ano de 2020, ele se surpreende com o rumo que o mundo, seu país e sua própria vida tomaram. Ele, de um simples operário, se torna o maior acionista de umas das maiores empresas do planeta. Agora que é rico, decide viajar pelo Brasil e pelo mundo. Além de fazer turismo e ajeitar sua vida, com o dinheiro ele resolve contribuir para acabar com a fome investindo em projetos de erradicação desse mal, entretanto, algo dá errado e de salvador ele se torna um destruidor de vidas, e, inconscientemente, destrói a coisa mais sagrada de tem: a própria família. O livro é mais que a busca pelo conserto do mundo, é uma busca pelo conserto do pensamento dos homens sobre o mundo. O personagem principal, sem nome, é a representação de todo ser humano bom que acaba se corrompendo pelo desejo de poder.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Matemática

Maria estava feliz, feliz!...
Conseguiu tirar 10 de matemática.
Matemática!
Queria cantar,
Queria gritar,
Queria dançar...
Até que recebeu, no dia seguinte, um telefonema.

*

Há semanas ela esperava a resposta de uma entrevista,
Iria ser vendedora de uma das maiores e mais chiques lojas do Midway Mall...
Achava que tinha feito tudo certo na entrevista,
Trabalhou no curriculum há dias e noite,
Pois não queria fazer igual, não queria...
E não fez.
Não fará...

*

Mas a prova de matemática foi 10!
Com essa nota ela poderá,
Mais no futuro,
Encontrar um emprego melhor que de vendedora de shopping...
Ela será gerente de uma loja maior, sim!

E a poesia?
E a rima?
Ela não sabe...
Ela nunca soube de literatura...
Seu forte, pelo menos agora, é matemática...
MATEMÁTICA!!!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Escolha ou não?

Há muito os poemas não me querem,
E há muito não quero saber deles...
Há muito não quero saber de nada,
Há muito só penso em uma coisa.

Mas o que é isso que a sociedade causa na gente?
Se escrever me alimentasse mais que alma, eu escreveria a todo instante.

Queria que não fosse assim,
Queria, mas meu querer não é o melhor pra mim?...
Não no lugar em que vivemos,
Não sob o modelo que nos rege,
Que nos impede de sermos iguais!
Nos obrigando a ser mais...

Mais,
Mas que mais?
Mais um dentre os 49?
Mais um que a ninguém comove?
Como se comover por escrever fosse preciso...
Mas eu preciso.
Mais que o mais eminente.

Eu sinto o que ninguém sente...
E todos sentem o que ninguém vê.

domingo, 14 de novembro de 2010

A INVASÃO – parte 1

– Você viu aquilo? – perguntou Pablo a Danilo que, perplexo, não conseguiu responder.
– Hei, cara, vamos... corra!!!
Danilo estava em estado de choque. Nunca vira uma nave daquele tamanho. Na verdade, nunca vira uma nave espacial, muito menos um alienígena.
A tevê noticiava a visita de extraterrestres... A força aérea brasileira toda em peso se posicionava estrategicamente em todas as direções possíveis. Outros países estavam também sendo invadidos, mas até aquele momento nenhum sinal de violência ou ataque era percebido pelas autoridades e pelos irmãos Pablo e Danilo, este com dez anos e aquele com treze.

“Autoridades mundiais firmaram acordo de não atacar até que sejamos atacados. É a primeira vez que a humanidade resolve não combater o desconhecido. Mas será que isso é uma visão pacifista ou medo de represálias... Isso é o que vamos ver após o intervalo, em trinta segundos” – disse Willian Waack, repetindo a notícia que os brasileiros, ou pelo menos a grande maioria, vinha acompanhando pela Globo.
Danilo permanecia atônito... A mãe rezava ajoelhada defronte a uma santa que estava em frente a uma vela acesa. O pai pregava as portas e as janelas, e dizia a todo o momento que estava arrependido de não ter colocado laje na casa ainda. Pablo também estava com medo, todos estavam com medo, mas, estranhamente, sentia que tinha que auxiliar o irmão, que há alguns bastantes minutos deu sinal de que logo iria sair do estado de choque.
Todos aqueles desenhos, filmes, e tudo o que tinha assistido sobre ETs não fazia mais sentido, é como se nunca os homens tivessem podido prever o que estava acontecendo. Já se passaram três dias desde o primeiro contato visual, mas ninguém tinha sido abduzido, ninguém havia morrido pelas mãos – se é que têm mãos, pensava – dos visitantes mais que inesperados. A agonia e a incerteza eram sentimentos presentes em todos, todos os nativos do mundo, mas, até agora, não havia motivo para pânico, e pânico é pouca coisa mais forte que o medo.
A televisão não dava nada de novo, e a mesma imagem era mostrada em todos os canais, sob pequena variação de ponto de vista, ângulo da câmera, qualidade... A Record mostrava uma grande nave sobre o Rio Tietê, ao passo que a Globo mostrava um objeto parado acima do Cristo Redentor como principal foco, o que não os impedia de mostrar algumas outras naves sobre o Brasil e sobre o mundo, que começava a cogitar outras formas de fazer contato... e essas outras formas envolviam armas nucleares.
“É impressionante o tamanho... Especialistas afirmam que os alienígenas podem destruir toda a humanidade e o planeta Terra em menos de dez segundos. O mundo se une na tentativa de não ser destruído por estes invasores...” – Willian Bonner, com muito menos olheiras que seu xará, no JN.
– Maria, você está há mais de três dias ajoelhada rezando... você precisa cuidar dos seus filhos... pare de clamar por ajuda do gesso e olhe as crianças enquanto eu vou, novamente, atrás de comida e água – Juvenal, pai de Pablo e Danilo, falou. O governo tinha proibido de qualquer comércio importante fechar, tais como mercados, farmácias, além de hospitais, unidades de assistencialismos, etc. mas quem respeita o governo nessas horas? Ou qualquer delas?
– Posso ir com você, pai? – perguntou Danilo. – Tenho medo de ficar sozinho.
– Mas sua mãe está em casa... e o Pablo vai cuidar de você.
Contudo, a esta altura, o próprio Pablo, tão forte, que gostava de fazer o irmão aprender o quanto era superior, precisava de ajuda. Um pai, nessas situações, não iria negar companhia aos seus filhos, mas não podia levá-los para a guerra de comida que acontecida lá fora, e nem deixar Maria sozinha na presença de seus santos.
Sem saber o que fazer, Juvenal decidiu tentar convencer sua mulher mais uma vez, em vão. E, na esperança de o tempo passar, decidiu se voltar à tevê mais uma vez... bem na hora em que era anunciado, em um canal ainda não citado, que os invasores tinham feito contato com o presidente da Organização das Nações Unidas, como se o pobre Ban tivesse o mesmo poder que Obama.
Rodrigo Slama (invasão - Cristo)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O Senhor da Chuva

              Anjos e demônios, os seres mágicos mais antigos do mundo que se tem notícia, são os principais personagens de O Senhor da Chuva, livro do consagrado autor brasileiro André Vianco, que surpreende a cada página e prova que o Brasil também é terra de boa literatura fantástica.
                George, um traficante de drogas, é salvo da morte por um general angelical, Thal, que, num momento de compaixão a uma alma perdida, transcende um antigo código e permite, assim, uma guerra sem proporções calculáveis entre os seres da Luz do bem e do mal: a batalha negra. Esta batalha, há muito esperada pelos demônios, torna os anjos mais vulneráveis e conta com a participação dos homens, que, utilizados como objeto de ambos os lados, têm a missão, através de oração, de fortalecer os dois exércitos.
Os vampiros não ficam de fora desta história. Transformados para servirem de escravos para os demônios, esses seres sem alma também tem sua fatia na batalha negra, mas de que lado eles lutarão? Daqueles que os transformaram em demônios ou daqueles que carregam a luz que jamais irão possuir?
            E se não bastasse a luta entre Thal e Khel, líder dos cães infernais, e toda trama da estória, a linguagem também é um diferencial, pois prende o leitor por completo. Direto, mas com momentos de pura descrição poética, Vianco arroja e encanta com um estilo inconfundível e infalível, como provam os números e a legião de fãs que ele vem formando nestes anos.
            O Senhor da Chuva tem um final esperado, mas imprevisível.
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Luto e Luta



