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segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A Camisa Suja

Vera se assustou quando eu entrei em casa com a camisa suja de sangue e do lado do avesso. Ela era espantada com tudo, visse?

...

– Clemeeente! Clemente! Clemente, o que é isso aí na sua camisa? – meio louca e histérica, ela me perguntou.
– É apenas uma camisa do lado do avesso e suja de sangue – sinceramente eu respondi.
– Mulestia! Eu sei o que é isso! Quero saber por que sua camisa está assim, desse jeito, parece que saiu do cu de uma vaca com diarréia que comeu beterraba até dizer chega.
– Que isso, mulher? – disse querendo parecer santo e desconversando. – Não precisa ser assim tão cheia de imundices... eu já te conto tudo o que aconteceu, mas primeiro me deixe tomar um banho, ta meu bem?
– Cê num vai mover um centímetro até me contar o que está acontecendo. Você andou deflorando um batalhão de meninas fedorentas, num foi isso?
– Que história, Vera? Largue desse seu jeito de dedutora, parece até a vizinha da rua de baixo.
­– Conta agora... anda! Você não bebeu! Aconteceu alguma coisa então...
– Ta bom... Ta bom... Vou contar. Foi o Seguinte...

– Eu vinha caminhando em direção ao ponto de ônibus, certo? Estavam comigo o Carlos Alberto, o Matias e o Julião, filho de Inês da Padaria. O ônibus demorou muito. Eu queria fazer uma surpresa pra você chegando mais cedo, já que a gente foi dispensado logo depois do almoço. A gente desconfia que o chefe tava querendo comer a Dona Magali, sua secretária, mas ele disse a gente que ia fazer uma dedetização, poderíamos ir e só voltar dali a três dias.
No ponto de ônibus, Matias deu a idéia de irmos de taxi, cada um pagaria no fim das contas quase a mesma coisa da passagem. Então chamamos um taxi. Cinco minutos após termos ligado, otáxi chegou. Carlos Alberto, como você mesma sabe, é muito metido a gente importante, de classe social alta... enfim, acabou indo na frete... ele achava que rico andava na frente no taxi. Atrás fomos eu, Matias e Julião. Tudo estava tranqüilo, a gente tava ouvindo a rádio que toca só aquelas músicas antigas, aquelas do tempo em que a gente nem pensava em sacanagem quando namorava, lembra?
Mais ou menos uns quinhentos metros depois do sinal da Avenida da Pastelaria São Severino das Orquídeas Verdes, vimos uma briga de mulheres. Elas puxavam os cabelos uma da outra, as duas tavam com as camisas rasgadas. Não havia ninguém por perto. Conclusão: paramos o carro, pois Julião queria que a gente apartasse a briga ou logo as duas acabariam ficando nuas. O motorista do taxi e Matias bem que queriam ver elas peladas, mas elas nem eram tão bonitas assim, na verdade uma era magra feito a Olívia Palito e outra era mais gorda que a sua mãe...
– Ta, mas e aí, o que aconteceu? Vocês apartaram a briga? – Vera era meio fofoqueira, na verdade se dizia interessada em assuntos novos, dizia que era bom a gente saber das coisas que aconteciam no mundo, mas principalmente, na rua aonde a gente mora. Ah! Essa é minha Verinha. Por um instante achei que ela tinha esquecido da camisa pelo avesso e suja de sangue, mas ela logo continuou... – Me diga logo como sua camisa foi ficar nesse estado, cuida que tenho mais o que fazer!

– As mulheres estavam no auge da briga, quando percebemos qual foi o motivo: elas estavam lutando por causa de uma galinha... É uma simples galinha de terreiro. Uma dizia: –“É minha... eu a crio desde que era um pinto...” – “Vá se fuder!” dizia a outra. O motorista do táxi teve uma idéia que não socializou com a gente, ele pegou a galinha e disse: –“Acabou a briga. A galinha agora é minha". E  seguiu em direção ao táxi com a galinha por debaixo dos braços.
– E as mulheres? O que elas fizeram? – perguntou-me Vera, mais curiosa do que eu quando fomos saber se nosso filho era homi ou mulher.
– Escuta a resenha! Elas se uniram e correram atrás da gente. A gente nem tinha culpa, mas as loucas vieram com cabos de vassouras e deram pra valer na gente.
– E vocês? Fizeram o que? Nada, né? Um bando de frouxo! – o pior que ela tinha razão quando dizia isso.
– Nada mulher! O taxista não queria entregar a galinha, e como a gente já tava puto pelas porradas levadas à toa, entramos de vez na briga... Ficamos jogando a galinha de um para o outro, e quando, acho que pela quinta ou sexta vez que eu segurava a galinha, as mulheres, que pareciam dois mil demônios ao pé da cruz, voaram pra cima de mim! A magrinha me bateu com um pedaço de cama, acho que um pé de cama, daquelas madeiras boas, como vende o João dos Móveis. Caí no chão sem saber se continuava dando gargalhadas ou partiria para a agressividade. Tentei passar a galinha para o Matias, mas não deu tempo, a gorda pulou em cima de mim esmagando contra meu peito a galinha...
– Vixe! As mulheres devem ter ficado doidas, né? – Ela fazia um movimento de sobe e desce com a mão, tipo o Chaves, enquanto dizia isso, isso, isso...
– E como! ­– eu arregalava os olhos pra dar mais emoção. – Mas no final a gente fez uma vaquinha e deu um dinheiro praquelas duas selvagens, que ficaram até felizes. Lembro que a mais gorda disse –“Vamu comprá galinha na fêra, é mais baratu”. Acabamos por não pagar a corrida de táxi, já que o motorista, que aceitou nossos argumentos, era quem tinha nos envolvido naquele barraco.
­– Ta certo, Clemente. Agora vá tomar um baínho. E se esfregue bem, viu?
­– Ta certo, meu bem.
–Sim! E por que a camisa está do lado errado? Você não disse essa parte da história.
–Depois eu falo, amor. Não estou agüentando o cheiro de galinha jazida.

...

Passei duas horas no banho pra Vera esquecer esse negócio de camisa do avesso. Quando saí, ela nem perguntou.

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