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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O Criador de Bicho-de-pé



Sérgio, desde pequeno, gostava de percorrer o mato à procura de caju, manga, umbu-cajá, cajá-manga... mas ele sempre sofria com bicho-de-pé.
Sua mãe dizia a todo o momento para ele calçar um sapato ou um tênis, e ele nunca ouvia o que sua doce mãe dizia.
Toda noite, quando Sérgio voltava dos matos, Dona Abigail cutucava os seus pés para tirar os incômodos bichos, mas, conforme Sérgio crescia, Dona Abigail foi deixando que ele se cuidasse sozinho, tinha outras obrigações mais importantes do que tirar bicho-de-pé de um pré-adolescente.
Aos treze anos de idade, Sérgio não mais estudava, não ia mais à escola; ele se mantinha, ou melhor, comprava suas baganas com os trocados que ganhava vendendo as frutas que apanhava nos matos.
Certo dia, um senhor chamado Joaquim lhe pediu que tirasse um bichinho do seu pé e pusesse no dele – o ancião dizia gostar da coceirinha que o bicho-de-pé causa – o menino Sérgio, muito esperto e matreiro, disse que vendia por cinqüenta centavos e o velho sorridente aceitou o preço e pediu ao menino que toda semana viesse deixar um bichinho pra ele. E assim foi.
O velhinho contou a boa nova a todos os seus amigos, familiares e conhecidos; seu Joaquim era muito conhecido na comunidade. Quando Sérgio, após uma ou duas semanas, foi levar mais um bichinho, se surpreendeu com tamanha fila que se formara na frente da casa do ancião, mais surpreso ainda ficou quando descobriu que todos ali queriam bicho-de-pé.
Sérgio entregou o primeiro a seu Joaquim e contou quantos mais ele tinha, e, ao ver que tinha pouco para tanta gente, o jovem rapaz decidiu fazer uma espécie de leilão com lance inicial de um real.
O menino naquele dia apurou mais de trinta reais só com meia dúzia de bichinhos, decidiu, então, só trabalhar com isso, e comia ou dava as frutas que ele apanhava de graça no mato. Assim, Sérgio continuou a caminhar querendo cada vez mais bicho-de-pé, tinha fé no seu negócio; chamou os amigos, ofereceu parceria.
O Criador de Bicho-de-pé, como ficou conhecido Sérgio, cresceu e fez fortuna, e sua mãe reconheceu seu peculiar talento. Ele tinha inúmeras fábricas – se é assim que podemos chamar – e foi quem ajudou o Brasil a crescer e se tornar potência mundial. Sérgio pateteou a idéia, o mundo todo comprava bicho nele; dizem que os chineses descobriram, no bicho-de-pé, o ingrediente que faltava na sopa maravilhosa que eles esperaram vidas para preparar e saborear.
O Criador de Bicho-de-pé não mais precisava guardar em seu pé a mercadoria pela qual fez dinheiro, pois, ao contrário da população mundial, Sérgio não gostava de bichos incômodos, ele gostava era das frutas, das mangas, das goiabas, serigüelas...


quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Verdades sobre Branca de Neve: o que os Irmãos Grimm “esqueceram” de contar

            Muita gente não sabe, mas, antes de ser enfeitiçada e do Príncipe aparecer, Branca de Neve sentiu-se atraída por três dos anões, porém a jovem princesa sabia que tinha se apaixonado apenas por um, mas não tinha certeza de qual era, não sabia ao certo quem era o dono do seu coração.        
            Mestre era um dos que conquistaram o coração de Branca, ele era quem mandava no pedaço, sabe? Branca de Neve gostava de gente assim, de pulso firme. Mestre era um líder nato, além de ser o maior anão da casa.
            Outro dos três era Feliz. Cara bacana, animado, de bem com a vida... Branca de Neve nunca deixava de sorrir quando estava ao seu lado. Feliz tinha uma espécie de brilho no sorriso que fazia a jovem sentir uma aceleração no palpitar do seu coração.
