Páginas

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Entre loucos e cachorros: esperança

 


Era uma terra de loucos. Loucos de pedra, que atiravam na lei com granadas.
Era uma terra de loucos. Ponto. E mais um ponto.

 

– Mano, como eu tô ansioso pra domingo!

– O que tem domingo, viado? – perguntou Miguel.

– Eleição no Brasil. Segundo turno.

– Eleição onde, cara?

– No Brasil, pô. Lá na Terra!

– Quem liga pra Terra atualmente?

– Ué? Tem canto mais legal pra gente se preocupar?

– A Terra é um absurdo, Yesalel. Há pelo menos mil anos ninguém daqui nem sabe notícias de lá.

– Mas, Miguel, tá um pandemônio lá no Brasil, na Terra.

– Diabo de pandemônio? Demônio já era. Nem ele mesmo quer saber dele. Já virou lenda demais.

– Eu sei que o senhor e o resto do pessoal já saturou. Mas o universo anda perfeitamente calmo. A única emoção genuína vem da Terra.

– Cara, a Terra já era há muito tempo! Nem sabia que ainda existia... A gente deixou pra traz faz uma era! Os caras lá escolheram um bandido, macho. Pai num quer mais saber de lá, não. Entre todos os lugares em que Javé se fez carne, lá foi o pior. A Terra não merece nada da gente, não! Vai arrumar o que fazer!

– Desculpe-me, senhor. Mas tem gente boa na Terra.

– Não vês a petulância paradoxal do que dizes? Se é gente não pode ser boa! Não aprendeu nada nestes séculos e séculos de invento em vida?

– Mas tem, realmente, gente boa lá.

– Eles não sabem o que é bondade!

– Alguns sabem.

– Agora pronto. Eu agora tô errado!

– Não quis dizer isso, senhor.

– Mas foi justamente o que você disse, Yesalel!

– Me perdoe, Miguel, mas, realmente, tenho apreço pelos homens.

– Você tem apreço por coisas inúteis!

Neste momento, Yesalel se perdeu na sua visão da Terra.

– Tá vendo, nem percebe o que eu tô falando! – disse o comandante de todo exército divino, Senhor de todos os soldados de todos os universos.

– Desculpe, senhor general. Me distraí com esse cachorrinho caramelo brincando com a moto?

– Cachorro?

– É! Olha só!

Miguel parou um segundo em sua existência infinita e admirou um cachorro sem raça definida correndo atrás de uma motocicleta. O cachorrinho não queria derrubar o motociclista. Apenas queria correr junto a quem conseguisse alcançar o vigor de suas quatro patas. O cão se ria sozinho pacificamente.

– Isso é na Terra? – Perguntou Miguel.

– É sim! Lá no Brasil.

– Nunca ouvi falar do Brasil. O que tem lá?

– Tem um escroto no poder. Mas parece que sai no próximo domingo.

– Sempre tem escrotos no poder... Tanto aqui quanto lá. Mas diz... esse cara que lá governa gosta de cachorro?

– Gosta não, senhor. Nem de cachorro, nem de gente... não gosta de nada que tenha beleza, inocência ou remeta à esperança.

– Qual o nome desse ditador?

– Jair Messias, senhor.

– Messias?

– Sim, messias.

– Domingo é quando?

– Em cinco dias humanos.

– Só?

– Sim.

– Tá bem. Vou lá. Mas não é pelos homens, Yesalel.

– Gostou do cachorrinho.

– Muito!


* Imagem do Google

Rodrigo Slama, com esperança e sem medo de ser feliz 
25/10/22