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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Urubu ou Colibri

Os dias passam e eu NÃO AGÜENTO MAIS! Se eu pudesse, se o dinheiro desse eu sairia, respirava, gastava meu tempo com o que eu gosto. Mas a grana tá curta, minha bolsa só vive vazia. O pior é que vai esfriando aquela vontade de aprender, vai desaparecendo o brilho, o encanto, vai sumindo tudo de bom a cada grito. O que era paixão está se tornando obrigação, será que vale a pena? Será que vale a pena a gente se doar, viajar sem querer, cada vez pra um lugar mais quente, um lugar que te queima a vista, mas não aquece os braços.
Minha história não é como a de muitos miseráveis, reconheço, mas está longe de ser um conto de fadas, está longe de ser como eu queria. O mal do ser humano é reclamar de barriga cheia, eu sei, é bem verdade que consigo, aos poucos, tudo aquilo que desejo, mas será que vale a pena, será que é justo trocar o dia único de lazer e de planejamento, de construção do alicerce da futura casa, da futura porta de padaria onde se ganha o pão, por um simples trocado, que nem se quer vejo a cor?
Peço a cada dia, por favor! Deus sabe o que faz. Não reclamo sempre assim, veja bem, mas há dias que a surra é grande, é assim que deve se sentir um cachorro que, ao se encontrar grudado nos quartos da amada, é surpreendido por um balde de gelo sendo derretido. Esse cachorro não larga o muro, não sai de perto do portão, quando um vizinho joga-lhe um osso com fiapos de carne seu dono quase o mata a gritos dizendo que a obrigação do cachorro é vigiar incansavelmente o muro. O cachorro nunca é reconhecido, o cachorro nunca é tratado como um amigo, mas sim como um animal.
As semanas se passam, o ano se passa. Se o ano novo já tivesse chegado antes seria mais fácil, mas não... O ano só começa depois do carnaval, as lojas só contratam depois do carnaval, as aulas só começam depois do carnaval... depois do carnaval. Depois do carnaval! Depois do carnaval acabam-se as férias, acaba-se o descanso, começam as mesmas putarias, as mesmas humilhações. Mas fazer o que se preciso de uns trocados, fazer o que se preciso ser montado. Só me resta pedir a Deus que me deixe comer o osso do vizinho, o osso do superior, colonizador. O osso que é mais gostoso, o osso que não tem só fiapos, mas um tutano que deixa forte, um tutano que dá força para os trabalhos futuros. Mas a dúvida bate cada vez mais à porta: vale mais um urubu moribundo na mão, ou dois magistrais colibris voando, dando o ar da vida, da graça, do glamour?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Visão da Criança – Bicho Papão

Às vezes, eu me esforço, mas não me lembro dos meus tempos entre bebê e criança. Não sei. Tenho na memória alguns pequenos flashes das coisas que eu pensava e fazia. Na verdade, não sei ao certo se realmente o que guardo e trago comigo são fatos ou invenções de uma mente infantil.
Nesses dias, eu reparei que o filho de uma vizinha, de um aninho de idade mais ou menos, fazia um auê quando me via. Ele procurava o acalanto do colo de alguém conhecido enquanto apontava pra mim com o dedo, geralmente sujo dessas coisas que saem do nariz quanto a gente fica gripado, e me fulminando com o olhar de pavor ao mesmo tempo em que dizia: – O homi, o homi.... o homi...
Cara, não é pela barba que uso, mas ele realmente tem medo de mim. Nunca fiz mal a ele, uma criança indefesa, que tem como escudo aquele quase indescritível olhar...
No início eu não dei importância à atitude, para a hostilização que sofria daquele menino, até o dia que minha esposa percebeu a cisma que o menino tinha de minha pessoa. Ela, como tinha mais intimidade, por ser parente inclusive, resolveu averiguar o motivo daquele medo, o motivo da angustia que o menino demonstrava toda vez que me via.
Um dia, quando estava saindo pra trabalhar, vi o menino todo cagado, a merda que escorria por suas pernas tinha a cor semelhante a vitamina de abacate feita no dia anterior, sua tia se preparava para dar-lhe um banho no quintal. Quando esse menino me viu, correu pra dentro da casa da avó e gritou com o tom de pavor e o dedo causador em minha direção, ele dizia: – O homi, o homi... o homi.. Seria engraçado se não fosse tão nojento. Dava pra ver as pegadas com bordas de diarreia demarcando a trajetória dos passos do moleque na cozinha de chão vermelhão da casa da sua avó materna.
Dias mais tarde, ao chegar em casa a noite, cansado, minha esposa me diz da onde veio a nóia que o menino entrava sempre ao me ver. Parece que a criança, protagonista desta narração, não queria comer, então sua mãe disse: – Coma, mininu, si nãum chamu o bicho papão. Nessa hora, eu ia dobrando a esquina, voltando do trabalho.
Então entendi o porquê do menino ter medo de mim até hoje, só não entendi ainda por que ele me chama de “homi” e não de bicho papão.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Camisa Suja

Vera se assustou quando eu entrei em casa com a camisa suja de sangue e do lado do avesso. Ela era espantada com tudo, visse?

...

– Clemeeente! Clemente! Clemente, o que é isso aí na sua camisa? – meio louca e histérica, ela me perguntou.
– É apenas uma camisa do lado do avesso e suja de sangue – sinceramente eu respondi.
– Mulestia! Eu sei o que é isso! Quero saber por que sua camisa está assim, desse jeito, parece que saiu do cu de uma vaca com diarréia que comeu beterraba até dizer chega.
– Que isso, mulher? – disse querendo parecer santo e desconversando. – Não precisa ser assim tão cheia de imundices... eu já te conto tudo o que aconteceu, mas primeiro me deixe tomar um banho, ta meu bem?
– Cê num vai mover um centímetro até me contar o que está acontecendo. Você andou deflorando um batalhão de meninas fedorentas, num foi isso?
– Que história, Vera? Largue desse seu jeito de dedutora, parece até a vizinha da rua de baixo.
­– Conta agora... anda! Você não bebeu! Aconteceu alguma coisa então...
– Ta bom... Ta bom... Vou contar. Foi o Seguinte...

