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domingo, 28 de junho de 2015

Enviagrado





            Estava em um bairro afastado, na Zona Sul. Não tinha problemas, iria cobrar o de costume. Iria satisfazer, mais uma vez, os desejos sexuais de alguém que, provavelmente, não lhe atrairia. Antes de chamar o moto-táxi de sempre, ligou para a farmácia e pediu alguns estimulantes sexuais... estava tomando cada vez mais comprimidos para impotência.
            César foi para o motel de sempre se encontrar com um cliente diferente. Tinha esperança de ser alguém que chamasse atenção, despertasse algum desejo, que fizesse curtir a experiência. Não aconteceu. O parceiro momentâneo era como ele: alto, sarado, moreno, jovem. Não se atraía por tipos comerciais. E nem se atraía pelo oposto: baixo, gordo, branco, coroa. Na verdade, se atraía por um tipo bem particular: alto, pernas finas e braços fortes, tatuagens, cabelos pintados, asiático.
            Antes de cumprir a sua função de especialista, tomou uma dose maior de estimulante porque o cliente era muito feio, e ele já tinha trabalhado pela manhã e parte da tarde. Terminado o serviço, cliente satisfeito, pagamento feito... só faltava uma coisa: o pinto baixar.
            Quase se desesperou. Tomou banho frio, tentou pensar que a mãe estava morrendo, procurou fotos da Ana Maria Braga de topless. Nada. Continuava a todo vapor. Não sabia o que fazer. O cliente deveria voltar para casa: aniversário da esposa, jantar, sobremesa, vinho.... Não tinha jeito, César não podia esperar. Chamou o moto-táxi de sempre, estava ocupado. Não poderia pagar um táxi, muito menos voltar de ônibus. Chamou um moto-táxi desconhecido.
            Num primeiro momento, achou que era um assalto. Tentou recusar a corrida, mas precisava dos dez reais. Cobrou quinze sem sucesso. A cada semáforo, a cada quebra-molas, a moto empurrava o passageiro contra o piloto, que já quase sentava no tanque. A chuva apertava, o pneu estava meio careca. Dez reais não valiam tanto assim.
            César foi abandonado no meio do caminho. Estava constrangido, molhado, humilhado e sem saber como voltaria para a Zona Norte. Tentou abrigo sob a marquise de uma pastelaria. Lá de dentro, saía um chinês de pernas finas e um dragão tatuado no braço largo, tinha um metro e noventa e três, cabelos loiros e uma toalha seca.


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