            Por fim tinha Dunga, ele não tinha a imponência de Mestre, nem sabia contar piadas como Feliz. Contudo, tinha algo a mais: era o mais gentil dos sete anões. Dunga nunca levantava a voz para Branca de Neve, nunca dizia o quanto ela estava com bafo, muito menos fazia questão de lembrá-la de retirar a casquinha de feijão dos dentes após o almoço de quarta-feira.
            Branca de Neve pôs os três anões que tinham lhe chamado a atenção na balança, e findou por escolher Dunga.
– Dunga, você quer ser meu namorado? – perguntou Branca com a ponta do dedo indicador esquerdo na boca vermelha e carnuda, e encaracolando uma mecha de cabelo com o dedo indicador da outra mão. Ela estava ainda com o ombro direito apoiado no batente da porta, o que fazia com que seu quadril, coberto por uma saia longa de camponesa, se inclinasse para o lado contrário deixando-o ainda mais sedutor. E Dunga, que não conseguia olhar outra coisa a não ser o umbiguinho de Branca de Neve à mostra, balançou a cabeça dizendo que sim.   
Banca de Neve ajoelhou-se frente ao novo namorado e lhe beijou um beijo doce, o primeiro beijo de Dunga, o primeiro beijo de Branca de Neve em um anãozinho. A Princesa, a mais cobiçada entre os seres da floresta, apertava seus seios contra o peito nada robusto de Dunga, que acariciava sua nuca enquanto ela procurava algum resquício de presença de bunda no seu namorado a fim de apertar.
Enfim... depois de uns dez minutos e meio, o beijo terminou. Ao fim daquela primeira demonstração de carinho, cinco dos outros anões aplaudiram e cantaram: – “tão namorando, tão namorando...”. Todos, exceto Zangado, foram parabenizar os novos pombinhos. Mestre, Atchim, Soneca, Dengoso e Feliz aproveitaram pra dar aquela sacada no decote da Princesa. Zangado era o mais esperto, ficava deitado no sofá só na espera de Branca de Neve vir pra tentar animá-lo, e, devido à inclinação da menina, o mais mal humorado dos anões tinha uma visão bem melhor dos montes congelados.
Na pequena casinha no meio da floresta havia dois quartos, três anões ficavam em um, enquanto os outros quatro dormiam noutro, mas desde que Branca passou a morar lá os anões se espremiam num dos quartos e na sala. Após o jantar, Dunga e Braça de Neve foram juntos pro quarto onde a jovem dormia.
Deitado o tamanho não faz muita diferença, e, naquela noite longa, Branca de Neve apresentava o lado bom da vida ao seu namoranão. Os outros anões, incluindo Zangado, ficaram brechando o casal pelo buraco da fechadura da porta. Soneca parecia ter tomado arrebite naquele dia, Dengoso corria pro banheiro de cinco em cinco minutos, alegou que estava com caganeira devido ao picado de galinha d’angola que comera na cantina do garimpo.
Ah! Dunga naquela noite estrelada descobriu o porquê do soldado de 1,80m ter arriscado sua vida descumprido as ordens da rainha, madrasta de Branca de Neve, levando o coração de um veado no lugar do da linda Princesa de lábios vermelhos.
O tempo foi passando, passando... Dunga deixou de trabalhar com os outros anões, já que dormia toda a manhã recuperando a energia gasta durante a noite. A menina da pele alva, rosto rosado, cabelos da cor-do-ébano e lábios carnudos, como nunca se contentou com pouco, já que o amor tem que ser alimentado todos os dias com coisas grandiosas, o que não era o caso de Dunga, começou a dar umas escapadas, segundo Rumores, Arnaldo Rumores, vizinho mais próximo dos anões. Ele dizia que Branca de Neve ia se encontrar com o soldado que a tinha deixado fugir todas as quartas, quintas e sábados.
Branca de Neve terminou o namoro com Dunguinha, como ela costumava o chamar nas noites de lua cheia, pouco tempo antes de ter sido enfeitiçada através da maça do horror. Não era nem por Dunga ser pequeno, mas ele não conseguia beijar e preencher de amor ao mesmo tempo a parte que menos via sol do corpo da amada.
