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domingo, 26 de setembro de 2010

A felicidade é uma mentira?

Estamos sempre em busca da felicidade, mas a felicidade se esconde aonde? Na família, nos braços de alguém, no emprego? Não sei, de fato. Dizem que a vida foi feita para se viver, mas como viver esta vida que é cercada por vidas e vindas que trazem mudanças. – Não estou falando de reencarnação, nem acredito nisso... mas das vidas das outras pessoas que nos cercam, pois são, na realidade, as que realmente contribuem para o nosso crescimento, para nossa evolução.
Uma conversa... numa conversa a gente não entende o outro, mas se entende, claro. Precisamos do outro para nos completar. – Não estou tratando de teorias sobre o sujeito, o que não quer dizer que me interesso por isso... mas tento entender mais do que acontece na superfície das coisas. Ora, somos motivados por fatores diversos, muita coisa influencia na nossa vida, nas nossas escolhas, sobretudo, e tais escolhas, claro, as escolhas que temos, nós mesmos, e não é redundâncias, são responsáveis, logo, pelo rumo da nossa vidas e das várias vidas que nos cerca e contribuem, novamente, para nossa real postura, para nossa real (trans)formação.
A felicidade é conceito inventado? Não sei, mas ela existe! Eu busco a felicidade. Nós buscamos, claro, a felicidade, seja no trabalho, na família, em Deus... – Não estou falando de religião, até me interesso cada vez mais por isso, mas não é hora de falar de fé, que não é, claro, religião. Confuso? A felicidade, assim como a vida, como a sociedade, é confusa. Minha felicidade, assim como meu nariz, é diferente da felicidade do outro. Senso comum? Talvez, mas se fosse tão comum assim não seria preciso ir à busca de respostas para tudo, para a vida, para o conceito de felicidade, o conceito de família, o conceito de trabalho, o conceito de Deus.
Ando pelas ruas, vejo gente e penso: será que eles são felizes assim: tomando cachaça o dia inteiro, litros e litros vazios embaixo das mesas, assim como as geladeiras e as contas bancárias, se houver? Sim, eles são felizes. Eles têm a felicidade deles, diferente da minha, diferente da felicidade do outro. Mas a minha felicidade eu não sei qual é, pois ainda a busco. Só sei que não está no fundo de um copo vazio de cachaça. Só sei que não está em ter a conta bancária cheia, pois, ao contrário do fundo vazio de um copo de cachaça, nunca vi minha conta bancária cheia. Como sei disso? Não sei.

domingo, 19 de setembro de 2010

Pedro e a poça d'água

Estava cansado e com sono, caminhando numa rua deserta, quando, de repente, um carro passou numa poça e jorrou água suja em Pedro, que despertou definitivamente. Ele geralmente não prestava muita atenção em coisas como uma poça no chão, afinal, a rua era deserta e nunca passava carro lá. Assim que deu conta de que todo o uniforme estava molhado, Pedro resolveu voltar para casa e mudar de roupa para não ir todo imundo para a escola. Por sorte, ele estava ainda acerca de um quarteirão de casa.
O garoto molhado estava decidido a tomar banho, mas estava muito frio para isso, então ele resolveu apenas trocar de roupa... Então secou o rosto e os baços, trocou de camisa e seguiu para a escola, já que estava indo mal em matemática, disciplina do primeiro tempo, e não podia perder uma aula a mais... sua mãe o mataria se ficasse em recuperação de novo.
Três dias depois, assim que saiu do banho matinal antes da escola, Pedro olhou no espelho e percebeu que estava com manchas vermelhas nos braços e no rosto, justamente onde a água jogada pelo carro tinha batido. Ele mostrou à sua mãe e lhe contou toda a história. Foi ao médico imediatamente. Ana, mãe de Pedro, parecia levemente feliz com aquilo, pois havia acabado de fazer um plano de saúde para a família e estava doida para estrear os serviços caríssimos que vinha pagando.
Após a consulta, o médico disse que não tinha sido nada grave, apenas uma micose... Pedro só precisaria usar uma pomada e não coçar, principalmente não coçar. E era justamente o que Pedro vinha fazendo no caminho de casa até o consultório do dermatologista... Na verdade, desde a noite, anterior ele vinha coçando o corpo, principalmente os braços e o rosto.
De lá, eles seguiram imediatamente à farmácia de manipulação para encomendar a pomada – como Ana não tinha entendido a letra do médico, só fez entregar a receita ao farmacêutico. Mesmo doente, Pedro ficou feliz, pois não precisaria ir à aula naquela quinta-feira, mas seu corpo não parava de coçar e coçar... A pomada incomodava, ardia... E a vontade de coçar só fazia aumentar. Aquela pomada deveria aliviar a irritação, mas não estava adiantando de nada, muito pelo contrário. Pedro já estava ficando com raiva daquele incomodo todo.
A irritação era tão grande que ele acabou tirando a pomada, e continuou a coçar. Ele passou gelo, o que não adiantou; fez umas receitas caseiras que pegou na Internet, mas nada resolvia, absolutamente nada. E um dia depois de ter ido ao dermatologista, Pedro voltava ao consultório com a mãe. Agora, até mesmo os seus olhos estavam vermelhos: não tinha pregado os olhos durante a noite.
Ao ver o estado do rosto e dos braços do rapaz, o dermatologista ficou assombrado, perguntou o que mãe e filho fizeram de errado, afinal, passar pomada e ficar sem coçar não é uma coisa muito complicada para uma mãe e um menino de treze anos fazerem. Mas era o que parecia.
O médico conferiu a pomada que havia prescrito, mas a receita estava correta. Então ele pediu para conferir a pomada comprada, e para sua surpresa era a pomada errada. Pedro vinha usando uma pomada para outra enfermidade que, ao entrar em contato com a micose, causou esse efeito colateral.
– Eu falei pra você conferir o nome do remédio, menino...
– Mãe, o cara da farmácia me deu esse e mandou conferir com a cópia da receita, pois a que a gente deixou lá tava no arquivo ou foi pro Ministério da Saúde, sei lá...
– E você não conferiu por quê?
– Porque esqueci a receita...
– Bem feito... isso é pra você aprender a lembrar das coisas.

