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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Pingo de gente



            Era uma pequena creche num bairro nobre. A cada ano, as pessoas tinham menos filhos e, consequentemente, diminuía o número de alunos. Sem falar, também, que algumas escolas grandes estavam começando a oferecer vagas em período integral para bebês a partir de quatro meses, uma forma de fidelizar a clientela, pois o aluno sairia de lá direto para a universidade, se passasse, claro.
            A dona não queria ver o negócio começado pela sua mãe falir. Já havia demitido funcionários, vendido o terreno ao lado que servia de estacionamento, mas as contas não fechavam. Não tinha jeito: ou as pessoas começavam a fazer filho, ou em pouco tempo a sua creche iria falir. Ela deveria bolar um plano, fazer alguma coisa... não dava pra competir com as grandes escolas, mas dava pra tentar fazer com que as pessoas tivessem, por bem ou mal, mais bebês.
            A primeira coisa que pensou foi aumentar a quantidade de sexo entre os moradores da região. Descobriu um produto na internet que fazia as mulheres terem um tesão louco. Pensava que os homens não resistiriam às mulheres enlouquecidas. Foi em muitos lugares que as mulheres frequentavam na calada da madrugada de uma segunda-feira e pingou o produto nas bebidas preferidas do sexo feminino. Infelizmente, pros seus planos, não deu certo. Os motéis ficaram lotados, a cidade andava mais alegre, leve, mas as mulheres já tinham a cultura dos anticoncepcionais e os homens eram acostumados a andar com camisinhas.  
            Claro. Não pode haver procriação com o uso de contraceptivos. Mais uma vez, na calada da noite, Carolina foi sozinha, pelas farmácias da cidade para roubar todos os anticoncepcionais e preservativos das farmácias e postos de saúde, mas logo as pessoas resolveram o problema. Começaram a encomendar nas farmácias das cidades vizinhas, receberem por correios, etc. Era inviável recolher todo aquele material, além disso, ela tinha um problema: onde colocaria o roubo de semanas? Ela devia criar um novo método.
            O fracasso em conseguir fazer com que bebês novos fossem gerados, fez a nossa heroína da família tradicional pensar em algo infalível desta vez. Ela ia partir para a ignorância. Contratou dois capangas e começou a sequestrar homens e mulheres da região. Eles era trancafiados na fazenda de sua família, em um ambiente muito confortável, com vinho, flores e velas decorativas. Era inevitável. Carolina pingava o tal produto no vinho e os mantinha por algum tempo na fazenda até que um possível efeito do anticoncepcional terminasse. Batata!
            Em nove meses, os hospitais da cidade estavam lotados. Em mais seis meses, já não havia vaga nas escolas grandes para que os novos bebês fossem matriculados. Já não era sem tempo! A creche Pingo de gente estava, novamente, com sua lotação máxima e rejeitando novos bebês. Todos saíram ganhando com o pano infalível de Carolina.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

No inferno




– Seja muito bem-vindo, Irmão Roberto!
– Quem é você? Onde estou?
– Tenho muitos nomes, mas você pode me chamar de Satã.
– Como assim? Estou no inferno?
– Não... imagina. Aqui é o paraíso! 
– Sério?
– Claro que não! Eu estou mentindo. Não é você mesmo que passou anos me chamando de Pai da Mentira?
– Por que eu vim parar no inferno?
– Ora! Você pecou.
– Mas eu me arrependi.
– Mesmo?
– Claro! Aceitei Jesus há 23 anos.
– Isso não quer dizer que você se arrependeu. É até pior, Irmão Roberto, porque você se confiou nisso e não fez nada pelo próximo, não deixou de fazer muitas coisas contra si e contra os outros.
– Como assim! Sou dizimista, dei muita oferta!
– HAHAHAHAHAHA...
– Fiquei 23 anos sem beber e fumar... Minhas filhas não usavam roupas curtas, não namoraram antes da hora. A minha mulher foi uma serva também.
– Justamente contra sua família que você mais pecou. Quantas vezes suas filhas quiseram ir à praia, a uma festa e você proibiu?
– Claro! Elas iriam se desviar.
– E a sua mulher? Coitada. Não podia trabalhar fora, você a impediu de manter as amizades que não foram da igreja... ela não podia sair sem você, mesmo você sendo um crápula antissocial... Nem visitar a família no interior você a deixava!
– Uma serva de Deus esposa de presbítero deve dar o exemplo!
– E você?
– Sempre dei o exemplo.
– A pornografia que você assistia o tempo todo não era um vício? Os julgamentos que você fazia não eram exemplo? A falta de carinho à família, fazer suas filhas passarem vergonha com os amigos, negar um jantar num bom restaurante a sua esposa no aniversário de casamento para garantir o dinheiro da igreja não era pecado?
– Não. Era para honrar meus propósitos com Deus.
– Seus propósitos! Você se alegrava com a morte de bandidos, queria que os menores infratores fossem exterminados. Você queria que os ateus, espíritas e católicos sofressem até largarem as suas crenças e aderissem a sua igreja.
– Esta é a vontade de Deus!
– Você nunca ajudou uma pessoa que precisasse.
– Dar esmolas é sustentar a vagabundagem...
– Quem está falando de esmolas? Como alguém que ocupa um cargo religioso, você só agrediu, só menosprezou os outros, só fez as pessoas ao seu redor se sentirem menores diante de suas qualidades...
– Mas...
– Está vendo? Por isso você está aqui... aqui é o seu lugar!
– Deus não faria isso comigo! Você está mentindo!
– Você acha que Deus, que tem o universo inteiro para cuidar está preocupado com você, um simples homem da Terra? Fique à vontade e aproveite o lago de fogo e enxofre.
– Espere!
– O que foi?
– O que são aquelas pessoas de branco resgatando os enfermos?
– Ah... são os espíritas.
– Então o inferno não é eterno... tem uma saída?
– Não pra você.
– Como assim?
– Você sempre acreditou que o inferno e o paraíso eram eternos. Então, pra você eles são.
– Como assim?
– Argh, quanta burrice! Olha, quando você morre, o seu espírito tem o destino que você acreditava que teria quando estava encarnado. Os ateus, por exemplo, não vêm pra cá e nem para o céu, o seu espírito desaparece.
– Não acredito! Eu também quero ser resgatado, eu quero sair daqui!
– Você não acredita nisso.
– Se a questão é a crença, acreditei que iria para o céu.
– Mas você cometeu pecados.
– Quem vai para o céu não cometeu pecados?
– Claro! Todos que foram para o céu cometeram pecados, mas eles não acreditavam que viriam para cá por causa disso.
– Isto é injusto!
– HAHAHAHAHA... Vai me falar sobre injustiça? Não fui eu que criei as regras.
– Meu Deus! Por favor, senhor Satã, me deixe sair daqui.
– Não posso.
– Mas...
– Preciso ir. Aproveite o lago...