– Eu vinha caminhando em direção ao ponto de ônibus, certo? Estavam comigo o Carlos Alberto, o Matias e o Julião, filho de Inês da Padaria. O ônibus demorou muito. Eu queria fazer uma surpresa pra você chegando mais cedo, já que a gente foi dispensado logo depois do almoço. A gente desconfia que o chefe tava querendo comer a Dona Magali, sua secretária, mas ele disse a gente que ia fazer uma dedetização, poderíamos ir e só voltar dali a três dias.
No ponto de ônibus, Matias deu a idéia de irmos de taxi, cada um pagaria no fim das contas quase a mesma coisa da passagem. Então chamamos um taxi. Cinco minutos após termos ligado, otáxi chegou. Carlos Alberto, como você mesma sabe, é muito metido a gente importante, de classe social alta... enfim, acabou indo na frete... ele achava que rico andava na frente no taxi. Atrás fomos eu, Matias e Julião. Tudo estava tranqüilo, a gente tava ouvindo a rádio que toca só aquelas músicas antigas, aquelas do tempo em que a gente nem pensava em sacanagem quando namorava, lembra?
Mais ou menos uns quinhentos metros depois do sinal da Avenida da Pastelaria São Severino das Orquídeas Verdes, vimos uma briga de mulheres. Elas puxavam os cabelos uma da outra, as duas tavam com as camisas rasgadas. Não havia ninguém por perto. Conclusão: paramos o carro, pois Julião queria que a gente apartasse a briga ou logo as duas acabariam ficando nuas. O motorista do taxi e Matias bem que queriam ver elas peladas, mas elas nem eram tão bonitas assim, na verdade uma era magra feito a Olívia Palito e outra era mais gorda que a sua mãe...
– Ta, mas e aí, o que aconteceu? Vocês apartaram a briga? – Vera era meio fofoqueira, na verdade se dizia interessada em assuntos novos, dizia que era bom a gente saber das coisas que aconteciam no mundo, mas principalmente, na rua aonde a gente mora. Ah! Essa é minha Verinha. Por um instante achei que ela tinha esquecido da camisa pelo avesso e suja de sangue, mas ela logo continuou... – Me diga logo como sua camisa foi ficar nesse estado, cuida que tenho mais o que fazer!

– As mulheres estavam no auge da briga, quando percebemos qual foi o motivo: elas estavam lutando por causa de uma galinha... É uma simples galinha de terreiro. Uma dizia: –“É minha... eu a crio desde que era um pinto...” – “Vá se fuder!” dizia a outra. O motorista do táxi teve uma idéia que não socializou com a gente, ele pegou a galinha e disse: –“Acabou a briga. A galinha agora é minha". E  seguiu em direção ao táxi com a galinha por debaixo dos braços.
– E as mulheres? O que elas fizeram? – perguntou-me Vera, mais curiosa do que eu quando fomos saber se nosso filho era homi ou mulher.
– Escuta a resenha! Elas se uniram e correram atrás da gente. A gente nem tinha culpa, mas as loucas vieram com cabos de vassouras e deram pra valer na gente.
– E vocês? Fizeram o que? Nada, né? Um bando de frouxo! – o pior que ela tinha razão quando dizia isso.
– Nada mulher! O taxista não queria entregar a galinha, e como a gente já tava puto pelas porradas levadas à toa, entramos de vez na briga... Ficamos jogando a galinha de um para o outro, e quando, acho que pela quinta ou sexta vez que eu segurava a galinha, as mulheres, que pareciam dois mil demônios ao pé da cruz, voaram pra cima de mim! A magrinha me bateu com um pedaço de cama, acho que um pé de cama, daquelas madeiras boas, como vende o João dos Móveis. Caí no chão sem saber se continuava dando gargalhadas ou partiria para a agressividade. Tentei passar a galinha para o Matias, mas não deu tempo, a gorda pulou em cima de mim esmagando contra meu peito a galinha...
– Vixe! As mulheres devem ter ficado doidas, né? – Ela fazia um movimento de sobe e desce com a mão, tipo o Chaves, enquanto dizia isso, isso, isso...
– E como! ­– eu arregalava os olhos pra dar mais emoção. – Mas no final a gente fez uma vaquinha e deu um dinheiro praquelas duas selvagens, que ficaram até felizes. Lembro que a mais gorda disse –“Vamu comprá galinha na fêra, é mais baratu”. Acabamos por não pagar a corrida de táxi, já que o motorista, que aceitou nossos argumentos, era quem tinha nos envolvido naquele barraco.
­– Ta certo, Clemente. Agora vá tomar um baínho. E se esfregue bem, viu?
­– Ta certo, meu bem.
–Sim! E por que a camisa está do lado errado? Você não disse essa parte da história.
–Depois eu falo, amor. Não estou agüentando o cheiro de galinha jazida.

...

Passei duas horas no banho pra Vera esquecer esse negócio de camisa do avesso. Quando saí, ela nem perguntou.

Minha Pobre Vira-latas

Minha mãe nunca deixava minha cachorrinha Vira-latas entrar em casa. Ela dizia que não era lugar pra cão.
Mas hoje me veio uma certeza, ou melhor, uma dúvida...

