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terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Visão da Criança – Bicho Papão

Às vezes, eu me esforço, mas não me lembro dos meus tempos entre bebê e criança. Não sei. Tenho na memória alguns pequenos flashes das coisas que eu pensava e fazia. Na verdade, não sei ao certo se realmente o que guardo e trago comigo são fatos ou invenções de uma mente infantil.
Nesses dias, eu reparei que o filho de uma vizinha, de um aninho de idade mais ou menos, fazia um auê quando me via. Ele procurava o acalanto do colo de alguém conhecido enquanto apontava pra mim com o dedo, geralmente sujo dessas coisas que saem do nariz quanto a gente fica gripado, e me fulminando com o olhar de pavor ao mesmo tempo em que dizia: – O homi, o homi.... o homi...
Cara, não é pela barba que uso, mas ele realmente tem medo de mim. Nunca fiz mal a ele, uma criança indefesa, que tem como escudo aquele quase indescritível olhar...
No início eu não dei importância à atitude, para a hostilização que sofria daquele menino, até o dia que minha esposa percebeu a cisma que o menino tinha de minha pessoa. Ela, como tinha mais intimidade, por ser parente inclusive, resolveu averiguar o motivo daquele medo, o motivo da angustia que o menino demonstrava toda vez que me via.
Um dia, quando estava saindo pra trabalhar, vi o menino todo cagado, a merda que escorria por suas pernas tinha a cor semelhante a vitamina de abacate feita no dia anterior, sua tia se preparava para dar-lhe um banho no quintal. Quando esse menino me viu, correu pra dentro da casa da avó e gritou com o tom de pavor e o dedo causador em minha direção, ele dizia: – O homi, o homi... o homi.. Seria engraçado se não fosse tão nojento. Dava pra ver as pegadas com bordas de diarreia demarcando a trajetória dos passos do moleque na cozinha de chão vermelhão da casa da sua avó materna.
Dias mais tarde, ao chegar em casa a noite, cansado, minha esposa me diz da onde veio a nóia que o menino entrava sempre ao me ver. Parece que a criança, protagonista desta narração, não queria comer, então sua mãe disse: – Coma, mininu, si nãum chamu o bicho papão. Nessa hora, eu ia dobrando a esquina, voltando do trabalho.
Então entendi o porquê do menino ter medo de mim até hoje, só não entendi ainda por que ele me chama de “homi” e não de bicho papão.

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