domingo, 12 de julho de 2015

O ator da Globo




– Rapaz, vou te contar...Todo ator da Globo é veado.
– Que onda... impossível todos serem veados.
– Mas são... todos são. Todo ator e diretor da Globo é veado.
– O Tony Ramos não é veado.
– É sim.
– Ouxe!
– Eu estou dizendo... é tudo veado na Globo.
– E o Lima Duarte, o Marcos Pasquim, o Rodrigo Lombardi?
– Cara, lá é tudo veado. Só consegue papel na novela os que dão o caneco para os diretores... todo diretor lá é veado... estou falando.
– O Marcos Paulo era veado?
– Está de sacanagem? Claro.
– Não acredito não.
– Olha, lá é tudo panela. Tem panela pra tudo. Reparou que há um ciclo de atores, que as novelas têm o mesmo grupo de atores?
– Sei, mas...
– Então. Quem decide é o diretor, que come os atores.
– E as mulheres?
– Elas são do grupo do pó!
– Como assim?
– Eles se reúnem para cheirar pó. Na Globo, todo mundo é viciado em pó.
– Impossível.
– Estou dizendo... Eles fazem festas nas casas dos diretores... elas cheiram e trepam...
– Se os diretores são veados, como comem as mulheres?
– Agora, pronto! Só porque o cara é veado ele não pode comer mulher?
– Pode...
– Então!
– Esta história está mal contada. É estatisticamente impossível todos serem veados e viciados em pó.
– Mas são. Estou dizendo. Todo mundo que trabalha na Globo é veado.
– E como você sabe disso?
– Fiz novela na Globo por dois anos.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

O que me conduzia





Suspiro de alívio?
Tenho ordens expressar
Para me expressar.
Entendo. Compreendo a necessidade
Tenho olhos e pés para sonhar.

Distraído, tento ser quem não fui.
Complicado? Todos mudam,
Até seus olhos azuis
Que passaram a me enxergar,
Que deixaram de me fazer sonhar.

Às vezes penso:
É melhor me esconder do sol e da luz
E avistar, de longe, a quem hoje não me conduz.
Complicado? Não me acho capaz de explicar
E é comigo.
Em outros braços macios, consegui, por destino,

Encontrar abrigo.