Recebi, extremamente feliz, hoje, a notícia da vitória de Dilma Rousseff.
Feliz porque ela é a candidata de Lula, em primeiro lugar; feliz porque ela é PT, em segundo lugar; e feliz porque não será o PSDB a governar outra vez, mais feliz ainda porque seria José Serra o presidente caso o Brasil mostrasse extrema ingratidão.
Quem me conhece, desde alunos a professores, passando pela família, amigos e desconhecidos, sabe da minha simpatia pelo PT e pelo presidente Lula. Confesso que minha preferência para suceder o presidente mais popular e melhor da História do Brasil não era Dilma, mas o ex-deputado Zé Dirceu... Os motivos estão marcados na história, e quem acredita em sua participação no escândalo conhecido como mensalão deveria entender mais de política... mas não é de Dirceu que trato neste texto, nem de Dilma...
Logo após a confirmação da vitória de Dilma (o que acompanhei no site do TSE, mas confirmei no G1 – só pra ter o gosto de ver a Globo dando a notícia) me bateu uma tristeza alegre... mas o que é uma alegria de tristeza? Alegria porque o meu foto foi um dos 52,5 milhões de votos que elegeram Dilma, a primeira mulher presidente; porque o PT vai continuar fazendo do Brasil Um País de Todos... Mas a tristeza veio porque agora nós temos a certeza de que Lula está nos deixando, ou melhor, deixando de nos liderar.
Lula não vai ficar na História: ele é História.
A vitória de Dilma era certa e esperada desde que o PSDB laçou a candidatura de José Serra... um cara que só foi mais votado em Alagoas (sabe lá por que) de todos os estados da federação quando concorreu pela primeira vez à presidência, em 2002. Se fosse Aécio eu realmente tinha me preocupado (e ficarei daqui a quatro anos), mas Serra... Serra não é humano, o povo sabe... Pela sua irresponsabilidade Eloá morreu, um pedaço do viaduto do Rodoanel caiu, a enchente nunca foi maior em São Paulo que não teve nem sequer os bueiros limpos em seu mandato inconcluso, como sempre.
Meus poucos leitores devem estar achando este texto um pouco confuso, mas é a emoção (e um pouco de álcool) que governam meus dedos nesta hora em que eu fico feliz pela vitória de Dilma (foda-se se ela é a favor do aborto, a decisão de descriminá-lo não cabe a uma pessoa, mesmo que presidente, ou melhor, presidenta!), mas Lula nos deixará órfãos, e isso me entristece.
– Desculpe, Dilma, mas preferia Lula, preferia Dirceu... Depois deles, acho, que você seria mesmo a melhor opção. Faça o seguinte: telefone pro Lula, mesmo sabendo de sua capacidade, ouvir conselhos é bom; e chame o Dirceu de volta pro ministério... Sua popularidade não cairá, você está pegando um país anos luz evoluído em comparação ao que Lula pegou... não se preocupe, pois eu não me preocupo.
Se você que lê votou em Serra, reflita sobre o governo de Dilma, que será melhor que o de Lula... Se você votou em Serra, saiba que com ele você não estaria lendo meus textos, pois, mesmo que você tivesse computador, eu não teria, muito menos internet... Se você votou em Serra e não mudar sua postura de avaliação de um candidato, e, principalmente, de um partido, se mate, pois você não é gente.
Valeu, Lula!
Agora é Dilma, é a vez da mulher!... 



domingo, 24 de outubro de 2010

Ordem e Progresso



Disseram que Lula era uma ameaça,
Incapaz, analfabeto...
Lula fez mais do que prometeu... pôs ordem... todos sabemos.
Mas ainda precisamos de mais...
Ainda precisamos de mais progresso... Vote Dilma 13!


domingo, 17 de outubro de 2010

Por que as igrejas apóiam Serra?

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mateus 6:24).
Vivemos nos perguntando por que igrejas e a Igreja vêm apoiando o candidato Serra... A resposta, leitores, é a ganância, a sede de poder, a fome incontrolável por dinheiro. O fato é que com Lula – sem partidarismos, apenas uma visão crítica dos fatos – fez com que muitos brasileiros saíssem da linha da miséria, entrassem na classe média e tal e coisa. Por este motivo, as pessoas estão estudando mais, e estão abandonando antigos dogmas impostos por líderes religiosos.
Um exemplo simples é o fato de que, com mais educação, as pessoas estão interpretando melhor a Bíblia e vendo que não é preciso enriquecer os cofres das igrejas para obter a salvação, pois, como Jesus mesmo afirmou, “Eu [Jesus] sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (João 14:6). E não ninguém vem ao Pai se não pagar tributos, ofertas...
Isso mostra que as igrejas se preocupam com a evasão das pessoas que fazem doações e frequentam os cultos não com a intenção de encontrar a Deus, mas de obterem uma melhor condição de vida, sair da miséria mesmo... e acabam dando o pouco que tem para comprar a compaixão divina. Por serem mal doutrinadas, por não dominarem os ensinamentos da Bíblia, essas pessoas abandonam as igrejas por estarem conseguindo sair da miséria, e pensam: “Pronto, agora não sou mais miserável, já posso comprar meu pão, meu filho faz faculdade, não vou mais à igreja e não vou mais dar dinheiro para o pastor ou padre.
Falando em pastor, me surpreendi com Silas Malafaia hoje no programa de Serra pedindo votos para o PSDBista. A que nível as coisas chegaram?! Depois de assistir ao programa, me pus a ler as notícias e vi outro absurdo: a CNBB está precisando se defender por impressão de panfletos que avisam sobre uma falsa postura da candidata Dilma, sucessora do cara que está fazendo os pobres deixarem de ser tão pobres e tão manipuláveis, em favor ao aborto.
Quem duvidar pode ver o Bispo Regional da CNBB, Benedito Beni, defendendo tais manifestações pró-Serra.  Na nota, o bispo defende a panfletagem mentirosa que tem por fim influenciar as pessoas contra Dilma, contra o progresso, contra a quebra de paradigmas dogmáticos. O pastor Silas Malafaia e o Bispo Benedito Beni, representantes das igrejas evangélicas e da igreja católica, afirmam, através do seu discurso, que servem às riquezas e não a Deus. Depois é a Dilma que é contra Jesus... que sacanagem... ou melhor, que heresia. 

sábado, 9 de outubro de 2010

A Tartaruga e o Pinto

As pessoas me perguntam por que não gosto de bichos de estimação. Eu nunca disse que não gostava de bicho, apenas não criava por ter sofrido bastante com os animaizinhos que eu tinha quando criança.
            Minha primeira experiência foi com um pintinho... como eu gostava daquele pintinho, criava como se fosse um cão – talvez o comesse quando virasse um galo, mas até então era o meu melhor amigo. Certo dia, minha mãe entrava em casa com sacolas na mão... doida para guardar logo as compras e acender seu cigarro. Avexada e bruta como sempre, ela pisou no meu pintinho.
            Aquele cena é uma das mais tristes que me lembro... toda tripa da pobre avezinha saiu de seu corpo pelo cu. Não pensei duas vezes... peguei uma caixinha de sapatos e levei meu amigo para uma benzedeira, tia Aladir. Insisti para que ela o rezasse, quem sabe assim ele ficaria bom já que não estava morto, podíamos vê-lo respirando, com muita dificuldade, por sinal, mas respirando. 
            – Tia Aladir, a senhora pode rezar o meu pintinho? Ele tá quase morrendo...
            – Mas, Maurinho, você sabe que só rezo pessoas... posso tentar... se bem que acho que não vai resolver...
            – Mas tenta, tia, tenta, por favor! – pedi olhando como quem olha a mãe do fundo de um poço com os braços estendidos, lágrimas correndo, e esperando por socorro imediato.
            É claro que titia não conseguiu curar meu pintinho, mas espero que ele tenha morrido sem muita dor depois da reza.
                                                   