Minha tia tem uma cachorra poodle e um Pit Bull. Sempre que ela ia lá em casa levava a cachorra poodle. Minha mãe dava água e ainda limpava o cocô da cadela da minha tia sem reclamar.
Certa vez, minha tia levou também o Pit Bull, e, novamente, minha mãe o tratou como se trata um filho, não minto, minha mãe tratou melhor ao cachorro do que a mim.
Fico me perguntando: - Será que minha finada cadela era humilhada por ser Vira-latas, ou minha mãe trata melhor os cachorros de raça? Acho que é em consideração a minha tia, irmã dela.
Mas sinto falta da minha Vira-latinhas. Preferiria que a cachorra da minha tia tivesse e morrido não minha melhor e única amiga.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O galinho que queria ser um cão

Dona Lúcia morava num sítio, no interior da Paraíba, mas teve que se mudar para um apartamento em João Pessoa, pois estava doente e precisava se tratar na capital, e, como vivia sozinha na pequena fazendinha, achou melhor fazer sua mudança de vez pra casa de seu filho.
Dona Lúcia criava muitos bichos. Tinha criação de porco, cabrito, galinha... E pelo apreço aos animais sentiu-se triste por ter vendê-los.
Para se lembrar dos tempos de fazenda, Dona Lúcia levou consigo um pintinho, ela pensou que um animal tão pequeno não iria causar incomodo. Na casa do filho já havia um casal de poodles, e quando o pinto cresceu e se tornou um belo galinho brincavam os três sem problema ou complicação.
Infelizmente Rodolfo, o cãozinho mancho, foi atropelado por um Fusca cor de abóbora desgovernado, que não viu o animalzinho matando-o de uma das formas mais sangrentas que um Fusca pode matar um poodle. A companheira do finado cãozinho, Maria Antônia, ficou muito triste, e estava já entrando num estágio avançado de depressão.
O majestoso frango, vendo e convivendo com aquilo tudo, começou a agir como um cachorro. Ele brincava com a bolinha de Rodolfo, se fingia de morto, dava a patinha, enfim... Tudo o que o animalzinho fazia em vida o galinho aprendeu rápido a fazer.
O novo comportamento do galinho, inicialmente, não foi saudável apenas para a cadela Maria, mas aquilo fez um bem à família inteira, já que era um jeito, muito bem humorado e inocente de se lembrar com alegria de Rodolfo.
O coração canino de Maria Antônia foi conquistado por inteiro pelo galinho quando ele aprendeu a latir. Agora, passado seis meses da triste morte do ex-companheiro de Maria, o galinho se tornava o cão mais feliz do mundo, pois se unia em matrimônio com a cadela viúva.
Tirando o fato de não poderem ter filhotes, o casamento entre o galinho e a cadelinha foi, e ainda é, o casamento mais bem sucedido do reino animal. Eles convivem em harmonia, sem qualquer tipo de briga ou discussão. O único momento que Maria reclama é quando seu marido quer lhe beijar a barriga.

Pedrinho e a amiga Felina

As cortinas que tapavam as janelas cobriam a luz do sol impedindo-a de entrar no meu úmido quarto. Eu morava na casa da minha avó, morava não... sei lá? Eu passava as férias na casa da minha avó, que tinha ficado viúva há três meses apenas. Minha mãe disse pra eu fazer companhia a ela, pois vovó se sentia muito sozinha.
Todo os dias, eu tinha que acordar às seis e meia, era muito difícil, pois além de eu não estar acostumado, as cortinas que tapavam as janelas cobriam a luz do sol. Parece tolice, você está se perguntando: – “por que esse moleque narrador não abria a cortinha que tapava a janela que cobria a luz do sol?” É muito simples. EU NÃO DORMIA SOZINHO! Eu tinha que dividir o quarto, e, por pouco, a cama, com minha avó. Não teria problema já que avó é nossa segunda mãe, mas a minha tinha problemas com gases... É... ela peidava muito a noite toda. Tadinha da véia!
Era até legal ficar na fazenda de vovó, fazenda não, tô sendo muito generoso, sítio... chácara... É alguma coisa entre sítio e chácara, ou chácara e sítio... entende? Eu brincava com as galinhas, marrecos... eu só não gostava muito de brincar com os gansos, eles eram bem agressivos, mais brabos que os cachorrões que minha avó criava dizendo ser pra proteger seus outros animais do chupa-cabras. Eu nem sabia o era chupa-cabras, não era do meu tempo, só depois procurei na internet, achei tolice da minha avó... onde já se viu? A véia com medo de chupa-cabras!?
Lembro que brincava sozinho, não tinha ninguém lá da minha idade, a ao ser por Felina, a filha do caseiro que era paraplégica. Ela vivia na cadeira de rodas, não dava pra passear pela grama, pois o veículo engasgava sempre numas poças. Na verdade, eu só fui saber da existência de Felina pouco menos de uma semana pras minhas férias acabarem. O pouco que conversei com Felina me fez crescer de alguma maneira. Poxa! Eu fiquei um mês quase inteiro na casa de vovó e não brinquei com Felina, mas não foi minha escolha, não foi. Só a descobri cerca de três dias antes de eu ir embora. Mas, no pouco que conversamos, nos tornamos amigos.
Minha avó mandou o computador pra casa do caseiro, ela não sabia mesmo mexer “na invenção dos homens loucos que não tinham mais o que inventar”. Felina e eu conversávamos a tarde quase que inteira, mas não era muito papo como parece. Ela não estava acostumada a digitar, mas eu tinha paciência.
Começava a estudar cidadania na escola, a professora Aline disse pra gente fazer a caridade de conversar com um aleijado às vezes, eles não eram pessoas normais, por isso a gente tinha o dever de agradá-los, assim, quem sabe, Deus também se agradaria de nós. Eu não gostava da aula de cidadania, a professora fazia os deficientes físicos parecerem gente de outro mundo, talvez do mesmo lugar de onde vem chupa-cabras.
Eu não tinha intenção de agradar nenhum deus quando falava com Felina, apenas de me agradar... se eu não me sentisse bem nas nossas conversas, eu jamais conversaria com ela. Ah! Eu não teria pena de dizer que ela é sem assunto só porque não pode andar...

