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terça-feira, 26 de maio de 2015

A magia do São João

            



            Há muito tempo eu não sei o que é comer uma boa canjica, já que aqui em São Paulo canjica é diferente. Aqui o povo não acende fogueira, não assa milho verde, e faz umas arrumações estranhas e dizem que é quadrilha.
            Meu sonho é voltar, nem que seja por um dia, à minha terra, no dia de São João...

...

Três anos depois.

– Já faz dez anos que a gente tá morando aqui em São Paulo, não é homi? –disse minha mulher.
– É morena, e daí?
– E daí que a gente podia ir lá pra o Rio Grande do Norte, visitar minha mãe no interior e dançar forró na festa junina.
– É o que eu mais quero, minha flor, mas, trabalhando de pedreiro, com que dinheiro eu vou pagar o ônibus?
– Sabe, meu bem, eu fiz uma promessa a São João, disse que se ele me fizesse ganhar a rifa da geladeira eu ia vendê ela e usar o dinheiro pra ir curtir a festa dele, lá no nosso interior, na nossa terra.
– E você comprou aquela rifa, mulher. Poxa! Cinco reais é dinheiro.
– Homi, cê não me aperreie que eu achei cinco reais na frente da padaria.
– E por que você não comprou leite pros meninos? Cê sabe que aqui o governo não dá leite igual lá.     
– Ah, meu nêgo, São João vai nos abençoar, a gente vai viajar, vai voltar pro nosso sertão.
– Se bem que se a gente conseguisse mesmo ir pra lá eu nem voltaria mais pra São Paulo, viveria lá mesmo, voltaria pra roça...
– Quem sabe? Quem sabe?...

Uma Semana depois...

            – Morena, minha linda, minha flor... – alvoroçado chamei por Severina.
            – Que é, nêgo? O que aconteceu?
            – Nossa vida vai melhorar! Fui promovido a mestre de obras.
            – Que ótimo, Clenilson. Já não era sem tempo, dez anos de pedreiro... – Severina me abraçou e me cheirou o cangote. – Amanhã é o sorteio da rifa. Quem sabe essa onda de sorte não assopra na sacolinha?
            – É... mas se a gente ganhar...
            – O quê?
            – Nada, deixa pra lá.

No dia seguinte, o resultado da rifa saiu. Severina ganhou a tal geladeira duplex inox e frost free.

– Olha, me amor. Ganhamos a geladeira, podemos vender e viajar – muito feliz Severina veio me mostrar o canhoto da rifa. – Podemos hoje mesmo buscar na loja...
– Tá Severina, nós vamos buscar, mas não vamos vendê.
– Por que não? – com os olhos tristes ela me indagou. 
– Porque nós não vamos mais viajar. Não posso largar o trabalho logo agora que fui promovido, meu salário vai triplicar, vamos mudar de vida. Daqui a um ano, quando saírem minhas férias, a gente viaja.
– Mas eu prometi a São João! – indignada ela tentou me argumentar.
– Cumpra a promessa ano que vem.
– Mas...
– Sem mas nem meio mas – meio ignorante eu dei o dito.

Severina correu até o quarto e, de joelhos, rezava a São João com um terço na mão.
“Meu Santo, São João, faça com que o Clenilson mude de ideia e viaje com a gente para o interior para prestigiar sua festa, meu Santinho, São João...”
Vendo aquela situação, me arrepiei, o que a gente mais queria era passar o São João com a família e quando a gente é abençoado tenho que optar entre uma benção e outra... Quando morávamos na seca, quando as adutoras não passavam na cidade, nosso sonho era vir pra São Paulo pra mode criar os filhos melhor. O Alexanderson mesmo... está trabalhando comigo de servente, não dou mais um ano ele já vira pedreiro e pode se mudar daqui de casa com a mulher e o filho...
Tempo depois, fui dormir com o coração pesado, com o sorriso sem querer levantar do rosto. Deitei sozinho na cama, Severina ainda estava rezando, agora de voz baixa pra eu não ouvir. Não impeço ela de acender vela de noite, mas rezar de voz alta atrapalha meu sono e eu tenho que acordar cedo no dia seguinte, ainda mais agora que sou mestre de obras e vou começar amanhã a comandar os peões.
– Você não quer deixar sua mulher cumprir a promessa que fez a mim, Clenilson, você não pode impedi-la disso, ela me pediu uma graça e eu concedi – me disse São João. É... ele mesmo, segurando a cruz na mão esquerda e um novilho na mão direita, imediatamente me ajoelhei e beijei seus pés.
– São João, meu santo, não é por mal, mas se eu abandonar o emprego agora vou perder a maior oportunidade da minha vida... O senhor, mais que ninguém sabe o quando eu quis essa promoção, logo agora que o senhor me concedeu essa garça eu tenho que esforçar para não perdê ela – com medo de olhar nos olhos do santo, eu disse com a voz tremendo e quase rouca.
Assim que passou a mão sobre minha cabeça, depois que terminei de me defender, meu Santo João desapareceu numa nuvem de fumaça deixando um perfume que não tinha sentido antes em toda minha vida.
Acordei suado, era mais ou menos duas e meia. Não dormi mais.
No dia seguinte, lá no trabalho, disse para o chefe que precisava viajar na semana seguinte, ele disse que tinham acabado de me contratar como mestre de obras e que eles realmente precisavam de mim... ele não poderia e não queria me dar esses dias de folga, e me alertou que se eu fosse sem seu consentimento seria demissão por justa causa, por abandono de emprego, sei lá... agradeci e no final do expediente já tinha minha ideia formada.
– Severina, venha cá, minha morena!
– O que foi Clenilson? – ela apareceu com a cara assustada.
– Cadê a geladeira? Não estou vendo ela aqui.
– É... Vendi – me olhou como um cachorro que tinha comido a carne que estava descongelando na janela.
– Vendeu? Vendeu pra quê?
– Tive um sonho com São João, e ele me disse pra vender e cumprir a promessa.
Fiquei calado e espantado por um longo instante...
– Foi mesmo, minha nêga?
– Foi, Clenilson... Ele...
– Não precisa me dizer nada – peguei ela e abracei.
– Pode arrumar as mala, amanhã mesmo nós pega o ônibus, pergunta se Alexanderson vai querer ir com a mulher.
– Já perguntei, ele prefere ficar...
Fui tomar banho e chorei. Não chorava fazia tempo, acho que desde menino.

...

Dançamos e abraçamos muito nossa família e nossos amigos. Ficamos dez dias exatos, estava feliz demais pra me preocupar com o trabalho. Um irmão meu tinha comprado uma granja e estava criando camarão, me ofereceu emprego, me pediu para ficar, falei pra ele que pensaria e agradeci, tinha voltar pra São Paulo, nossa vida estava toda lá, se não arrumasse outro trabalho, iria arrumar um modo de voltar.

...

Assim que a gente chegou a São Paulo procurei a firma. O chefe lá olhou muito pra mim com as sobrancelhas abaixadas na direção do nariz e disse:
– Clenilson... – fiquei com o coração batendo. – Olha só: você me desobedeceu, pedi pra não viajar, pois estávamos precisando de você... Se não fosse a demanda de serviço, não te aceitava nem como servente, mas... pode começar, ou melhor, pode voltar pra seu cargo de mestre de obras amanhã mesmo, mas com uma condição.
– Qual doutor?
E me olhando fulminantemente – Só você deixar esse sorriso pular fora dos beiços agora mesmo.
Abracei o engenheiro formado. No dia seguinte, voltei... com mais ânimo e mais fé em São João do que nunca.



27 de maio de 2009

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