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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Desígnio e despropósito

 





Novo escritório, novo emprego. Casos de família, herança, briga de vizinhos por mangueira no meio dos lotes... Doutora Tereza estava num bom momento de sua vida.
        – A doutora é casada? – perguntou a recepcionista. Uma senhora indistinta, seus sessenta anos e poucos.  

          – Boa tarde, Dona Socorro. Por que a pergunta?

          – Ah, não leva a mal não, doutora. Que a senhora tem tantos anéis nos dedos, que não dá pra saber de aliança.

           – Eu gosto de anéis, mas, sim, tenho um companheiro.  

           – Então não é casada...

           – Como não?

           – Mulher casada tem marido. Foi na igreja o casamento?

           – Não – respondeu Tereza, um pouco constrangida. Mal tinha começado no escritório novo e a já se sentia invadida, julgada.

            – Hoje em dia tá assim, né? O importante é ser feliz.

            – Verdade! – e fitou alguns dos papéis que levava.  

            – A senhora é feliz, doutora?

            – Olha... eu sou, mas eu estou um pouco ocupada, podemos terminar esse papo depois?

            – Tem quantos filhos?

            – Oi?

            – A senhora tem quantos filhos?

            – Nenhum...

            – E quer ter?

            – Não sei, então...

            – E como é feliz sem filho? – perguntou com toques de desaforo à desconfortável inquirida.

Tereza parecia estar numa praia ensolarada de águas quentes ameaçada por um iceberg invadindo a areia como um gigante jet-ski controlado por um patriota enraivecido enquanto saudava a neve que caía. Nada fazia sentido, mas ela, de alguma forma, contemplava, sem transparecer tensão, aquele questionário infindo sobre tudo, exceto trabalho, seu motivo de estar ali. A recepcionista, sem deixar mais que poucos segundos para a advogada raciocinar, solta!

             – É porque, doutora, a mulher só é completa quando tem um filho, sabia?

             – Oi?

             – A mulher só é completa quando tem um filho. É o maior propósito das nossas vidas. Deus...

             – Então, senhora, olha aqui uma coisa! – Tereza levantou a calça do terninho que usava e deixou à mostra sua prótese.

             – Me desculpa, doutora. Mil perdões.

 E nunca mais falaram além das brevidades pseudocortesas do dia a dia. Não sabia Tereza se todos aqueles ataques travestidos de intenções amistosas tinham sessado por conta do deboche com que atacou para se defender ou da pena que possa ter recebido. Talvez fosse a dó. Mente limitada não entende o sarcasmo.



Rodrigo Slama, 21/12/23


* Imagem criada por IA