Anos depois


Felina completava dezessete anos de idade, eu já tinha feito quinze no mês anterior. Comprei um novo computador para Felina, sua família não tinha condições, o computador que minha avó tinha dado a minha amiga ainda era com o Windows 98. Comprei um notebook pra Felina, ela adorou, começou a chorar me deixando também emocionado e constrangido.
Eu não via muito Felina pessoalmente, a gente só se falava pelo computador, agora, como o novo notebook que dei pra ela – novinho em folha, comprei com meu próprio dinheiro, era superior ao meu, minha mãe inclusive mandou eu dar o meu “velho” e ficar com o novo, mas ao olhar minha cara de carranca ela logo desistiu da idéia, onde já se viu – a gente poderia então se ver pela webcam.
O engraçado foi Paola, minha namorada, ao entrar em meu quarto de mansinho me viu conversando com Felina, deu o maior piti, começou a querer saber quem era a menina que eu conversava e coisa e tal... expliquei que ela era só uma amiga, não disse que ela era paraplégica, não tinha pra quê. O resultado foi que Paola, ainda semi-nua, me pediu para escolher entre continuar a namorar com ela ou manter conversinhas com amiguinhas estranhas no computador. É claro que escolhi Felina. Paola focou irada, pense numa menina puta da vida!

A Menina Que Gostava de Futebol

Era década de 1960, não ficava bem para uma menina brincar de bola, mas Cláudia gostava de futebol, e muito.
Cláudia, que tinha cinco anos na época destes acontecimentos, usava um corte de cabelo curto, estilo Joãozinho, pois sua mãe, além de não ter condições de tratar dos seus cabelos, achava que ter os cabelos curtos ajudava a espantar o calor. Aproveitando-se da situação em que se encontravam os seus cabelos, Cláudia dizia aos meninos da Rua de Trás que seu nome era Cláudio, assim ninguém implicaria com o fato dela ser menina, e a deixaria entrar no time sem problemas.
Cláudia, ou melhor, Cláudio jogava muito bem, inclusive melhor do que Caetano, que até então era considerado o maior jogador de futebol do bairro. Cláudia não tinha medo de bolada, carrinho ou esbarrão, ela jogava feito um menino, era astuta, habilidosa e marrenta, quando necessário. Além de futebol, Cláudia gostava de bola-de-gude, carrinho de rolimã... Seus irmãos a chamavam de Moleque Macho, o que fazia com que ela se enfurecesse e partisse pra cima deles pra agredi-los a socos e pontas-pé.
Cláudia era uma boa menina, mesmo sem muitas vezes ter ao menos um punhado de pão na barriga, ela se esforçava para estudar na maioria das vezes com fome. Certo dia ela sentiu fortes dores no estômago em plena aula de matemática, sua professora, que mesmo parecendo desumana tinha sentimentos, e ao perceber seu rosto pálido e com aparência sofrida, como a de alguém que deixa o cachorro escapar em dias de grande movimento de veículos na rua, decidiu levá-la à diretoria. Chegando à sala da diretora foi constatado que o que ela sentia era fome, pois não comera nada antes de sair de casa. Era normal Cláudia sair sem tomar café da manhã, porém na noite anterior a menina não tinha jantado. A diretora mandou que comprassem um pacote de biscoitos para a pobre menina pobre, o que a deixou inexplicavelmente feliz, porém Cláudia não comeu nem metade do pacote, ela sabia que seus irmão pequenos também estavam sentindo fome em casa, e decidiu levar o que sobrara para os que hoje quase a humilham.
Mas voltando a parte do futebol... Certo dia, os meninos foram procurar por Cláudio em sua casa, ao chamar pelo craque do time, uma de suas irmãs mais velhas disse que lá não morava nenhum Cláudio. Nisso... aparece Cláudia, logo quando ela tinha acabado de pôr o vestido que sua avó, Judite, trouxera. Era um vestidinho florido amarelo que pertencia a uma vizinha sua, que cresceu fazendo com que o vestido encolhesse. O vestido usado, mas conservado, fazia com que Cláudia ficasse tão bonitinha, tão cara de domingo. Os meninos do futebol não acreditaram... como uma garota havia os enganado tanto e, pior, como uma menina jogava tão bem um esporte tão masculino? Eles se decepcionaram consigo mesmos além de se surpreender.
É claro que depois de três ou quatro dias os meninos da Rua de Trás foram chamar Cláudia para jogar bola, no fundo superficial de seus jovens corações conscientes eles perceberam que sem o craque do time, Cláudio, ou melhor, Cláudia, sempre perderiam para o time da Rua Sul, que na verdade ficava três quarteirões ao norte.
Muitos diziam que Cláudia iria virar sapatão, que ela nunca se casaria... só porque ela gostava de brincar as mesmas brincadeiras dos meninos. Anos depois, ela se casou e teve três filhos. Nunca quis saber de mulher.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Criador de Bicho-de-pé

