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domingo, 28 de março de 2010

Dourados Vizinhos

          Que o próximo não sinta amor pela gente já era sabido há muito, mas que um ódio e um egoísmo acrescidos pela inveja eram criados contra a gente, como a papa de fubá e ao Cremogema, superaram as previsões dos astros, estrelas e sites especializados.
            Basicamente, a explicação é a falta de educação, uma falha consciente da família em prover o mínimo possível de modos e respeito ao próximo, no entanto parecem ser os maus costumes o exemplo a ser seguido pelos frutos de um relacionamento muitas vezes extraconjugal.
            Se não bastassem falarem, sem motivo, por qualquer motivo que seja às suas costas – nada que me ofenda, já que vermes terrestres não atingem uma águia – os malditos vizinhos colocam lixos gratuitamente na porta das casas dos que querem limpeza; os pais, tios e madrinhas de fogueira incentivam as crianças a cagarem no chão, isso, pelo menos, explica o porquê de meus tênis estarem sempre rodeado de moscas.
            O que seria de nossas vidas sem os vizinhos? Não acordaríamos às seis da manhã dum feriado ouvindo altos níveis de um ruído provocado por um CD pirata com as melhores do forró volume 12.345; não precisaríamos andar olhando para o chão na intenção esperançosa de não pisar no cocô de uma criança de cinco ou sete anos que se limpa com uma edição do ano passado da Tribuna do Norte; não teríamos que ceder um pedaço do nosso terreno, justamente o único pedaço de 70cm x 8m da rua que ainda tem resquícios de natureza incluindo um pezinho de mamão dando frutos, para satisfazer um ego comum a todos.
            Realmente eu não saberia viver sem meus dourados vizinhos – ah, não to sendo irônico chamando-os de dourados pra dizer que nem tudo que reluz é ouro, mas faço uma tentativa de analogia com Marcelo Dourado (BBB), que é um otário preconceituoso e sem argumentos que acha que é o dono da verdade, do saber e do próprio umbigo, mesmo sem ao menos suspeitar, por ignorância ou inocência, que vive numa sociedade que o enche de conceitos errôneos, entre eles o de que falar mais alto é sinal de inteligência.
            Pobres coitados que têm as casas rachadas e um celular com câmera no bolso, rádio da última geração dos anos 1990 enquanto os filhos limpam o cu com jornal, uma moto de 100cc comprada em 72 vezes que não serve pra dar conforto à família de três filhos, sendo o mais novo muito diferente dos demais, num extremo ato de egoísmo contra os seus, e no final do mês comprar fiado na bodega que vende tudo mais caro que o mercado.
            Eu me pergunto se isso tudo é certo. E é! Eu sou errado, eu quero flores na porta da minha casa – pra que flores? –, eu quero que todos tenham água limpa na torneira, eu quero pagar IPTU pra ter o direito de reclamar por falta de serviço prestado, eu quero justiça, eu quero a verdade! Mas pra isso eu tenho que me render, se não poder com eles fuja!, se não tem dinheiro aguenta. E aguentar, caro leitor, eu tenho feito há anos, há seis anos, seis anos sem receber ou dar um bom dia, seis anos sem poder sair de casa sem ser vítima de maus agouros e não chegar em casa do supermercado sem ter que rezar um Pai Nosso pra espantar a inveja, que é grande, ah se é!
O foda é que não tenho nada que valha apena de se invejar, a não ser a felicidade, a esperança, uma cachorra vira-latas que me dá tanto carinho que chego às vezes a querer viver numa terra só de cães – pois acredito que o cão dos infernos é mais simpático que alguns seres humanos –, além da certeza de um futuro melhor que o dos outros, que o deles, um futuro sem fins de semana regados à cachaça e confusão, um futuro sem dúvidas sobre a paternidade do meu filho, um futuro sem ter que aturá-los: Dourados Vizinhos.

2 comentários:

Não tenho nome .... tenho dedos que se identificam no teclado disse...

Talvez a inveja veja a revista veja e se sinta invejada ... enquanto outros tomam cerveja, veja: passe um veja no tênis e veja que ainda terão inveja ...

mauro disse...

ai mané deu mole em.....Fato é Real ;p