junho de 2009

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A professora gata




Era uma menina linda. Todos da rua, da escola, das redes sociais mais badaladas a admiravam. Ela era linda, linda. – Tem cara de médica, essa menina – dizia sua tia advogada. – Já decidiu sua profissão, Giovana? – perguntou seu avô chato durante o último natal. – Vou ser professora!
Silêncio.    
Após os instantes de calma que antecedem os bombardeios, todos a questionaram, coitada da linda moça, o motivo pelo qual ela queria enfrentar uma vida sofrida de sala de aula com um salário miserável, sem contar no tipo de marido que iria arrumar. – Ninguém quer casar com uma professora... logo, logo, você vai ficar feia e gorda! – a prima dela, estudante de psicologia, bradou.
Contra todos e confiando em seu desejo, prestou vestibular entrou no seu sonhado curso de licenciatura. Ela continuou chamando a atenção de todos. Alunos de outros cursos, colegas, professores, professoras... Todo mundo era atraído pela beleza ímpar da jovem estudante. Muitos, sobretudo muitas, desacreditavam em sua vocação, achavam que ela estava fazendo hora no curso, adiantando disciplinas comuns até passar no seu vestibular certo.
– Olha só! Não passou em Direito e está aqui pagando produção textual I com a gente só pra adiantar o curso. Duvido que ela passe!
Mas passou. Não só passou na disciplina em questão como passou com notas bem acima da média em todas as disciplinas daquele primeiro semestre. E foi passando com louvor, com louvor, com louvor até a colação de grau e inevitável láurea.   
Durante os quatro estágios obrigatórios, foi se afinando cada vez mais à profissão. Ela tinha certeza que escolheu o curso e profissão certos. Em pouco tempo, já dava aula em escolas particulares. Mais rápido do que se imaginava, passou num concurso para a rede pública. E ao contrário da praga de sua prima, parecia ficar cada vez mais linda.  
Os meninos não perdiam a sua aula. Eram bastante concentrados. Não davam trabalho. No entanto, apesar de não tirarem os olhos da professora, as notas naquela disciplina não aumentavam nunca. Alguma coisa havia de errado. – Mas Giovana é uma pessoa tão capacitada! Acabou de passar na seleção de mestrado, analisamos a sua aula e foi perfeita! – argumentava em seu favor uma das coordenadoras.  
Não demorou muito até questionarem a sua competência. Giovana era linda. Mais linda do que muita atriz de tevê. – Ela está desconcentrando os alunos – um dos professores sugeriu. – Eu também, acho. Até me questiono se suas aulas são tão boas assim para ela trabalhar nas melhores escolas da cidade – corroborava uma professora já em final de carreia.
Eram ataques que não terminavam nunca. Ataques traiçoeiros, pelas costas, pois ninguém era capaz de argumentar com Giovana. Até questionavam o seu planejamento, todo o seu trabalho extraclasse, pois uma pessoa tão linda, tão em forma não deveria ter tempo de planejar aula e corrigir bem as provas, já que vivia em academias e clínicas de estética que ajudavam a sua beleza natural a se destacar.
No entanto, mais do que ter um corpo bonito, Giovana gostava do seu trabalho. Muita gente começou a insinuar que era a sua beleza que atrapalhava os alunos. Além de linda, ela era gentil, dinâmica. Os alunos adoravam as suas aulas. Mas algo nela, diziam, estava errado. Prometeu, então, a si mesma a se tornar uma professora inquestionável. A única coisa que dava margem para a discussão era a sua beleza, portanto, era isso que ela iria mudar primeiro.
Logo após a epifania, deixou de ir à academia, fazer suas corridas regulares, a frequentar os salões de beleza e estética. Além disso, ela abandonou a dieta, começou a comer compulsivamente na tentativa alucinada de evitar qualquer crítica.  
Em pouco tempo, o seu corpo começou a se modificar. Ela teve de comprar roupas novas, abandonar os saltos. O seu rosto também começou a mudar. Ela ganhou muitas espinhas, algo que não teve durante toda a puberdade. As suas bochechas, agora, faziam com que seus olhos se fechassem durante os sorrisos... Ela estava completamente mudada... até o cabelo mudou.
Em um ano, Giovana havia engordado muito. Não tinha mais beleza, pelos menos a beleza do padrão atual da sociedade. Restava apenas um arremedo do que um dia foi o seu principal atributo. Em dois anos, os alunos novatos já não sabiam da sua fama de bela, algo que os veteranos faziam questão de lembrar... mandavam fotos pelo WhatsApp, relembravam cenas da professora apagando o quadro de uma forma que eles julgavam sensual. E isso, de certa forma, a deixava triste.  
Os seus superiores, de todas as escolas, entenderam o seu empenho em melhorar a sua atuação profissional, mas algo ainda estava errado. Giovana havia engordado 73kg, mas as notas dos alunos ainda estavam baixas. Eles continuaram prestando atenção nas aulas, pois, de fato, as suas aulas eram bem significativas, mas as notas não subiam, mesmo quando era prova da mesma disciplina elaborada por outra pessoa.  
Três anos se passaram desde que deixou de ser a professora gata para ser a professora gordinha legal. Talvez fosse isso, eles induziram. Não era muito vantajoso para ela ser legal. Giovana não enfrentou dificuldades para entrar numa depressão e adotar uma postura mais ranzinza em sua vida. Não tinha mais um riso fácil, não era mais gentil. Havia se tornado física e psicologicamente um retrato fiel das pobres professoras do passado, as que servem de exemplo ruim. E as notas... as notas dos alunos não mudavam.
Tentou de tudo. Saiu da sua metodologia inovadora e assumiu um ensino pautado na memorização. Os alunos, agora, não tinham mais voz em suas aulas, que eram centradas, sobretudo, no livro didático sem fazer referência a nenhum conhecimento do mundo real. Mas as notas... as notas dos alunos continuavam as mesmas.
Foi demitida das escolas particulares. A escola pública em que trabalhava a colocou na biblioteca, pois não fazia sentido mantê-la em sala de aula. Para o seu lugar, as escolas contrataram uma professora recém-formada, cheia de energia, simpatia, alegria, vontade de inovar e beleza. E as notas dos alunos continuaram as mesmas notas baixas de sempre.