O resto da história você já sabe. Mas os Irmãos Grimm esqueceram de dizer ainda que enquanto Branca de Neve vivia feliz para todo o sempre com seu príncipe encantado, Dunga curtia com as anãzinhas da floresta e, às vezes, com as do reino também, pois, depois de ter namorado a filha do rei, ele tinha se tornado o anão mais desejado dos contos de fada.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Da Janela do Ônibus

No cruzamento da Bernardo Vieira com a Romualdo Galvão, mais ou menos, avistava do quarto assento do lado direito do coletivo, obviamente o lado da janela, um homem com seu filho, provavelmente seu filho, na parada reservada aos ônibus do interior, já em frente ao Midway. O menino parecia ter fome, seu pai franzia a testa onde batia o forte sol do meio dia semi-aparado pelas árvores da região. Mas as rugas momentâneas da testa não eram devidas somente ao sol, não.
Sob a viseira do boné da campanha passada para o governo, podia-se notar o abatimento moral daquele pai que via o filho como uma estátua de olhos brilhantes e água escorrendo da boca rachada olhando, sem outro foco, para um carrinho de milho e pamonha que costuma estacionar por ali. O menino, de sete ou oito anos, parecia um leproso olhando para Cristo, pelo menos depois de ver essa cena era assim que eu imaginava o olhar de um leproso.
Logo chegou o ônibus com destino a Ceará-Mirim. E o homem, de vestes simples, que portava uma mala cheia de alguma coisa pesada, puxou a mão de seu filho, após chamá-lo umas três ou quatro vezes. Aquele pai parecia fazer algum esforço, e um bom esforço, e mais esforço para que o filho andasse, mas nada acontecia, nada movia o corpo magricelo daquela criança, que vestia uma bermudinha surrada, mais ou menos uns dois ou quatro números acima do que o menino deveria vestir, era segurada por um pedaço de fio de antena amarrado do lado esquerdo daquele pequeno quadril.
Por fim, meu ônibus seguiu o itinerário, mas, arriscando minha cabeça, consegui ver o pai do menino tomando a mão de seu filho e o induzindo a chupar o dedão. O menino punha a mão livre no vidro da janela em que sentava, parecia querer pegar com a força do olhar e da mente inocente o milho que o vendedor entregava ao carona de um Corola que esperava quase sem paciência pelo troco da nota de vinte reais que usara para pagar pelos grãozinhos amarelos que perseguiram o cearamirinesezinho nos sonhos daquela noite.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O homem que engoliu a Lua







Augusto – que tinha esse nome porque sua mãe adorava o poeta paraibano Augusto dos Anjos – gostava muito de brincar no rio, no campo... enfim, gostava muito de brincar.
Ele tinha um amigo chamado Pasqual, com quem mais brincava e se divertia.
A moda da época era brincar de astronauta, pois o homem havia acabado de pisar na lua, mas Augusto não gostava muito de brincadeiras futuristas, porém Pasqual o incentivou a construir um foguete consigo, e Augusto, com oito ou nove anos, aceitou.
Os meninos trabalhavam dia-a-dia, corriam contra o tempo para que o foguete ficasse pronto até o natal. E eles conseguiram esse feito.
Passavam o dia inteiro a imaginar que aquele foguete os levava à lua, às estrelas... foi assim por todo período de férias.
Pouco duradoura a alegria acabou, Augusto conheceu a tristeza quando Pasqual mudou de cidade com os pais. Passou dias cabisbaixo, quase sem querer comer. Não era para menos, seu companheiro de viagens o abandonara. O menino então começou a se dedicar aos estudos, formou-se aos vinte e três anos em Direito, casou-se, teve dois filhos, era feliz.
Mal lembrava de sua infância, Pasqual em sua mente era uma vaga lembrança, Augusto nem sabia mais ao certo o nome do antigo amigo. Num dia rotineiro e de nublado, um homem bateu em sua porta, era um vendedor de coisas, o homem vendia de tudo, cadeira, sofá, Bíblias... e Augusto comprou uma vara de pescar.