Sérgio, desde pequeno, gostava de percorrer o mato à procura de caju, manga, umbu-cajá, cajá-manga... mas ele sempre sofria com bicho-de-pé.
Sua mãe dizia a todo o momento para ele calçar um sapato ou um tênis, e ele nunca ouvia o que sua doce mãe dizia.
Toda noite, quando Sérgio voltava dos matos, Dona Abigail cutucava os seus pés para tirar os incômodos bichos, mas, conforme Sérgio crescia, Dona Abigail foi deixando que ele se cuidasse sozinho, tinha outras obrigações mais importantes do que tirar bicho-de-pé de um pré-adolescente.
Aos treze anos de idade, Sérgio não mais estudava, não ia mais à escola; ele se mantinha, ou melhor, comprava suas baganas com os trocados que ganhava vendendo as frutas que apanhava nos matos.
Certo dia, um senhor chamado Joaquim lhe pediu que tirasse um bichinho do seu pé e pusesse no dele – o ancião dizia gostar da coceirinha que o bicho-de-pé causa – o menino Sérgio, muito esperto e matreiro, disse que vendia por cinqüenta centavos e o velho sorridente aceitou o preço e pediu ao menino que toda semana viesse deixar um bichinho pra ele. E assim foi.
O velhinho contou a boa nova a todos os seus amigos, familiares e conhecidos; seu Joaquim era muito conhecido na comunidade. Quando Sérgio, após uma ou duas semanas, foi levar mais um bichinho, se surpreendeu com tamanha fila que se formara na frente da casa do ancião, mais surpreso ainda ficou quando descobriu que todos ali queriam bicho-de-pé.
Sérgio entregou o primeiro a seu Joaquim e contou quantos mais ele tinha, e, ao ver que tinha pouco para tanta gente, o jovem rapaz decidiu fazer uma espécie de leilão com lance inicial de um real.
O menino naquele dia apurou mais de trinta reais só com meia dúzia de bichinhos, decidiu, então, só trabalhar com isso, e comia ou dava as frutas que ele apanhava de graça no mato. Assim, Sérgio continuou a caminhar querendo cada vez mais bicho-de-pé, tinha fé no seu negócio; chamou os amigos, ofereceu parceria.
O Criador de Bicho-de-pé, como ficou conhecido Sérgio, cresceu e fez fortuna, e sua mãe reconheceu seu peculiar talento. Ele tinha inúmeras fábricas – se é assim que podemos chamar – e foi quem ajudou o Brasil a crescer e se tornar potência mundial. Sérgio pateteou a idéia, o mundo todo comprava bicho nele; dizem que os chineses descobriram, no bicho-de-pé, o ingrediente que faltava na sopa maravilhosa que eles esperaram vidas para preparar e saborear.
O Criador de Bicho-de-pé não mais precisava guardar em seu pé a mercadoria pela qual fez dinheiro, pois, ao contrário da população mundial, Sérgio não gostava de bichos incômodos, ele gostava era das frutas, das mangas, das goiabas, serigüelas...


quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Lição

“– Tinha acordado naquela manhã quente e de chuva forte. Não sabia se continuava sonhando ou se já tinha realmente acordado. Ao meu lado estava ela, nada mais além dela. Não sabia o que fazer. Decidi então preparar o café e levá-lo pra cama.
Chamei, chamei, e ela nem se mexia. Pensei no pior. – Será que ela não agüentou meu bafo e morreu? Ou foi a pressão, na parte sexo animal da palavra, que a fez desistir da vida?
Pro meu celestial alívio ela acordou e me deu um beijo bem forte e gostoso, levando em conta a não escovação dental. E me perguntou sorridente e surpreendida. – É pra mim esta bandeja de café maravilhosa? Respondi que sim. Ora essa! Quem mais estava ali a não ser ela? Se fosse pra mim não levaria pro quarto, comia na cozinha mesmo.
Após o café tomamos um longo e relaxante banho, banho daqueles que só os preguiçosos e vagabundos tem direito logo numa manha de terça-feira. Mas eu juro que não sou preguiçoso ou vagabundo, pode ver que estou aqui trabalhando, ou melhor, estou aqui no meu local de trabalho.”

Disse Fernando ontem pra quem quisesse ouvir e escutar. Ele é daqueles tipos amostrados, dos quais todo mundo detesta, porém atura pra poder, quem sabe, tirar algum proveito do dinheiro que ele tem. Mal sabe ele que a mulher que ele dormiu achando que era moça de família é uma golpista. Conheço, pois já tive, e de certa forma tenho, um caso com aquela beleza. Ela é realmente uma monstra na cama, não se contenta com pouco não. Tem que ter de tudo!

2 meses depois...

– Pó, meu amigo, aquela mulher me estourou meus cartões de credito, me fez passar quase todos os meus bens pro seu nome, e eu nem percebi. – Veio o mala me dizendo.
– Entendo, meu amigo, tentei te avisar, mas você não iria acreditar em mim. Aquela mulher é assim mesmo, mas também com aquelas coxas, bunda, seios...
– Como é que você sabe que ela tem tudo isso de bom? – Ele desconfiado e surpreendido perguntou.
– Todos aqui da repartição sabem, ela era secretária do nosso antigo chefe e saiu pouco antes de você chegar. Todos já tiveram alguma relação com ela, falo de relação sexual. Peraí, vou ser mais claro. Ela já deu pra todo mundo daqui!
– E ninguém me disse nada?! – Indagou coçando a cabeça.
– Você vivia se gabando de sua noiva, de como ela era linda, e tudo mais...
– Realmente. Isso vai me servir de lição. E eu achando que ela era virgem.
– Mas ela é, nasceu em setembro!
– Que engraçado.
– Engraçado é o porteiro lá de baixo que não tinha nada, nem se quer dentes, sair num carro importado.
– Que carro?
– Uma Mercedes azul, não sei o ano ou mais detalhes. Não entendo de carro entende?
– Ah filha da puta! Me trocou por um desdentado.
– Mas ele tem a fama de que tem 36cm, e não to falando da altura.
...

