Páginas

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Carta de Alexandre Nardoni à Isabella

Querida filha, como você está aí no céu? Digo céu porque ouvi dizer que crianças, mesmo as travessas, têm espaço garantido na morada de Deus por terem o coração puro. Mas estando onde estiver eu espero que esteja bem e tenha entendido o motivo que me fez ceifar sua vida, sua curta vida.
Você sabe que no fundo eu não queria te jogar pela janela, mas você também sabe que foi preciso. Quem mandou você nascer, afinal? Quem pediu pra você passar o fim de semana na minha companhia? Eu nem queria ter o trabalho de te buscar na casa da sua mãe, mas você insistiu em me ver, por quê? Parece que tinha tudo maquinado nessa sua cabeçinha de criança malvada.
Lembre-se que só te joguei do sexto andar do prédio por amor, pois pensava que Ana Carolina tinha te estrangulado e matado, e eu não queria ver a mãe dos meus amados filhos na cadeia. Você bem sabe, minha filha, que eles são tudo o que tenho, por este motivo julgo não ser preciso te pedir perdão, já que eu sei que você preferiria morrer do que ver seus amados irmãos sem a mãe.
O papai foi condenado a ficar preso por mais de trinta anos... muito tempo por ter jogado uma criança insignificante como você pela janela, concorda? Eu sei que você faria o mesmo no meu lugar, pois, como eu disse, a liberdade e a alegria da minha esposa dependiam disso, de acreditarem que alguém entrou em casa e te jogou sem motivos, e sei que o fato de eu ter te jogado no chão e ter te agredido antes de atirar seu corpo indefeso pela janela pode ter te causado alguma dor, mas dor maior sentiriam seus irmãos caçulas por ter que ver a mãe responder a um processo por maus tratos a uma menor, não é mesmo?
Infelizmente de nada adiantou termos fingido aquilo tudo, e de repente não ter te jogado poderia ter sido uma opção melhor para mim e para a Ana, pois disseram que você ainda estava viva, e eu juro que não sabia. Mesmo tendo contratado caros advogados sofistas e peritos vindos de fora, não conseguimos desmentir nossa culpa, que é obvia, mas não podemos contar a ninguém a verdade na esperança de um novo julgamento.
Estou te escrevendo então pra te comover, pois espero ouvir seus pedidos de perdão... você conseguiu o que no fundo sempre quis: ver seu pai afastado dos seus filhos mais queridos e de sua esposa amada, mas eu sei que isso foi sua mãe quem colocou na sua cabeça, e ela que se cuide, pois quando a poeira abaixar ela quem vai experimentar o passeio pela minha janela do sexto andar.
– Maldita camisinha que estourou!
De qualquer forma, recorreremos da sentença... apelaremos para que haja outro júri, e, se por ventura conseguirmos um bom abatimento da pena, já que a absolvição é impossível, eu sei, possa ser que eu venha a lhe perdoar pelo mal que você me fez, afinal sou seu pai e tenho que fazer esse esforço, não é mesmo? Mesmo que você só me tenha causado mal desde que nasceu.
Mais uma vez, espero que estejas bem. Envio essa carta como prova dos meus bons sentimentos para com você... no fim das contas quero provar ao diabo que fui um bom pai, um pai atencioso e afetuoso, na tentativa de conseguir um lugarzinho no fim da fila do purgatório para, quem sabe, me livrar do inferno... Se você conseguiu, talvez eu consiga.

Atenciosamente, Papai.

3 comentários:

carlasobreira disse...

Carta de Isabella à Nardoni
(em resposta - por Carla Sobreira)

Oi Pai,

Por aqui está tudo bem, embora tenha certeza de que não é sua maior preocupação no momento. Tenho sentido bons pensamentos vindos de todos os cantos do mundo, mas o que mais sinto é o pensamento dos meus irmãos. É! Aqueles que você e sua mulher dizem que amam mais do que qualquer coisa no mundo. Isso porque, como irmã mais velha, me preocupo com eles e sei que os dois temem acontecer com eles o mesmo que aconteceu comigo, e eu nem estarei ai para livrá-los ou sofrer por eles... Deus os proteja! Afinal, como saberão se uma travessura ou nota baixa despertará a ira da mãe ou do pai... Eles andam bem preocupados, eu sinto.
Me preocupo também com o fato da minha mãe, ao contrário de você, estar ainda sentindo muita falta minha, e que para ela, embora eu representasse sua passagem na vida dela, eu também significava amor. Porque é isso que os pais sentem por seus filhos (Ah! Você sabe disso não é?)
Quanto ao meu perdão, não sei se sou capaz de dá-lo. Não porque não queira, entenda! Mas porque perdão é algo que vem junto com esquecimento e infelizmente não tenho como esquecer o que aconteceu.
Quanto ao lugar reservado para você, fixe o pensamento de que na pior das hipóteses, você nunca mais terá que estar do meu lado, porque numa coisa você tem razão, crianças são anjos mesmo. Deus tenta enviar para famílias que precisam de luz, mas às vezes, os adultos as mandam embora.

Isabella

carlasobreira disse...

eu já tinha vindo nesse tb...

Não tenho nome .... tenho dedos que se identificam no teclado disse...

Eita, eita, eita ... queria não ter um pai assim ... mas tive, quase igual - rs.