         Depois do pintinho, eu tive um jabuti, mas naquele tempo chamava de tartaruga. Já ganhei a tartaruga grandinha e tal... Também não tinha nome... ora, se já era uma tartaruga para que inventar outro nome?... Chamava o jabuti de tartaruga mesmo. E detalhe: achava que era uma tartaruga... fêmea.
        – Pronto, Maurinho – disse minha mãe. Agora se eu pisar nesse seu novo bicho eu não vou matar – e me estendeu a tartaruga. – E vê se para de chorar também.
           – Viva! – gritava de emoção.
          Eu brincava sempre com a tartaruga, corria do colégio para poder lhe dar alface outras comidas de tartaruga. Gostava de colocá-la de cabeça para baixo e ver se ela conseguia se virar... mas ela nunca conseguia sozinha. Mesmo quando eu a deixei a noite inteira assim, ela não se virou.
            Nunca tive um bicho tão forte como aquela tartaruga. Botava brinquedinho em suas costas e ela carregava sem problema... e se minha mãe ou qualquer outra pessoa pisassem na bichinha ela não morreria como o pintinho.
            Mas – o tal mas da história – certo dia uns amigos do meu pai tinham vindo beber com ele em casa... beberam até altas horas. Meu pai e os outros bebedores não limparam o quintal depois da noitada, deixando todas as garrafas espalhadas por lá.  Ao acordar cedo – pois era domingo, e sábado e domingo eu sempre acordava muito cedo, ao contrário dos outros dias –, eu logo corri para brincar com a tartaruga...
            Dei um grito estridente e minha mãe, meu pai e meu irmão acordaram imediatamente. Minha tartaruga estava toda ensanguentada e com indícios de morte....
            Acontece é que aquela tartaruga era macho, e resolveu acasalar com uma das garrafas de cerveja do chão. Devido à pressão ou outro fator, a garrafa estourou e cortou fora o pênis da minha tartaruga. Ela morreu devido à perda do sangue... Eu não a levei para a tia Aladir, queria mesmo que a tartaruga morresse... Eu não gostaria de viver sem meu pênis, a tartaruga devia pensar o mesmo. 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Glaydson, O Vampiro Natalense, ataca novamente

A noite estava sombria. Nada se ouvia além da chuva que batia no telhado e corria pela calha inundando o chão de concreto. Mesmo assim ela não se movia, mal podia, mas não se movia. Suas pernas estavam livres, mas cansadas de tanto se debater... seu sorriso estava encoberto por um pano imundo que servia como mordaça... seus braços... seus braços estavam amarrados com arame farpado que incrustava em sua pele banhada em sangue, lavada em sangue.
         Ele não se movia também. Estava sedento, mas gostava de ver as presas sofrendo. Não entendia o porquê, não precisava... mas o sangue, o precioso líquido que o mantinha semi-vivo, ainda preso ao mundo dos homens, era desperdiçado. Tudo bem... valia a pena ver o sofrimento nos olhos dela, olhos que agora já iam se entregando à morte.
            Agora era hora. Se ela morresse, o sangue estragaria. Glaydson a pegou e mordeu seu pescoço consumindo todo escarlate líquido da moça. O sangue, entrando em seu corpo, o fazia lembrar dos tempos que era vivo, talvez porque estivesse, quando saciado – mesmo com a mulher com uma falta de cerca de um livro de sangue –, mais perto de estar vivo que poderia estar em qualquer outra ocasião... Na manhã seguinte, iria ter mais uma tiragem extraordinária da Tribuna do Norte comentando sobre mais uma morte misteriosa em Natal, mas desta vez iriam encontrar um corpo decapitado, Glaydson não cometeria o erro de deixar as marcas dos seus dentes à mostra novamente.

            Alguém não estava gostando nada nada de um jovem vampiro atrapalhando as coisas na capital do Rio Grande do Norte. A situação sempre foi controlada no estado, pois os poucos vampiros que existiam ali eram unidos e tinham um código a respeitar, que, sobretudo, prezava a descrição, e, para não levantar muito alarde, os bebedores de sangue procuravam sempre pessoas desimportantes, muitas vezes juradas de morte ou presidiários... enfim, gente que serviria melhor morta do que presa para a sociedade. E quando alguém quebrava essa regra dava aos outros o direito de caçá-lo, sem piedade ou dó.
            – Hei, você aí.
            Pela primeira vez em três dias Glaydson se assustava.
            – Hei. Há dias estou atrás de você, sem vergonha. O que acha que está fazendo?
            – Q-quem é v-você?
            – Sou Lord Sevlá, o senhor dos vampiros do Rio Grande do Norte. Dono de almas e terras que sua visão não pode mensurar.
            – O senhor dos vampiros? Então... eu não sou o único?!
            – Claro que não, imbecil! Você é o mais jovem, e o mais morto daqui a pouco.
            E ao falar isso, Lord Sevlá avançou na direção de Glaydoson e, no instante em que iria desferir o golpe fatal, foi surpreendido por um grito apavorado de um dos seguranças noturnos da Guararapes, lugar para onde foi Glaydson após matar dois funcionários do Macro.
            – Vamos, animal. Siga-me.
            Tremendo mais do que um senhor com mal de parkinson sentindo frio, Glaydson seguiu Lord Sevlá. Em pouco mais de duas horas e meia de corrida, eles pararam em algum lugar próximo a Caicó. Ali ninguém os encontraria.
            Ao chegar num castelo bem escondido, mesmo para os olhos vampiros de Glaydson, próprios para enxergar no escuro, o vampiro natalense foi recebido por sete vampiros, quatro homens e três mulheres, com Lord Sevlá eram quatro casais. Assim que o Lord chegou, todos fizeram uma mesura e se dirigiram para o salão do trono. No salão, havia nove tronos dispostos num U invertido. O Lord se posicionou no trono central. Após ele, todos os outros se sentaram, mas Glaydson ficou no centro em pé. Ele não sabia, mas o seu destino iria ser selado ali. O bom da história era que ele tinha ganhado mais uma chance... ira ser morto em Natal. Agora, só um milagre o salvaria, e em milagre ele não acreditava nem quando era um ser humano.

Primeira parte aqui
Próxima parte aqui

domingo, 26 de setembro de 2010

A felicidade é uma mentira?

Estamos sempre em busca da felicidade, mas a felicidade se esconde aonde? Na família, nos braços de alguém, no emprego? Não sei, de fato. Dizem que a vida foi feita para se viver, mas como viver esta vida que é cercada por vidas e vindas que trazem mudanças. – Não estou falando de reencarnação, nem acredito nisso... mas das vidas das outras pessoas que nos cercam, pois são, na realidade, as que realmente contribuem para o nosso crescimento, para nossa evolução.
Uma conversa... numa conversa a gente não entende o outro, mas se entende, claro. Precisamos do outro para nos completar. – Não estou tratando de teorias sobre o sujeito, o que não quer dizer que me interesso por isso... mas tento entender mais do que acontece na superfície das coisas. Ora, somos motivados por fatores diversos, muita coisa influencia na nossa vida, nas nossas escolhas, sobretudo, e tais escolhas, claro, as escolhas que temos, nós mesmos, e não é redundâncias, são responsáveis, logo, pelo rumo da nossa vidas e das várias vidas que nos cerca e contribuem, novamente, para nossa real postura, para nossa real (trans)formação.
A felicidade é conceito inventado? Não sei, mas ela existe! Eu busco a felicidade. Nós buscamos, claro, a felicidade, seja no trabalho, na família, em Deus... – Não estou falando de religião, até me interesso cada vez mais por isso, mas não é hora de falar de fé, que não é, claro, religião. Confuso? A felicidade, assim como a vida, como a sociedade, é confusa. Minha felicidade, assim como meu nariz, é diferente da felicidade do outro. Senso comum? Talvez, mas se fosse tão comum assim não seria preciso ir à busca de respostas para tudo, para a vida, para o conceito de felicidade, o conceito de família, o conceito de trabalho, o conceito de Deus.
Ando pelas ruas, vejo gente e penso: será que eles são felizes assim: tomando cachaça o dia inteiro, litros e litros vazios embaixo das mesas, assim como as geladeiras e as contas bancárias, se houver? Sim, eles são felizes. Eles têm a felicidade deles, diferente da minha, diferente da felicidade do outro. Mas a minha felicidade eu não sei qual é, pois ainda a busco. Só sei que não está no fundo de um copo vazio de cachaça. Só sei que não está em ter a conta bancária cheia, pois, ao contrário do fundo vazio de um copo de cachaça, nunca vi minha conta bancária cheia. Como sei disso? Não sei.