Verdades sobre Branca de Neve: o que os Irmãos Grimm “esqueceram” de contar

            Muita gente não sabe, mas, antes de ser enfeitiçada e do Príncipe aparecer, Branca de Neve sentiu-se atraída por três dos anões, porém a jovem princesa sabia que tinha se apaixonado apenas por um, mas não tinha certeza de qual era, não sabia ao certo quem era o dono do seu coração.        
            Mestre era um dos que conquistaram o coração de Branca, ele era quem mandava no pedaço, sabe? Branca de Neve gostava de gente assim, de pulso firme. Mestre era um líder nato, além de ser o maior anão da casa.
            Outro dos três era Feliz. Cara bacana, animado, de bem com a vida... Branca de Neve nunca deixava de sorrir quando estava ao seu lado. Feliz tinha uma espécie de brilho no sorriso que fazia a jovem sentir uma aceleração no palpitar do seu coração.
            Por fim tinha Dunga, ele não tinha a imponência de Mestre, nem sabia contar piadas como Feliz. Contudo, tinha algo a mais: era o mais gentil dos sete anões. Dunga nunca levantava a voz para Branca de Neve, nunca dizia o quanto ela estava com bafo, muito menos fazia questão de lembrá-la de retirar a casquinha de feijão dos dentes após o almoço de quarta-feira.
            Branca de Neve pôs os três anões que tinham lhe chamado a atenção na balança, e findou por escolher Dunga.
– Dunga, você quer ser meu namorado? – perguntou Branca com a ponta do dedo indicador esquerdo na boca vermelha e carnuda, e encaracolando uma mecha de cabelo com o dedo indicador da outra mão. Ela estava ainda com o ombro direito apoiado no batente da porta, o que fazia com que seu quadril, coberto por uma saia longa de camponesa, se inclinasse para o lado contrário deixando-o ainda mais sedutor. E Dunga, que não conseguia olhar outra coisa a não ser o umbiguinho de Branca de Neve à mostra, balançou a cabeça dizendo que sim.   
Banca de Neve ajoelhou-se frente ao novo namorado e lhe beijou um beijo doce, o primeiro beijo de Dunga, o primeiro beijo de Branca de Neve em um anãozinho. A Princesa, a mais cobiçada entre os seres da floresta, apertava seus seios contra o peito nada robusto de Dunga, que acariciava sua nuca enquanto ela procurava algum resquício de presença de bunda no seu namorado a fim de apertar.
Enfim... depois de uns dez minutos e meio, o beijo terminou. Ao fim daquela primeira demonstração de carinho, cinco dos outros anões aplaudiram e cantaram: – “tão namorando, tão namorando...”. Todos, exceto Zangado, foram parabenizar os novos pombinhos. Mestre, Atchim, Soneca, Dengoso e Feliz aproveitaram pra dar aquela sacada no decote da Princesa. Zangado era o mais esperto, ficava deitado no sofá só na espera de Branca de Neve vir pra tentar animá-lo, e, devido à inclinação da menina, o mais mal humorado dos anões tinha uma visão bem melhor dos montes congelados.
Na pequena casinha no meio da floresta havia dois quartos, três anões ficavam em um, enquanto os outros quatro dormiam noutro, mas desde que Branca passou a morar lá os anões se espremiam num dos quartos e na sala. Após o jantar, Dunga e Braça de Neve foram juntos pro quarto onde a jovem dormia.
Deitado o tamanho não faz muita diferença, e, naquela noite longa, Branca de Neve apresentava o lado bom da vida ao seu namoranão. Os outros anões, incluindo Zangado, ficaram brechando o casal pelo buraco da fechadura da porta. Soneca parecia ter tomado arrebite naquele dia, Dengoso corria pro banheiro de cinco em cinco minutos, alegou que estava com caganeira devido ao picado de galinha d’angola que comera na cantina do garimpo.
Ah! Dunga naquela noite estrelada descobriu o porquê do soldado de 1,80m ter arriscado sua vida descumprido as ordens da rainha, madrasta de Branca de Neve, levando o coração de um veado no lugar do da linda Princesa de lábios vermelhos.
O tempo foi passando, passando... Dunga deixou de trabalhar com os outros anões, já que dormia toda a manhã recuperando a energia gasta durante a noite. A menina da pele alva, rosto rosado, cabelos da cor-do-ébano e lábios carnudos, como nunca se contentou com pouco, já que o amor tem que ser alimentado todos os dias com coisas grandiosas, o que não era o caso de Dunga, começou a dar umas escapadas, segundo Rumores, Arnaldo Rumores, vizinho mais próximo dos anões. Ele dizia que Branca de Neve ia se encontrar com o soldado que a tinha deixado fugir todas as quartas, quintas e sábados.
Branca de Neve terminou o namoro com Dunguinha, como ela costumava o chamar nas noites de lua cheia, pouco tempo antes de ter sido enfeitiçada através da maça do horror. Não era nem por Dunga ser pequeno, mas ele não conseguia beijar e preencher de amor ao mesmo tempo a parte que menos via sol do corpo da amada.
O resto da história você já sabe. Mas os Irmãos Grimm esqueceram de dizer ainda que enquanto Branca de Neve vivia feliz para todo o sempre com seu príncipe encantado, Dunga curtia com as anãzinhas da floresta e, às vezes, com as do reino também, pois, depois de ter namorado a filha do rei, ele tinha se tornado o anão mais desejado dos contos de fada.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Da Janela do Ônibus