Para a sorte do garoto, o médico dermatologista deu um jeito. Ele mesmo aplicou uma pomada que imediatamente aliviou a irritação e a coceira. Com três dias, Pedro já havia notado a diferença e não passara a noite querendo arrancar a pele do braço e do rosto. Quem não gostou nada da história foi a irmão de Pedro, Cíntia, que estava escrevendo um conto sobre mutação... era a história de um menino que se expôs a determinado produto e ganhou o poder de camaleão... mas não era um herói esse protagonista, era o vilão da destruição da paz do mundo.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Se

Será que a falta de brevidade é pertinente a todo o momento?
Não sei...
Se soubesse de tudo,
Se não sofresse por tudo
Talvez o mundo deixasse de ser presente sempre.
E se a presença do sol fosse boa?
E se a vontade de ser livre passasse?...
Se
Somente se
Se o se não fosse assim: se.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Glaydson, O Vampiro Natalense

Gêneses

      Era sábado, três da manhã. Glaydson saía da boate com seus amigos, mas estava tão bêbado que, como todo bêbado, não raciocinava bem e não tinha noção da realidade e das convenções do mundo... Foi atraído por um grupo de rapazes e moças que tinha saído mais ou menos no mesmo tempo que seu grupinho. Despediu-se de qualquer jeito dos amigos e foi tentar a sorte. Daí não se lembrava de mais nada. Acordou três dias depois, mas não estava mais vivo, muito menos morto. Tornara-se um ser sedento por sangue e diversão, mas ele ainda não sabia desse fato.
      Por sorte, era noite quando ele despertou. Estava numa casa velha de um sítio próximo à BR-101. Ao que tudo indicava, o local era desabitado há muitos e muitos anos... não só a casa, mas toda a propriedade. No instante em que abriu os olhos, percebeu que não se lembrava de nada, nem do seu nome, nem o que fazia ali, mas saiu... saiu sem rumo ou destino esperando resolver ou sanar seu problema interior – não se engane, leitor, não é uma metáfora... seu corpo pedia e se contorcia por algo que até então Glaydson não sabia o que era –. Talvez por isso ele tenha corrido, corrido tanto que nem conseguia ver o caminho por onde ia passando, só queria saber de correr e correr. Não se preocupava com nomes, números, endereços... queria apenas matar a sede. Mas sede de quê?
      Sangue. De algum lugar desconhecido emanava o aroma que fazia todo o seu corpo entrar em um grande espasmo. Sem mesmo pensar no que estava fazendo, Glaydson correu na direção contrária ao vento que trazia o cheiro mais gostoso que ele se lembrava até então. Engraçado... Ele há pouco tempo não saberia reconhecer o cheiro de sangue, mas aquele aroma... aquela doce fragrância lhe fazia lembrar das vezes em que tinha se machucado ou ido fazer exames sanguíneos.
      O sangue era de um mendigo que tinha se cortado fazendo a barba – péssima hora para fazer a barba, não concordam? Glaydson estava em algum lugar imundo do Satélite, onde fez sua primeira vítima... mas não! O mendigo não se tornaria um vampiro, Glaydson nem sabia como fazer uma presa virar um semi-morto... ele sugara todo o seu sangue não deixando nem uma gota... não transferiu para ele nem uma gota do seu sangue contaminado com um vírus que supera qualquer Aids, um vírus capaz de aprisionar a alma de qualquer infeliz.
      Ainda sedento, mas se sentindo bem mais vivo e lúcido – isso inclui lembrar de quando era vivo, o nome e algumas poucas outras coisas – devido aos quatro litros e meio de sangue que tinha tomado, perambulou mais um pouco durante aquela noite. Caminhava normalmente, na velocidade de um ser humano – o que já não era – e pensava e refletia sobre sua condição. – É claro! Sou um vampiro... Agora me lembro! Estava bêbado, mas me lembro... participava de uma orgia com os turistas – lembrou-se da dor de ter o pescoço mordido... ainda estava ferido. Percebeu que logo deveria encontrar um lugar para passar o dia, já que, certamente, pensava, não brilharia ao sol... e se brilhasse não era tentando que queria descobrir. – É melhor evitar entrar em combustão instantaneamente!
      Decidiu invadir o Macro e procurar uma caixa, um depósito, um porão onde pudesse se esconder do sol. Não estava cansado, mas sabia que precisava dormir. Entrou num almoxarifado com aspecto de não utilizado durante meses. Sentia, por incrível que pareça, que o sol estava despontando do oceano para dar vida e luz aos seres humanos, antes seus irmão, hoje suas presas. Enquanto o sono não batia, olhava em seu celular quase descarregado notícias, artigos e escritos que falavam sobre vampiro para tentar entender o que havia de fato acontecido consigo. O telefone descarregou por volta das nove dando-lhe mais um motivo para dormir, além de um leve sono que dava sinais de presença. A noite seria um novo dia para o Glaydson, O Vampiro Natalense.

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