domingo, 19 de setembro de 2010

Pedro e a poça d'água

Estava cansado e com sono, caminhando numa rua deserta, quando, de repente, um carro passou numa poça e jorrou água suja em Pedro, que despertou definitivamente. Ele geralmente não prestava muita atenção em coisas como uma poça no chão, afinal, a rua era deserta e nunca passava carro lá. Assim que deu conta de que todo o uniforme estava molhado, Pedro resolveu voltar para casa e mudar de roupa para não ir todo imundo para a escola. Por sorte, ele estava ainda acerca de um quarteirão de casa.
O garoto molhado estava decidido a tomar banho, mas estava muito frio para isso, então ele resolveu apenas trocar de roupa... Então secou o rosto e os baços, trocou de camisa e seguiu para a escola, já que estava indo mal em matemática, disciplina do primeiro tempo, e não podia perder uma aula a mais... sua mãe o mataria se ficasse em recuperação de novo.
Três dias depois, assim que saiu do banho matinal antes da escola, Pedro olhou no espelho e percebeu que estava com manchas vermelhas nos braços e no rosto, justamente onde a água jogada pelo carro tinha batido. Ele mostrou à sua mãe e lhe contou toda a história. Foi ao médico imediatamente. Ana, mãe de Pedro, parecia levemente feliz com aquilo, pois havia acabado de fazer um plano de saúde para a família e estava doida para estrear os serviços caríssimos que vinha pagando.
Após a consulta, o médico disse que não tinha sido nada grave, apenas uma micose... Pedro só precisaria usar uma pomada e não coçar, principalmente não coçar. E era justamente o que Pedro vinha fazendo no caminho de casa até o consultório do dermatologista... Na verdade, desde a noite, anterior ele vinha coçando o corpo, principalmente os braços e o rosto.
De lá, eles seguiram imediatamente à farmácia de manipulação para encomendar a pomada – como Ana não tinha entendido a letra do médico, só fez entregar a receita ao farmacêutico. Mesmo doente, Pedro ficou feliz, pois não precisaria ir à aula naquela quinta-feira, mas seu corpo não parava de coçar e coçar... A pomada incomodava, ardia... E a vontade de coçar só fazia aumentar. Aquela pomada deveria aliviar a irritação, mas não estava adiantando de nada, muito pelo contrário. Pedro já estava ficando com raiva daquele incomodo todo.
A irritação era tão grande que ele acabou tirando a pomada, e continuou a coçar. Ele passou gelo, o que não adiantou; fez umas receitas caseiras que pegou na Internet, mas nada resolvia, absolutamente nada. E um dia depois de ter ido ao dermatologista, Pedro voltava ao consultório com a mãe. Agora, até mesmo os seus olhos estavam vermelhos: não tinha pregado os olhos durante a noite.
Ao ver o estado do rosto e dos braços do rapaz, o dermatologista ficou assombrado, perguntou o que mãe e filho fizeram de errado, afinal, passar pomada e ficar sem coçar não é uma coisa muito complicada para uma mãe e um menino de treze anos fazerem. Mas era o que parecia.
O médico conferiu a pomada que havia prescrito, mas a receita estava correta. Então ele pediu para conferir a pomada comprada, e para sua surpresa era a pomada errada. Pedro vinha usando uma pomada para outra enfermidade que, ao entrar em contato com a micose, causou esse efeito colateral.
– Eu falei pra você conferir o nome do remédio, menino...
– Mãe, o cara da farmácia me deu esse e mandou conferir com a cópia da receita, pois a que a gente deixou lá tava no arquivo ou foi pro Ministério da Saúde, sei lá...
– E você não conferiu por quê?
– Porque esqueci a receita...
– Bem feito... isso é pra você aprender a lembrar das coisas.

Para a sorte do garoto, o médico dermatologista deu um jeito. Ele mesmo aplicou uma pomada que imediatamente aliviou a irritação e a coceira. Com três dias, Pedro já havia notado a diferença e não passara a noite querendo arrancar a pele do braço e do rosto. Quem não gostou nada da história foi a irmão de Pedro, Cíntia, que estava escrevendo um conto sobre mutação... era a história de um menino que se expôs a determinado produto e ganhou o poder de camaleão... mas não era um herói esse protagonista, era o vilão da destruição da paz do mundo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Se

Será que a falta de brevidade é pertinente a todo o momento?
Não sei...
Se soubesse de tudo,
Se não sofresse por tudo
Talvez o mundo deixasse de ser presente sempre.
E se a presença do sol fosse boa?
E se a vontade de ser livre passasse?...
Se
Somente se
Se o se não fosse assim: se.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Glaydson, O Vampiro Natalense

Gêneses

      Era sábado, três da manhã. Glaydson saía da boate com seus amigos, mas estava tão bêbado que, como todo bêbado, não raciocinava bem e não tinha noção da realidade e das convenções do mundo... Foi atraído por um grupo de rapazes e moças que tinha saído mais ou menos no mesmo tempo que seu grupinho. Despediu-se de qualquer jeito dos amigos e foi tentar a sorte. Daí não se lembrava de mais nada. Acordou três dias depois, mas não estava mais vivo, muito menos morto. Tornara-se um ser sedento por sangue e diversão, mas ele ainda não sabia desse fato.
      Por sorte, era noite quando ele despertou. Estava numa casa velha de um sítio próximo à BR-101. Ao que tudo indicava, o local era desabitado há muitos e muitos anos... não só a casa, mas toda a propriedade. No instante em que abriu os olhos, percebeu que não se lembrava de nada, nem do seu nome, nem o que fazia ali, mas saiu... saiu sem rumo ou destino esperando resolver ou sanar seu problema interior – não se engane, leitor, não é uma metáfora... seu corpo pedia e se contorcia por algo que até então Glaydson não sabia o que era –. Talvez por isso ele tenha corrido, corrido tanto que nem conseguia ver o caminho por onde ia passando, só queria saber de correr e correr. Não se preocupava com nomes, números, endereços... queria apenas matar a sede. Mas sede de quê?
      Sangue. De algum lugar desconhecido emanava o aroma que fazia todo o seu corpo entrar em um grande espasmo. Sem mesmo pensar no que estava fazendo, Glaydson correu na direção contrária ao vento que trazia o cheiro mais gostoso que ele se lembrava até então. Engraçado... Ele há pouco tempo não saberia reconhecer o cheiro de sangue, mas aquele aroma... aquela doce fragrância lhe fazia lembrar das vezes em que tinha se machucado ou ido fazer exames sanguíneos.
      O sangue era de um mendigo que tinha se cortado fazendo a barba – péssima hora para fazer a barba, não concordam? Glaydson estava em algum lugar imundo do Satélite, onde fez sua primeira vítima... mas não! O mendigo não se tornaria um vampiro, Glaydson nem sabia como fazer uma presa virar um semi-morto... ele sugara todo o seu sangue não deixando nem uma gota... não transferiu para ele nem uma gota do seu sangue contaminado com um vírus que supera qualquer Aids, um vírus capaz de aprisionar a alma de qualquer infeliz.
      Ainda sedento, mas se sentindo bem mais vivo e lúcido – isso inclui lembrar de quando era vivo, o nome e algumas poucas outras coisas – devido aos quatro litros e meio de sangue que tinha tomado, perambulou mais um pouco durante aquela noite. Caminhava normalmente, na velocidade de um ser humano – o que já não era – e pensava e refletia sobre sua condição. – É claro! Sou um vampiro... Agora me lembro! Estava bêbado, mas me lembro... participava de uma orgia com os turistas – lembrou-se da dor de ter o pescoço mordido... ainda estava ferido. Percebeu que logo deveria encontrar um lugar para passar o dia, já que, certamente, pensava, não brilharia ao sol... e se brilhasse não era tentando que queria descobrir. – É melhor evitar entrar em combustão instantaneamente!
      Decidiu invadir o Macro e procurar uma caixa, um depósito, um porão onde pudesse se esconder do sol. Não estava cansado, mas sabia que precisava dormir. Entrou num almoxarifado com aspecto de não utilizado durante meses. Sentia, por incrível que pareça, que o sol estava despontando do oceano para dar vida e luz aos seres humanos, antes seus irmão, hoje suas presas. Enquanto o sono não batia, olhava em seu celular quase descarregado notícias, artigos e escritos que falavam sobre vampiro para tentar entender o que havia de fato acontecido consigo. O telefone descarregou por volta das nove dando-lhe mais um motivo para dormir, além de um leve sono que dava sinais de presença. A noite seria um novo dia para o Glaydson, O Vampiro Natalense.