No cruzamento da Bernardo Vieira com a Romualdo Galvão, mais ou menos, avistava do quarto assento do lado direito do coletivo, obviamente o lado da janela, um homem com seu filho, provavelmente seu filho, na parada reservada aos ônibus do interior, já em frente ao Midway. O menino parecia ter fome, seu pai franzia a testa onde batia o forte sol do meio dia semi-aparado pelas árvores da região. Mas as rugas momentâneas da testa não eram devidas somente ao sol, não.
Sob a viseira do boné da campanha passada para o governo, podia-se notar o abatimento moral daquele pai que via o filho como uma estátua de olhos brilhantes e água escorrendo da boca rachada olhando, sem outro foco, para um carrinho de milho e pamonha que costuma estacionar por ali. O menino, de sete ou oito anos, parecia um leproso olhando para Cristo, pelo menos depois de ver essa cena era assim que eu imaginava o olhar de um leproso.
Logo chegou o ônibus com destino a Ceará-Mirim. E o homem, de vestes simples, que portava uma mala cheia de alguma coisa pesada, puxou a mão de seu filho, após chamá-lo umas três ou quatro vezes. Aquele pai parecia fazer algum esforço, e um bom esforço, e mais esforço para que o filho andasse, mas nada acontecia, nada movia o corpo magricelo daquela criança, que vestia uma bermudinha surrada, mais ou menos uns dois ou quatro números acima do que o menino deveria vestir, era segurada por um pedaço de fio de antena amarrado do lado esquerdo daquele pequeno quadril.
Por fim, meu ônibus seguiu o itinerário, mas, arriscando minha cabeça, consegui ver o pai do menino tomando a mão de seu filho e o induzindo a chupar o dedão. O menino punha a mão livre no vidro da janela em que sentava, parecia querer pegar com a força do olhar e da mente inocente o milho que o vendedor entregava ao carona de um Corola que esperava quase sem paciência pelo troco da nota de vinte reais que usara para pagar pelos grãozinhos amarelos que perseguiram o cearamirinesezinho nos sonhos daquela noite.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Azia de cometa

Augusto – que tinha esse nome porque sua mãe adorava o poeta paraibano Augusto dos Anjos – gostava muito de brincar no rio, no campo... enfim, gostava muito de brincar.
Ele tinha um amigo chamado Pasqual, com quem mais brincava e se divertia.
A moda da época era brincar de astronauta, pois o homem havia acabado de pisar na lua, mas Augusto não gostava muito de brincadeiras futuristas, porém Pasqual o incentivou a construir um foguete consigo, e Augusto, com oito ou nove anos, aceitou.
Os meninos trabalhavam dia-a-dia, corriam contra o tempo para que o foguete ficasse pronto até o natal. E eles conseguiram esse feito.
Passavam o dia inteiro a imaginar que aquele foguete os levava à lua, às estrelas... foi assim por todo período de férias.
Pouco duradoura a alegria acabou, Augusto conheceu a tristeza quando Pasqual mudou de cidade com os pais. Passou dias cabisbaixo, quase sem querer comer. Não era pra menos, seu companheiro de viagens o abandonara.O menino então começou a se dedicar aos estudos, formou-se aos vinte e três anos em direito, casou-se, teve dois filhos, era feliz.
Mal lembrava de sua infância, Pasqual em sua mente era uma vaga lembrança, Augusto nem sabia mais ao certo o nome do antigo amigo. Num dia rotineiro e de nublado, um homem bateu em sua porta, era um vendedor de coisas, o homem vendia de tudo, cadeira, sofá, bíblias... e Augusto comprou uma vara de pescar.
O doutor Augusto, como era chamado por seus clientes e amigos, nem mais lembrava o que era pescaria, e depois de uns minutos se arrependeu de ter gasto vinte e dois reais e setenta e cinco centavos naquele inútil caniço.
Alguns dias depois, Augusto brigou com sua esposa e foi para o quintal, era uma noite de lua cheia, ele pegou a porcaria da vara e lançou, como alguém que quer pegar um pássaro, o anzol em direção ao céu.
Por mais incrível que possa parecer, o anzol foi alto, muito alto, mais alto de que o prédio vizinho, e, após uns minutos, ele se afixou a algo firme. Augusto começou, então, a enrolar o carretel de volta, por uns instantes fingiu não acreditar, mas ele tinha pescado a lua.
Cada vez mais a lua se aproximava dele, ele espantado chorava descontroladamente, sem saber por que estava chorando, foi quando, enquanto Augusto permanecia boquiaberto com o fato que acontecia diante dos seus olhos, ele engoliu a lua.
Foi um pouco incomodo, a lua quase o entalou. Augusto, que era mais magro que O Louco de La Mancha, ficou imenso, dizem uns que ele não poderia ter a mesma aventura de Jonas. Sua mulher não entendeu muito bem o que Augusto dizia, pois sua voz havia mudado, tinha ficado mais grave, era quase um baixo extremo. Quando Ana, esposa do pescador mais gordo do planeta, tornou a si depois de uma série de desmaios pediu-lhe o divórcio. Augusto hoje está imenso, mesmo após a complicada cirurgia que lhe arrancou a lua do bucho. Ele se acostumou com o tamanho que adquiriu, e pra preencher o vazio que a lua o deixou ele teve que engolir um cometa que passava perto da terra, mas devido a isso Augusto sofre muito com a azia. Isso só prova que Augusto é forte, pois queimação de cometa não é pra qualquer um.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Dias Ímpares