O doutor Augusto, como era chamado por seus clientes e amigos, nem mais lembrava o que era pescaria, e depois de uns minutos se arrependeu de ter gasto vinte e dois reais e setenta e cinco centavos naquele inútil caniço.
Alguns dias depois, Augusto brigou com sua esposa e foi para o quintal, era uma noite de lua cheia, ele pegou a porcaria da vara e lançou, como alguém que quer pegar um pássaro, o anzol em direção ao céu.
Por mais incrível que possa parecer, o anzol foi alto, muito alto, mais alto de que o prédio vizinho, e, após uns minutos, ele se afixou a algo firme. Augusto começou, então, a enrolar o molinete de volta, por uns instantes fingiu não acreditar, mas ele tinha pescado a Lua.
Cada vez mais o satélite se aproximava dele, ele espantado chorava descontroladamente, sem saber por que estava chorando, foi quando, enquanto Augusto permanecia boquiaberto com o fato que acontecia diante dos seus olhos, ele engoliu a Lua.
Foi um pouco incomodo, a Lua quase o entalou. Augusto, que era mais magro que o louco de a Mancha, ficou imenso, dizem uns que ele não poderia ter a mesma aventura de Jonas. Sua mulher não entendeu muito bem o que Augusto dizia, pois sua voz havia mudado, tinha ficado mais grave, era quase um baixo extremo. Quando Ana, esposa do pescador mais gordo do planeta, tornou a si depois de uma série de desmaios pediu-lhe o divórcio. Augusto hoje está imenso, mesmo após a complicada cirurgia que lhe arrancou a Lua do bucho. Ele se acostumou com o tamanho que adquiriu, e para preencher o vazio que a Lua o deixou ele teve que engolir um cometa que passava perto da Terra, mas devido a isso Augusto sofre muito com a azia. Isso só prova que Augusto é forte, queimação de cometa não é para qualquer um.

*Imagem do Google

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Dias Ímpares

Paínho me disse uma vez: - Filho não saia de casa nos dias ímpares, você não que ver sua mãe chorar de dor. Nunca acreditei nisso, mas obedecia sem reclamar.
Eu só saía de casa dia 02, 04... enfim... só em dias pares. Odiava os meses que têm 31 dias, pois ficava dois dias seguidos trancafiado.
Paínho nunca me fez entender ao certo o motivo de meu recato nos dias ímpares. O pessoal da escola já sabia, a professora não dava falta e “obedecia” as crendices do meu pai.
No dia 03 de março de 2005 meu querido pai morreu, nesse dia eu não quis sair de casa, estava triste. No dia seguinte foi o velório, ele foi enterrado no cemitério do Alecrim, nós morávamos lá perto. O enterro foi triste, minha mãe chorava assim como minhas tias, só quem não chorava era minha irmã que ria, tadinha! Ela não sabia o que estava acontecendo, mas eu sim. Eu sabia que nunca mais iria ver meu pai, pelo menos eu podia sair de casa todos os dias sem problemas... É! Toda tragédia tem seu lado positivo, assim pensava eu com oito, na verdade quase nove, anos de idade.
Os dias foram se passando, Aninha, minha irmãzinha, perguntava: - Mã, adê Paínho? Minha mãe chorava e dava comida a Ninha ao mesmo tempo. Eu começava a sentir necessidade de sair de casa, mas não saía, só nos dias pares. Era engraçado, meus amigos me chamavam pra jogar bola, e eu sempre dizia que não podia porque Paínho não deixava, mas agora eu poderia sair sem problemas, fosse dia 07 ou 13. Mainha até dizia: - Manuel, vá brincar! Você precisa se distrair, meu filho, vá!
Assim foram se passando os dias, as semanas... E era missa de um mês da morte do meu pai. Eu nunca entendia como ele apenas pediu a mim que não saísse nos dias ímpares, minha mãe ia à feira, Ninha ia à creche, e eu? Eu permanecia com meu pai em casa, ele lendo e estudando, e eu estudando e esperando o dia acabar.