Continua aqui

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Pensamento sobre o pensamento do mundo


Não sei de nada, não mesmo, pois ando por aí pensando que se pudesse pensar melhor, o que de fato é uma busca constante para a humanidade, penso, poderia pensar num pensamento que pudesse modificar o pensamento das pessoas, que de fato não é um pensamento comum, ou não, por isso não sei de nada, não mesmo, e mesmo que soubesse ser mesmo de fato o mesmo pensante que anda pensando por aí que se pudesse pensar melhor poderia pensar num pensamento que pudesse modificar não só o pensamento das pessoas, mas o pensamento de todo o mundo, tornaria o mundo melhor, pois penso que tudo no mundo, e não só as pessoas, pensam, e esse pensamento, penso eu, precisa deixar de andar por aí a vagar no pensamento sexador e tornar-se um pensamento de bem coletivo, o que fará com que o meu conhecimento de mundo, que é partilhado por outras pessoas de uma forma genérica, se torne senso comum, e que este comum seja, de fato, comum a todos os que andam por aí pensando em querer que o pensamento de todo o mundo se voltasse para o melhor para os Nativos do Mundo.

domingo, 25 de julho de 2010

Coração de Tinta - Resenha do Livro

Coração de Tinta (Cornelia Funke) – Resenha do Livro


Gwin, personagem de Coração de Tinta, de Cornelia Funke

            O sonho de todo grande leitor, principalmente dos livros de fantasia, é que os elementos de estimado valor, os seres fantásticos, fossem reais, mesmo que fosse o maior dos vampiros, mesmo que fosse Voldemort ou Sauron... tudo para ter um pouco de magia no nosso mundo real e sem graça.
            Mo, protagonista de Coração de Tinta, primeiro livro da trilogia Mundo de Tinta, de Cornelia Funke, alemã, escritora e ilustradora de livros de fantasia, tem um dom raro e nobre: tudo que lê cria vida, as palavras de tinta saem do livro em forma de seres de carne e osso e objetos de sólida matéria, como a madeira e o ouro, cobiçado no nosso mundo e nos vários mundos mágicos e ficcionais existentes entre as capas dos livros.
            Há muito tempo, durante uma leitura em voz alta para a esposa, Tereza, Mo, liberta do livro Coração de Tinta – eis o motivo do título – o vilão Capricórnio, Basta e Dedo Empoeirado, e nisso transporta Tereza para dentro do mundo de tinta. E, assim, o mundo real passa a ser habitado por seres de um mundo fantástico, seres bons e, principalmente ruins que, devido à maldade de Capricórnio, tentam de tudo para trazer o mais perigoso e malvado dos seres do mundo mágico de Coração de Tinta.
            A história começa, de fato, com a visita de um estranho à porta de Mo. Maggie se assusta, mas o estranho se revela um velho conhecido de seu pai. Dedo Empoeirado traz consigo informações que causarão uma reviravolta na pacata vida de pai e filha, que seguirão com o visitante numa aventura sem precedentes, onde a presença da magia é uma realidade e os livros, lidos pela voz de Mo, se tornam inesgotável fonte de surpresas boas e más, é claro.
            Com uma narrativa extensa, mas envolvente, Coração de Tinta atrai mais pelo enredo do que pela linguagem, entretanto conta com ilustrações magníficas e a mais perfeita seleção de epígrafes – sim, todo capítulo inicia-se com trechos de autores consagrados como Tolkien, C.S. Lewis e James Barrie – que se poderia ter. Assim, Coração de Tinta se torna uma boa pedida para quem gosta de intertextualidades, fantasia e, é claro, uma boa saga.


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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Língua: Vidas em Português

        “Não há uma língua portuguesa, há línguas em português” (José Saramago). Esta é apenas uma das epígrafes do documentário Língua: Vidas em Português (2001), do diretor Victor Lopes, que mostra pessoas em diferentes países cujo idioma é o português – ou com uma comunidade de língua portuguesa – falando de suas vidas em relação ao idioma lusitano.
            Com passagens por Goa / Índia, Moçambique, Portugal, Brasil, Macau / China, Angola e Japão (comunidade Brasileira em Tóquio), Língua: Vidas em Português, através de um ponto comum – a língua – relaciona povos distintos em várias partes do mundo. São retratadas pessoas de várias profissões (padeiro, escritores, músicos, vendedor de balas/pregador) e classes sociais que valem-se do idioma português para se comunicar e/ou trabalhar e/ou postular sua identidade.
            Figuras importantes no cenário literário de língua portuguesa aparecem dando entrevistas e falando de suas relações com a língua. Saramago, Mia Couto e João Ubaldo Ribeiro são porta-vozes de toda uma nação, de toda uma comunidade mundial de usuários da nossa língua.
            Não obstante, o documentário não se prende apenas a figuras ditas “cultas”, mas mostra usuários comuns da língua (estudantes, vendedores) – o que enriquece todo trabalho. Assim, realidades distintas, como um vendedor de balas e pregador do Rio de Janeiro, se cruzam. Como um estudante de Angola e vendedores lojistas em Macau através de um ponto em comum, como dito: a língua portuguesa.
            Nós, espectadores, somos levados a viajar por lugares comuns, que falam o nosso idioma (claro que um sotaque um pouco menos entendível, às vezes). Assim, podemos refletir sobre a importância da língua portuguesa no mundo, através de Língua: Vidas em Português, um documentário artístico-informativo, que apresenta, no decorrer de cerca de noventa minutos, experiências únicas de vidas que contribuem para o engrandecimento cultural da língua portuguesa, seja através de variantes peculiares, como a do vendedor de balas/pregador, seja do uso mais “culto” dos escritores citados, seja do jeito maroto de Martinho da Vila, ou das exposições dos jovens estudantes de Lisboa e Moçambique.
            A língua portuguesa, no documentário, é mostrada como instrumento de propagação da fé e da palavra do Deus Cristão – seja no Brasil ou em Moçambique -, assim como veículo para se professar a cultura, a música – muito bem representada pela Tia do Fado Português etc., pois, segundo Saramago, a língua, conforme o contato, torna-se uma inesgotável fonte de beleza e de valor – sejam eles quaisquer que forem.
            Deste modo, assistir Língua: Vidas em Português nos reafirma como parte de uma grande comunidade mundial que tem imbricada em sua cultura raízes que se desenvolveram e deram frutos incríveis da língua portuguesa, ou melhor, das várias línguas em português. Isso transforma a todos nós em personagens protagonistas de um longa metragem que ultrapassa o tempo documentário em questão, já que esta vida é respirada e mantida e sonhada por 244 milhões de pessoas falantes do português, todos nós. Já que a língua “no fundo, não estás a viajar por lugares, mas sim por pessoas” (MIA COUTO).

