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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Língua: Vidas em Português

        “Não há uma língua portuguesa, há línguas em português” (José Saramago). Esta é apenas uma das epígrafes do documentário Língua: Vidas em Português (2001), do diretor Victor Lopes, que mostra pessoas em diferentes países cujo idioma é o português – ou com uma comunidade de língua portuguesa – falando de suas vidas em relação ao idioma lusitano.
            Com passagens por Goa / Índia, Moçambique, Portugal, Brasil, Macau / China, Angola e Japão (comunidade Brasileira em Tóquio), Língua: Vidas em Português, através de um ponto comum – a língua – relaciona povos distintos em várias partes do mundo. São retratadas pessoas de várias profissões (padeiro, escritores, músicos, vendedor de balas/pregador) e classes sociais que valem-se do idioma português para se comunicar e/ou trabalhar e/ou postular sua identidade.
            Figuras importantes no cenário literário de língua portuguesa aparecem dando entrevistas e falando de suas relações com a língua. Saramago, Mia Couto e João Ubaldo Ribeiro são porta-vozes de toda uma nação, de toda uma comunidade mundial de usuários da nossa língua.
            Não obstante, o documentário não se prende apenas a figuras ditas “cultas”, mas mostra usuários comuns da língua (estudantes, vendedores) – o que enriquece todo trabalho. Assim, realidades distintas, como um vendedor de balas e pregador do Rio de Janeiro, se cruzam. Como um estudante de Angola e vendedores lojistas em Macau através de um ponto em comum, como dito: a língua portuguesa.
            Nós, espectadores, somos levados a viajar por lugares comuns, que falam o nosso idioma (claro que um sotaque um pouco menos entendível, às vezes). Assim, podemos refletir sobre a importância da língua portuguesa no mundo, através de Língua: Vidas em Português, um documentário artístico-informativo, que apresenta, no decorrer de cerca de noventa minutos, experiências únicas de vidas que contribuem para o engrandecimento cultural da língua portuguesa, seja através de variantes peculiares, como a do vendedor de balas/pregador, seja do uso mais “culto” dos escritores citados, seja do jeito maroto de Martinho da Vila, ou das exposições dos jovens estudantes de Lisboa e Moçambique.
            A língua portuguesa, no documentário, é mostrada como instrumento de propagação da fé e da palavra do Deus Cristão – seja no Brasil ou em Moçambique -, assim como veículo para se professar a cultura, a música – muito bem representada pela Tia do Fado Português etc., pois, segundo Saramago, a língua, conforme o contato, torna-se uma inesgotável fonte de beleza e de valor – sejam eles quaisquer que forem.
            Deste modo, assistir Língua: Vidas em Português nos reafirma como parte de uma grande comunidade mundial que tem imbricada em sua cultura raízes que se desenvolveram e deram frutos incríveis da língua portuguesa, ou melhor, das várias línguas em português. Isso transforma a todos nós em personagens protagonistas de um longa metragem que ultrapassa o tempo documentário em questão, já que esta vida é respirada e mantida e sonhada por 244 milhões de pessoas falantes do português, todos nós. Já que a língua “no fundo, não estás a viajar por lugares, mas sim por pessoas” (MIA COUTO).

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