Paínho me disse uma vez: - Filho não saia de casa nos dias ímpares, você não que ver sua mãe chorar de dor. Nunca acreditei nisso, mas obedecia sem reclamar.
Eu só saía de casa dia 02, 04... enfim... só em dias pares. Odiava os meses que têm 31 dias, pois ficava dois dias seguidos trancafiado.
Paínho nunca me fez entender ao certo o motivo de meu recato nos dias ímpares. O pessoal da escola já sabia, a professora não dava falta e “obedecia” as crendices do meu pai.
No dia 03 de março de 2005 meu querido pai morreu, nesse dia eu não quis sair de casa, estava triste. No dia seguinte foi o velório, ele foi enterrado no cemitério do Alecrim, nós morávamos lá perto. O enterro foi triste, minha mãe chorava assim como minhas tias, só quem não chorava era minha irmã que ria, tadinha! Ela não sabia o que estava acontecendo, mas eu sim. Eu sabia que nunca mais iria ver meu pai, pelo menos eu podia sair de casa todos os dias sem problemas... É! Toda tragédia tem seu lado positivo, assim pensava eu com oito, na verdade quase nove, anos de idade.
Os dias foram se passando, Aninha, minha irmãzinha, perguntava: - Mã, adê Paínho? Minha mãe chorava e dava comida a Ninha ao mesmo tempo. Eu começava a sentir necessidade de sair de casa, mas não saía, só nos dias pares. Era engraçado, meus amigos me chamavam pra jogar bola, e eu sempre dizia que não podia porque Paínho não deixava, mas agora eu poderia sair sem problemas, fosse dia 07 ou 13. Mainha até dizia: - Manuel, vá brincar! Você precisa se distrair, meu filho, vá!
Assim foram se passando os dias, as semanas... E era missa de um mês da morte do meu pai. Eu nunca entendia como ele apenas pediu a mim que não saísse nos dias ímpares, minha mãe ia à feira, Ninha ia à creche, e eu? Eu permanecia com meu pai em casa, ele lendo e estudando, e eu estudando e esperando o dia acabar.
Mãinha deixava Ninha na creche e saía para procurar emprego. Só meu pai trabalhava em casa, trabalhava dia sim e dia não. Ele era vigia! Paínho, no dia que tinha vago, os ímpares, não saía de casa pra nada, o meu velho gostava muito de ler jornais e a revista Época. Eu, de tão traumatizado com a prisão domiciliar, detestava e odiava qualquer tipo de jornal e revista, exceto as de mulher pelada, que Marcelo Henrique levava pra escola de vez em quando.
Mãinha não encontrara emprego. Decidiu fazer bolos e salgados pra vender. Ela pediu empréstimo ao banco, foi até fácil conseguir, pois paínho era funcionário público e mãinha ficou com a pensão, pensão esta que não era suficiente, já que maior parte da renda de Paínho vinha de artesanatos que ele fazia e mandava pras velhinhas do centro comunitário venderem.
Eu tomei o hábito de ficar em casa nos dias ímpares. Ficava sozinho. Uma das coisas que mais odiei nesse período foi quando a televisão pifou. Ah! Como eu fiquei irado, peguei ar, viu? Mas mesmo assim não saía de casa.
Logo me deu curiosidade de saber por que Paínho trocava os dias de folga, que eram sempre os ímpares, pra ficar lendo, lendo, fazendo artesanato dos mais variados, e lendo. Corri até a estante de livros e peguei um que se chamava Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ele me chamou a atenção logo na primeira página onde havia escrito mais ou menos assim: “Dedico este livro ao primeiro verme que me comeu...”, não sei... ou melhor, tenho certeza de que não são estas as palavras utilizadas por Machado de Assis, o escritor da obra, sabe? Eu com nove anos e meio achei muito difícil entender aquele livro. Era gozado. As memórias eram do tal Brás Cubas, mas quem escreveu foi Machado de Assis.
Paínho gostava também de ler gibis, eles ficavam na prateleira de baixo da estante. Li todos eles, um mais legal que o outro. Descobri que muitos dos desenhos que eu assistia na televisão, que mãinha disse que ia comprar, porém não tinha comprado ainda, estavam também nos gibis do meu pai. Mas era mais divertido no gibi, pois eu poderia ficar o dia inteiro lendo. Eu fazia muito isso. Eu não gostava de esperar até o dia seguinte para saber o que tinha acontecido com o Super-Homem após ter sido trancado numa cela com grades de criptonita.
Na medida em que os gibis iam acabando, eu ia subindo a prateleira. Lá tinha A Ilha do Tesouro, Peter Pan.... e inúmeros outros livros massas. Quando eu chegava da escola, nos dias pares, eu corria pra estante. A diretora do colégio tinha proibido mãinha de me deixar levar livros pro colégio, pois eu só queria ficar lendo na sala de aula.
Conforme os anos foram passando, eu fui lendo os livros de paínho, que agora eram meus. Mãinha dizia que era minha única herança. Ninha foi crescendo e eu fui a ensinando a gostar de gibis. Ela adorava ler gibi. Num belo dia quem eu encontro no meio da prateleira do meio? Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Eu o segurei frente aos olhos por alguns segundos, longos e admiráveis segundos e o pus contra o peito pra pensar...
Decidi por fim ler o tal livro que eu não consegui passar da primeira página. Sentei na cadeira de balanço de paínho, que ficava mais ou menos na frente a estante de livros, e comecei a ler aquela obra.
Li novamente a dedicatória, li a primeira, a segunda e todas as páginas daquele livro. Passei a manhã de um dia ímpar lendo aquele livro. Pense num livro massa! Machado de Assis foi mesmo o maior gênio da literatura nacional, e Brás Cubas, aquele malando! Começa o livro contando como foi o velório, seu próprio velório. A gente se pergunta: Se já sabemos desde o início que ele morreu que graça tem? Não vou dizer! Leia também Memórias Póstumas e você vai saber.