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Hobbit, de J. R. R. Tolkien - Resenha

         Quem nunca ouviu falar em Gandalf, Frodo, Legolas, Gimli, Aragorn, Bilbo Bolseiro e CIA? Pois é, O Senhor dos Anéis, um clássico da literatura universal, conseguiu uma notoriedade sem precedentes pela adaptação ao cinema, por Peter Jackson, e que ganhou nada menos do que onze Oscar, em 2003... Mas isso não é novidade pra ninguém, não é mesmo?
Entretanto, como vocês sabem, não existiria O Senhor dos Anéis sem que se houvesse O Hobbit, que está sendo adaptado ao cinema com produção do Peter Jackson. Mas você conhece o livro? Já teve a oportunidade de saber como o anel foi encontrado por Bilbo? Em como a espada Ferroada chegou até o tio de Frodo, além de saber como ele adquiriu a armadura de mithril? 
Tido por muitos como o melhor livro de J. R. R. Tolkien, O Hobbit tem os elementos necessários de um bom e consagrado clássico de fantasia medieval: guerras, magia, jornadas... Que começam a aparecer quando Gandalf, o Cinzento, procura Bilbo Bolseiro, o herói desta aventura, e lhe “oferece” uma missão: ser o ladrão da equipe de treze anões que seguirão para o extremo leste para tentar reaver um tesouro há muito roubado por um grande dragão vermelho dourado: Smaug.
A equipe, liderada pelo grande Thorin Escudo-de-Carvalho, segue em grandes aventuras, e enfrentam monstros e maldições, armadilhas e perseguições... A leitura de O Hobbit é imprescindível para os fãs da Saga do Anel, e, dificilmente, vai ter na adaptação, mesmo sendo por uma das melhores equipes de cinema da atualidade em se tratando de adaptação (d)e fantasia, todos os elementos sublimes e importantes da obra de Tolkien, que tem todo um glamour literário não estarão presentes em sua totalidade. E se você é um dos (loucos) que acha(ra)m a leitura de O Senhor dos Anéis enfadonha e muito detalhista, não se preocupem... O Hobbit é menos denso e possui um ritmo implacável que o prenderá do início ao fim.
E, sem querer me prolongar e contar muitos detalhes do enredo, digo que há uma das maiores e mais bem escritas batalhas de todas as literaturas já lidas por este mero resenhista que vos escreve... e se a equipe do filme conseguir retratá-la, o que de fato acredito, fielmente, nas telonas, será também a mais emocionante e perfeita batalha da história do cinema mundial.

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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Palavrão e Boca Suja

            Eles nasceram em Goiânia, como toda dupla sertaneja tem que nascer, mas ao contrário das demais, eles não plantavam tomate, nem tinham que comer ovo cru, muito menos eram filhos de ricos fazendeiros e formados em odontologia ou algo do gênero.
            Mirosrio e Durvalindo eram filhos de Francisca Joana, dona do cabaré mais famoso da grande Goiás, chamado Todarrô Lakiédura. Os dois cresceram em meio às putas, entre os bêbados e os errantes, aprenderam tudo que sabem naquele ambiente. A primeira palavra que Mirosrio aprendeu foi xoxota, ao passo que Durvalindo aprendia que chupeta não era um bico de borracha em formato de mamilo que serve para enganar o bucho do bebê.
            Durvalindo ganhou um violão da mãe ao fazer cinco anos de idade, um dia depois do aniversário de seis anos de Mirosrio, que ganhara uma sanfona velha e desafinada - Francisca Joana aceitou aqueles instrumentos como pagamento atrasado de um ex-cantor da região. Eles passaram o dia inteiro tentando aprender a tocar os tais instrumentos, além de passar o tempo entre um acorde e outro ouvindo as canções sertanejas mais famosas das rádios do centro-oeste.
            O tempo se passou, os meninos aprenderam a cantar e a tocar. Eles ficaram tão bons, lá pelos seus quinze e dezesseis anos, que resolveram compor as próprias canções, e como não tinham um grande conhecimento de mundo e rico vocabulário, compunham canções baseadas em acontecimentos do puteiro da mãe e com o palavreado apropriado.

Rapariga quero comer teu cu,
Mas não quero pagar mais por isso,
Pega logo o sabonete,
Pra amaciar a entrada do Roliço.

Meu pau ta doido pra te comer,
Garçom: chega de trazer cerveja,
Essa quenga já bebeu vinte e um,
E mesmo melada não quer me dar o cu.

Ô rapariga, ta de putaria?
Te dou mais dez se você chupar,
Boca macia sem dentes pra machucar,
Mas no seu cu que quero ir gozar.

Meu pau ta doido pra comer você,
“Vamo” subir que quero ir foder,
Comer seu cu é meu desejo agora...
Me chupa logo ou meu pau “istora”.

            A primeira vez que os meninos cantaram essa música, a primeira que eles fizeram, Desejo de cu, foram mais que aplaudidos no cabaré. Os frequentadores do estabelecimento gostaram tanto que os rapazes tiveram que tocar a mesma música a noite inteira... apenas as putas não gostaram, pois isso aguçou a criatividade dos fregueses...
            E foi assim que surgiu a primeira canção do Palavrão e Boca Suja, a dupla sertaneja mais odiada e amada de toda história da música regional de Goiás.

sábado, 1 de maio de 2010

Uma única vez

Eu deixaria de ser um ser de luz
Apenas para poder uma única vez te tocar.
Seria um simples mortal;
Seria capaz de sentir toda dor carnal.

Eu trocaria a eternidade
Apenas para poder uma única vez te abraçar.
Eu trocaria a eternidade
Para poder pela última vez te olhar.

Eu trocaria minha vida pela sua;
Eu renunciaria aos meus direitos...
Eu trocaria a eternidade apenas para te fazer feliz,
Sofreria o castigo maior para te ver sorrir.

Eu renunciaria às minhas lembranças;
Eu trocaria o direito de amar;
Eu deixaria a eternidade
Apenas para uma única vez te beijar.


PS.: Qualquer semelhança com palavras de Seth, de Cidade dos Anjos, não é mera coincidência...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Resumo Galado de O Hobbit, de J.R.R Tolkien

O Hobbit foi escrito por João Roberto Rodrigues Tolkien, enquanto bêbado – já que na Dinamarca, país de origem, é muito comum o consumo de Saquê – e narra a saga de um pequeno individuozinho, um Hobbit (o que mais seria?), que mora numa toca cavada no chão do quintal do mago Gandalf.
Bilbo Bolseiro, um fazedor de bolsa, – o tal Hobbit protagonista – era doido pra ter dinheiro, já que, como dito, morava de favor. E se ele saísse com os sete anões da Branca de Neve, ganharia uma pequena parte do tesouro, constituído basicamente de jóias banhadas em ouro e diamante derretido.
Os anões e Bilbo enfrentaram vários perigos, foram obrigados a dançar can-can para os orcs nas Montanhas Sombrias, tiveram que secar as peles do Troca-peles, que era um vilão que morava próximo a floresta. E na Floresta das Sombras, vigiada dia e noite por Voldemort, os viajantes se banharam na fonte do sono e dormiram depois de comer o resto da maça que os anões trouxeram da Branca de Neve.
Elfos malvados aprisionaram os andarilhos num decorrer da história. Eles tiveram que limpar os banheiros com as escovas de dente, tiveram que dormir sem comer, e ler trechos de Hamlet dia e noite. Eles escaparam graças a Bilbo, que colocou os anões na bolsa de um canguru que os deixou no pé da montanha solitária, onde vivia Smaug, um dragão homossexual que gostava de namorar com pôneis à luz do luar, mas tinha um romance secreto com Bard, um descendente de um reizinho da região.
Quando o dragão viu Bilbo se apaixonou imediatamente, e com ciúmes Bard matou a bicha alada com uma flechada certeira no coração. Todos da cidade ficaram com medo dos estragos que o dragão faria, porém ele virou purpurina quando morreu e encheu o horizonte de brilho vermelho dourado.
Tudo parecia resolvido quando Bard e o rei élfico reclamaram parte do ouro, e uma guerra se formou. Entretanto, orcs quiseram de volta seus dançarinos, e tinham o plano de montar um bordel, inclusive com sede em Moria, e atacaram junto com os wargs, seus vira-latas de montaria. Com isso, elfos, anões, humanos, wargs e orcs travaram a famosa guerra das cinco raças, que na verdade eram seis, já que rolinhas do oeste vieram ajudar em troco de uma noite de amor com Gandalf, que passou maior parte da história num motel com Saruman, onde brigaram e acabaram virando inimigos (essa história aparece no Senhor dos Anéis).
No fim das contas, os orcs e wargs foram vencidos e o ouro falso foi dividido entre os vencedores, e Bilbo, finalmente, pode comprar o Condado e deixar de morar no quintal do Mago Cinzento, que passou o caminho todo de volta pela extremidade das terras ermas cantando o pobre Hobbit que recusou todas as investidas do Mago.

