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quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Do Lado de Lá da Rota do Sol

Há coisas que só acontecem com quem mora para lá da Rota do Sol, em Pium, Pirangi do Norte, do Sul, Tabatinga... Há quem nos ache privilegiados por morar perto da praia. Mas muitos esquecem que nem todas as casas são de veraneio, nem todas as casas têm piscina, churrasqueira, e quadra de beach soccer.
Vou começar... Ou melhor, vou apenas apontar os problemas, já que os benefícios, os poucos que existem além da Rota do Sol, são conhecidos por toda população natalense e regiões vizinhas.
Na “parte” de Pium em que moro, falta água todo verão. O que eu não entendo é o porquê de só faltar nesse período do ano, logo no verão, quando chegam os veranistas, quando chegam os gringos, donos do litoral. Por que a água não falta no inverno? Sim, porque se faltar água no inverno a gente pode aparar a da chuva, nem que seja pra dar descarga. Há quem diga que os responsáveis – que ninguém sabe quem são – dão ordens aos manobristas da água, os que têm o poder de decidir quem vai tomar banho de chuveiro ou de cuia, para mudarem o curso do líquido dos sonhos, fazendo com que o nosso ouro cristalino seja privilégio dos que moram em Cotovelo, ou seja, é tirar dos pobres e entregar aos ricos, que vão apenas passar as férias, para que possam lavar suas Hiluxes (O lance da Hilux é só pra ilustrar, já que quem tem uma nunca vai lavar com uma mangueirinha e um baldinho com sabão e uma espuma de colchão velho, vai mandar prum lava jato tampa, ou esperar um pit stop da Rádio 98 FM).
Lá em casa, leitor, não chega água há mais de dois meses, a última vez que tomei banho de chuveiro foi numa viagem da faculdade que fiz a Angicos, sertão, região conhecida no país inteiro por ter problemas com água, olha que a água de lá era cristalina, muito diferente da água que utilizamos cedida por um comerciante que teve que cavar um poço. Eu aprendi nas aulas de ciências que a água própria para o consumo é aquela que é insípida, inodora e incolor, mas, não desmerecendo a água do amigo, a vida que vem do poço tem gosto, cheiro e cor!
Outro dos vários problemas, além da água, é o transporte. Os ônibus são velhos, têm motoristas e cobradores mal humorados... salvo raras exceções; as passagens são caras, estão sempre lotados, devido à política dos donos da empresa de passar de hora em hora, talvez pra poupar combustível. Veja só, se minha última aula acabar às 21h30, eu tenho que esperar até às 22h40 para pegar o ônibus seguinte e de último horário, já que, mesmo que o imbecil e corno do motorista que faz o horário das 21h30 respeitasse o horário, não daria pra pegá-lo. Conclusão: chego em casa, quando é horário de verão, na hora que começa o Jô, quase meia noite. É ou não é um merda morar do lado de lá da Rota do Sol?
Ainda no assunto do ônibus, é bom salientar que há o transporte alternativo, que não serve de alternativa para ninguém, já que o preço da passagem é o mesmo, sendo o micro-ônibus ainda mais desconfortável, e vive grudado com a bunda no nariz do ônibus da Campos, além de não fazerem o mesmo percurso, terminando a viagem no Alecrim.
Como já disse, o último ônibus de segunda a sábado sai da Cidade às 22h40, dependendo, é claro, do motorista que o conduz. Nos domingos e feriados, o último ônibus pra voltar pra casa, pasmem!, sai da Cidade às 20h30. O cara que depende do ônibus da Campos, empresa monopolizadora do transporte do litoral de Parnamirim e Nísia Floresta, não pode nem ir ao cinema pegar a sessão das 18h, já que não tem o direito de voltar pra casa no horário que deseja. Além de ter que atuar motoristas otários que falam ao celular enquanto dirigem esquecendo de parar na parada determinada pela cigarra; ter que aturar a cara feia de cobradores que não suportam os estudantes que pagam meia utilizando-se do valão,enquanto o inter-bairros de Natal usa cartão eletrônico e estação de transferência; ter que se livrar de um motorista cretino que se diverte alisando as mãos dos passageiros e passageiras, quando estes lhe entregam a senha amarela, verde, branca ou rosa; ter que atuar um cobrador fanático pelo Flamengo que só falta bater em quem torce pra outro time, ele passa a viagem inteira falando do “Mengão”, tornando o trajeto interminável (só queria abrir este outro parêntese para dizer que deixei de ser flamenguista por causa do tal cidadão, é angustiante. Até Zico e Márcio Braga passariam a torcer para o Vasco depois de uma viagem do ônibus das 15h, com destino a Natal).
Enfim... Morar além da Rota do Sol deve ser muito bom, pra que tem dinheiro, casa com piscina, churrasqueira, e quadra de beach soccer; carro, com ar-condicionado, de preferência, e que tenha uma cisterna em casa, mas isso é só pr'aqueles que não moram na beira da praia, onde a água é pura, limpa, e à vontade.

2 comentários:

Não tenho nome .... tenho dedos que se identificam no teclado disse...

Morar depois da Rota do Sol é bom ... parece que dá para enxergar as veias que natal esconde nos bares da Ribeira e nas ribanceiras de Petrópolis ...

FFF disse...

Nem tudo é Alphaville...