Mãinha deixava Ninha na creche e saía para procurar emprego. Só meu pai trabalhava em casa, trabalhava dia sim e dia não. Ele era vigia! Paínho, no dia que tinha vago, os ímpares, não saía de casa pra nada, o meu velho gostava muito de ler jornais e a revista Época. Eu, de tão traumatizado com a prisão domiciliar, detestava e odiava qualquer tipo de jornal e revista, exceto as de mulher pelada, que Marcelo Henrique levava pra escola de vez em quando.
Mãinha não encontrara emprego. Decidiu fazer bolos e salgados pra vender. Ela pediu empréstimo ao banco, foi até fácil conseguir, pois paínho era funcionário público e mãinha ficou com a pensão, pensão esta que não era suficiente, já que maior parte da renda de Paínho vinha de artesanatos que ele fazia e mandava pras velhinhas do centro comunitário venderem.
Eu tomei o hábito de ficar em casa nos dias ímpares. Ficava sozinho. Uma das coisas que mais odiei nesse período foi quando a televisão pifou. Ah! Como eu fiquei irado, peguei ar, viu? Mas mesmo assim não saía de casa.
Logo me deu curiosidade de saber por que Paínho trocava os dias de folga, que eram sempre os ímpares, pra ficar lendo, lendo, fazendo artesanato dos mais variados, e lendo. Corri até a estante de livros e peguei um que se chamava Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ele me chamou a atenção logo na primeira página onde havia escrito mais ou menos assim: “Dedico este livro ao primeiro verme que me comeu...”, não sei... ou melhor, tenho certeza de que não são estas as palavras utilizadas por Machado de Assis, o escritor da obra, sabe? Eu com nove anos e meio achei muito difícil entender aquele livro. Era gozado. As memórias eram do tal Brás Cubas, mas quem escreveu foi Machado de Assis.
Paínho gostava também de ler gibis, eles ficavam na prateleira de baixo da estante. Li todos eles, um mais legal que o outro. Descobri que muitos dos desenhos que eu assistia na televisão, que mãinha disse que ia comprar, porém não tinha comprado ainda, estavam também nos gibis do meu pai. Mas era mais divertido no gibi, pois eu poderia ficar o dia inteiro lendo. Eu fazia muito isso. Eu não gostava de esperar até o dia seguinte para saber o que tinha acontecido com o Super-Homem após ter sido trancado numa cela com grades de criptonita.
Na medida em que os gibis iam acabando, eu ia subindo a prateleira. Lá tinha A Ilha do Tesouro, Peter Pan.... e inúmeros outros livros massas. Quando eu chegava da escola, nos dias pares, eu corria pra estante. A diretora do colégio tinha proibido mãinha de me deixar levar livros pro colégio, pois eu só queria ficar lendo na sala de aula.
Conforme os anos foram passando, eu fui lendo os livros de paínho, que agora eram meus. Mãinha dizia que era minha única herança. Ninha foi crescendo e eu fui a ensinando a gostar de gibis. Ela adorava ler gibi. Num belo dia quem eu encontro no meio da prateleira do meio? Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Eu o segurei frente aos olhos por alguns segundos, longos e admiráveis segundos e o pus contra o peito pra pensar...
Decidi por fim ler o tal livro que eu não consegui passar da primeira página. Sentei na cadeira de balanço de paínho, que ficava mais ou menos na frente a estante de livros, e comecei a ler aquela obra.
Li novamente a dedicatória, li a primeira, a segunda e todas as páginas daquele livro. Passei a manhã de um dia ímpar lendo aquele livro. Pense num livro massa! Machado de Assis foi mesmo o maior gênio da literatura nacional, e Brás Cubas, aquele malando! Começa o livro contando como foi o velório, seu próprio velório. A gente se pergunta: Se já sabemos desde o início que ele morreu que graça tem? Não vou dizer! Leia também Memórias Póstumas e você vai saber.