            Mais informações no resumo de O Senhor dos Anéis, em breve neste blog.


Para ler um resumo fiel de O Hobbit, clique aqui.

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Dedos

Mais de que dedos longos,
Eram longos dedos que me cobriam de arrepio.
A flor da pela, pela pele, como a pele...
Nossos pelos, seus dedos... Mais que cedo.
E tudo agora é vermelho,
E aflora cada vez mais o fim do desejo
Consumido mais que inteiro.
E na mente agora só a lembrança...
Pois no corpo é passageiro.

sábado, 3 de abril de 2010

Cena Forte

Peguei-a de surpresa
Fui logo torcendo seu pescoço...
Ela se debatia.
Ah! Ela se debatia como eu nunca tinha visto antes.
Quase pelada,
Ela gritava como louca,
Gritava como se fosse o último grito de sua existência...
Levei-a para as águas quentes
Já com o tempero Amor.

Ela estava fervendo,
Via aquela pele clara ficando corada,
Aquelas coxonas,
Os peitos fartos...
A cada momento eu me animava mais
Esperava o momento auge.

O ritual foi se desenrolando...
Peguei frutas,
Creme de leite...
Esperei pacientemente o momento certo
E enfim...
Comi a galinha!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Carta de Alexandre Nardoni à Isabella

Querida filha, como você está aí no céu? Digo céu porque ouvi dizer que crianças, mesmo as travessas, têm espaço garantido na morada de Deus por terem o coração puro. Mas estando onde estiver eu espero que esteja bem e tenha entendido o motivo que me fez ceifar sua vida, sua curta vida.
Você sabe que no fundo eu não queria te jogar pela janela, mas você também sabe que foi preciso. Quem mandou você nascer, afinal? Quem pediu pra você passar o fim de semana na minha companhia? Eu nem queria ter o trabalho de te buscar na casa da sua mãe, mas você insistiu em me ver, por quê? Parece que tinha tudo maquinado nessa sua cabeçinha de criança malvada.
Lembre-se que só te joguei do sexto andar do prédio por amor, pois pensava que Ana Carolina tinha te estrangulado e matado, e eu não queria ver a mãe dos meus amados filhos na cadeia. Você bem sabe, minha filha, que eles são tudo o que tenho, por este motivo julgo não ser preciso te pedir perdão, já que eu sei que você preferiria morrer do que ver seus amados irmãos sem a mãe.
O papai foi condenado a ficar preso por mais de trinta anos... muito tempo por ter jogado uma criança insignificante como você pela janela, concorda? Eu sei que você faria o mesmo no meu lugar, pois, como eu disse, a liberdade e a alegria da minha esposa dependiam disso, de acreditarem que alguém entrou em casa e te jogou sem motivos, e sei que o fato de eu ter te jogado no chão e ter te agredido antes de atirar seu corpo indefeso pela janela pode ter te causado alguma dor, mas dor maior sentiriam seus irmãos caçulas por ter que ver a mãe responder a um processo por maus tratos a uma menor, não é mesmo?
Infelizmente de nada adiantou termos fingido aquilo tudo, e de repente não ter te jogado poderia ter sido uma opção melhor para mim e para a Ana, pois disseram que você ainda estava viva, e eu juro que não sabia. Mesmo tendo contratado caros advogados sofistas e peritos vindos de fora, não conseguimos desmentir nossa culpa, que é obvia, mas não podemos contar a ninguém a verdade na esperança de um novo julgamento.
Estou te escrevendo então pra te comover, pois espero ouvir seus pedidos de perdão... você conseguiu o que no fundo sempre quis: ver seu pai afastado dos seus filhos mais queridos e de sua esposa amada, mas eu sei que isso foi sua mãe quem colocou na sua cabeça, e ela que se cuide, pois quando a poeira abaixar ela quem vai experimentar o passeio pela minha janela do sexto andar.
– Maldita camisinha que estourou!
De qualquer forma, recorreremos da sentença... apelaremos para que haja outro júri, e, se por ventura conseguirmos um bom abatimento da pena, já que a absolvição é impossível, eu sei, possa ser que eu venha a lhe perdoar pelo mal que você me fez, afinal sou seu pai e tenho que fazer esse esforço, não é mesmo? Mesmo que você só me tenha causado mal desde que nasceu.
Mais uma vez, espero que estejas bem. Envio essa carta como prova dos meus bons sentimentos para com você... no fim das contas quero provar ao diabo que fui um bom pai, um pai atencioso e afetuoso, na tentativa de conseguir um lugarzinho no fim da fila do purgatório para, quem sabe, me livrar do inferno... Se você conseguiu, talvez eu consiga.

Atenciosamente, Papai.

domingo, 28 de março de 2010

Dourados Vizinhos

          Que o próximo não sinta amor pela gente já era sabido há muito, mas que um ódio e um egoísmo acrescidos pela inveja eram criados contra a gente, como a papa de fubá e ao Cremogema, superaram as previsões dos astros, estrelas e sites especializados.
            Basicamente, a explicação é a falta de educação, uma falha consciente da família em prover o mínimo possível de modos e respeito ao próximo, no entanto parecem ser os maus costumes o exemplo a ser seguido pelos frutos de um relacionamento muitas vezes extraconjugal.
            Se não bastassem falarem, sem motivo, por qualquer motivo que seja às suas costas – nada que me ofenda, já que vermes terrestres não atingem uma águia – os malditos vizinhos colocam lixos gratuitamente na porta das casas dos que querem limpeza; os pais, tios e madrinhas de fogueira incentivam as crianças a cagarem no chão, isso, pelo menos, explica o porquê de meus tênis estarem sempre rodeado de moscas.
            O que seria de nossas vidas sem os vizinhos? Não acordaríamos às seis da manhã dum feriado ouvindo altos níveis de um ruído provocado por um CD pirata com as melhores do forró volume 12.345; não precisaríamos andar olhando para o chão na intenção esperançosa de não pisar no cocô de uma criança de cinco ou sete anos que se limpa com uma edição do ano passado da Tribuna do Norte; não teríamos que ceder um pedaço do nosso terreno, justamente o único pedaço de 70cm x 8m da rua que ainda tem resquícios de natureza incluindo um pezinho de mamão dando frutos, para satisfazer um ego comum a todos.
            Realmente eu não saberia viver sem meus dourados vizinhos – ah, não to sendo irônico chamando-os de dourados pra dizer que nem tudo que reluz é ouro, mas faço uma tentativa de analogia com Marcelo Dourado (BBB), que é um otário preconceituoso e sem argumentos que acha que é o dono da verdade, do saber e do próprio umbigo, mesmo sem ao menos suspeitar, por ignorância ou inocência, que vive numa sociedade que o enche de conceitos errôneos, entre eles o de que falar mais alto é sinal de inteligência.
            Pobres coitados que têm as casas rachadas e um celular com câmera no bolso, rádio da última geração dos anos 1990 enquanto os filhos limpam o cu com jornal, uma moto de 100cc comprada em 72 vezes que não serve pra dar conforto à família de três filhos, sendo o mais novo muito diferente dos demais, num extremo ato de egoísmo contra os seus, e no final do mês comprar fiado na bodega que vende tudo mais caro que o mercado.
            Eu me pergunto se isso tudo é certo. E é! Eu sou errado, eu quero flores na porta da minha casa – pra que flores? –, eu quero que todos tenham água limpa na torneira, eu quero pagar IPTU pra ter o direito de reclamar por falta de serviço prestado, eu quero justiça, eu quero a verdade! Mas pra isso eu tenho que me render, se não poder com eles fuja!, se não tem dinheiro aguenta. E aguentar, caro leitor, eu tenho feito há anos, há seis anos, seis anos sem receber ou dar um bom dia, seis anos sem poder sair de casa sem ser vítima de maus agouros e não chegar em casa do supermercado sem ter que rezar um Pai Nosso pra espantar a inveja, que é grande, ah se é!
O foda é que não tenho nada que valha apena de se invejar, a não ser a felicidade, a esperança, uma cachorra vira-latas que me dá tanto carinho que chego às vezes a querer viver numa terra só de cães – pois acredito que o cão dos infernos é mais simpático que alguns seres humanos –, além da certeza de um futuro melhor que o dos outros, que o deles, um futuro sem fins de semana regados à cachaça e confusão, um futuro sem dúvidas sobre a paternidade do meu filho, um futuro sem ter que aturá-los: Dourados Vizinhos.

terça-feira, 23 de março de 2010

O Show

            Meus olhos quase se perderam na multidão. Era gente pra todo lado, quase fico atordoado com tamanha movimentação. Segurei a mão da última pessoa do trenzinho que furava, não sei como, o mar de gente feito uma flecha, ou um tiro de fuzil. Eu achava que chegaria à saída, mas ao contrário do que eu queria, fui levado a cada passo pra mais longe do meu esperado destino.
            Fui enganado pelos meus amigos. Eles disseram que era um show do Nando Reis. Eu sou fã do Nando desde a época dos Titãs, banda que perdeu um pouco do meu carinho depois da saída do meu ídolo maior, mas até que Paulo Miklos segurou as pontas, pois não gosto – nada contra – da voz dos outros vocalistas.
O show em que eu estava, que por sinal tinha pago quinze reais pra entrar valendo-me do meu direito de estudante, é claro, era do... ou será da? Enfim... era da banda... Calypso (procurei no Google o modo certo de escrever este nome (im)próprio para não me passar por ignorante).
            Os abestalhados dos meus amigos me vendaram, disseram que iriam fazer uma surpresa pela proximidade do meu aniversário... me levariam no camarim do Nando Reis. O pior é que eu estava tão concentrado nos estudos pro ENEM que nem me liguei que o show do Nando iria acontecer mais na frente. Engraçado... quando a gente se concentra muito em alguma coisa acaba ficando meio por fora da vida que acontece aos nossos pés.
            Estava, deduzia, há mais de duas horas vendado, nem tinha noção de quanto tempo havia se passado. A euforia que eu sentia mal me fazia lembrar o ENEM iminente ou mesmo o horário que se passava diante de mim. Me abandonaram, literalmente falando, no meio daquele mar de gente avesso a Avon, Axe ou Rexona. Quero deixar posto aqui que nunca tinha sentido o cheiro de tantos sovacos diferentes, logo eu, que fui todo contente, de preto, com uma camisa do Acústico dos Titãs, crente que iria conhecer Nando Reis. Mal sabia eu que iria conhecer uma colônia do inferno.
            Cansei de procurar pela galera... mas me desesperei. Estava inconformado e perdido, apavorado e chateado, e muitos outros -ados que existem. A mão que peguei, a última do trenzinho, era de uma menina pelo menos isso!  e estava muito suada. Tive que largá-la logo e segurar o pulso. Eu não via seu rosto, apenas uma fita na cabeça que dizia “inha (o nó) Joe”, depois me contaram que era o nome da vendedora de tapioca, que insiste em ser cantora, e do marido dela, um dos músicos da banda, de péssimo gosto, por sinal.
            Como eu já disse, eu estava crente que o trenzinho estava saindo... sei lá, eu fui largado no meio da multidão, não sabia onde era a entrada ou a saída, estava sem minhas noções geográficas. Os integrantes do trem não buscavam a saída, mas queriam chegar mais perto do palco, e eu, infelizmente, percebi isso tarde demais. Quando dei por mim estava há um palmo da cerca de ferro que separa o palco do povão.           
            O som dos gritos, tanto da taquara-rachada que cantava no palco, como das fanáticas enlouquecidas que me cercavam de todos os lados, quase me deixou surdo pena que não deixou! Num vacilo de alguns seguranças, consegui subir na cerca e tentar ficar uns centímetros mais altos pra procurar meus amigos, mas naquele mundo de gente, sem noção de música, diga-se de passagem, não se via ninguém, daí eu pensei que se eles queriam me pregar uma peça, deveriam estar em algum lugar ali rindo da minha cara.
            Deixando de lado o meu orgulho, comecei a pedir ajuda, gritava com os braços erguidos, olhava esperançoso em todas as direções. Quanto mais a histérica “cantava”, mais eu agitava os braços, clamando por socorro. Foi nesse curto espaço de tempo que senti alguém me agarrando com uma bruta força que me tirou da cerca, vi que era um segurança uns dois metros de altura por um de largura imaginei que seria expulso do show, mas, para aumento da minha tristeza, não foi isso que aconteceu. Parece que a galega gritante escolhera um fã para cantar uma música consigo, adivinha quem ela escolheu no meio da multidão, adivinha!
            Me empurraram com muita força no palco de onde eu via uma multidão histérica gritando algo ininteligível aos meus ouvidos acostumados apenas com a língua portuguesa e um pouco de inglês. A louca desafinante cantava uma música, que pelo que entendi, contava a história de uma cavalo manco, talvez inspirado em alguma montaria de um ex-freguês. Sem eu menos esperar, o microfone estava seguindo em direção à minha boca. Foi mais ou menos nesse momento que avistei meus “queridos” amigos rindo às gargalhadas trepados numa torre de som. Filhos da puta!, pensava em voz alta, quando sair daqui vou dar uma surra em cada um deles que eles nunca mais vão esquecer enquanto estiverem vivos e conscientes.  
            Chegou minha vez de cantar. A Xuxa dos anos trinta – nenhuma menção ao glamour dessa época, mas é a década que provavelmente a doida nasceu – me abraçava com aquele corpo suado e fedorento e encostou aquele microfone babado na minha boca. Não tive tempo de pensar no que dizer, olhei pros boys em cima da torre e disse o que pensava e está transcrito no parágrafo acima, mas não custa repetir.  – Vocês tão fudido na minha mão, seus galados, filhos de ra... – não pude terminar a frase. A animadora de multidões me empurrou para o lado e continuou o pedaço da música que eu tinha que cantar enquanto me encarava de canto de olho com o olhar mais feio do que o da mãe que olha para o assassino que seu filho de sete anos e meio de idade.
            Seguranças do palco me tiraram, lógico, à força, chega machucaram minhas costelas, mas até que poderia ser pior no fim das contas. Os fãs dos sem-cultura me vaiavam enquanto isso.  Eu, nessa hora, já tinha esquecido por um instante da raiva que sentia dos meus amigos e da situação e comecei a me preocupar com minha integridade física. Eu poderia ser morto apenas por um murro de um dos quatro seguranças que me cercavam e diziam:
            – Tá tirando onda com nossa cara?
            – Não, senhor! – eu disse tremendo. – Só estou rezando para que não me machuquem muito.
            – E por que faríamos isso? – um deles perguntou com uma cara que julguei sínica.
            – Porque eu acanalhei o show dos seus patrões, e...
            Fui interrompido pelas gargalhadas.
            – A gente não iria te machucar... a gente odeia o Calypso também, a gente nem trabalha pra eles... a gente presta serviço para casa. Como você, a gente curte mais um rock (deve ter deduzido pela camisa, as pulseiras, e os outros mais detalhes característicos dos roqueiros), e estamos ansiosos pra semana que vem que é o show do Nando Reis.
            – Não acredito, é semana que vem? Os filhas-das-putas dos meus amigos me largaram aqui dizendo que era o show dele...
            – Faz o seguinte... me procure semana que vem aqui que eu te boto no camarim do Nando.
            – Não acredito... tá falando sério?
            – Claro, aparece aí.
            E assim o fiz.


            Moral da história: até um show do Calypso pode ser bom quando a gente sabe fazer amizade e vestir a camisa certa.